sábado, 16 de abril de 2011

Francis e Cristina - outra homenagem minha a Chico Buarque

Francis e Cristina eram um casal de amigos meus. Francis era meu amigo de infância. Cristina era colega da faculdade e minha confidente. Eles se conheceram por mim. Mas no fim, não souberam aproveitar a oportunidade. Certa feita, soltando os monstrinhos que tinham dentro de si, um para devorar o outro, brigaram sem fim...

Na briga ele disse a ela assim:

Eu tinha alguém que comigo morava. Mas tinha um defeito que brigava, com razão ou sem razão.
Encontrei um dia uma pessoa diferente, que me tratava carinhosamente. Dizendo resolver minha questão. Mas não!

Foi assim, troquei essa pessoa que eu morava por essa criatura que eu julgava que pudesse compreender todo meu eu.
Mas no fim, fiquei na mesma coisa em que estava, porque a criatura que eu sonhava não faz aquilo que me prometeu.

Não sei se é meu destino. Não sei se é meu azar. Mas tenho que viver brigando.
Todos no mundo encontram seu par. Porque só eu vivo trocando?

Se deixo de alguém, por falta de carinho, por brigas e outras coisas mais, quem aparece no meu caminho tem sempre os defeitos iguais. 


Ela respondeu, relembrando o passado disse:

Eu lembro como se fosse hoje. Como num romance você, o homem dos meus sonhos, me apareceu no dancing. Era mais um.

Só que num relance, seus olhos me chuparam feito um zoom.

Me comia com aqueles olhos de comer fotografia. Eu disse cheese.
E de close em close fui perdendo a pose, até sorrir, feliz.

Você voltou me ofereceu um drinque. Me chamou de anjo azul.
Minha visão foi desde então foi ficando flou.
Como no cinema, você me mandava às vezes, uma rosa e um poema.
Eu, feito uma gema, fui me desmilinguindo toda ao som do blues.

Abusou do scotch, disse que meu corpo era só teu aquela noite. Eu disse please!
De xale no decote, disparei com as faces rubras e febris.

Você voltou no derradeiro show, com dez poemas e um buquê. Eu disse adeus, Já vou com os meus numa turnê.

Como amar esposa, você disse que agora só me amava como esposa, não como star.
Me amassou as rosas, me queimou as fotos, me beijou no altar.

Nunca mais romance, nunca mais cinema, nunca mais drinque no dancing, nunca mais cheese. Nunca uma espelunca. Uma rosa nunca, nunca mais feliz.


Ele, arrependido, dizia:

E eu!
Tive pra mim: agora sim eu vivia enfim o grande amor. Mentira!
Me atirei assim de trampolim fui até o fim um amador.
Passava um verão a água e pão, dava o meu quinhão pro meu grande amor. Mentira!
Eu botava a mão no fogo então com meu coração de fiador.

Fui muito fiel, comprei anel, botei no papel o grande amor. Mentira!
Reservei hotel, sarapatel e lua-de-mel em Salvador.
Fui rezar na Sé pra São José, que eu levava fé no grande amor. Mentira!
Fiz promessa até pra Oxumaré de subir a pé o Redentor.

Ela, já desesperada, suplicava:

Meu amor, pense em mim.
Você tem um jeito manso que é só seu. Me deixa louca quando me beija a boca. A minha pele toda fica arrepiada quando me beija com calma e fundo, até minh'alma se sentir beijada.
Rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos com tantos segredos lindos e indecentes.
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo e me crava os dentes.

Você me deixar maluca quando me roça a nuca e quase me machuca com a barba malfeita.
O jeito de pousar as coxas entre as minhas coxas quando se deita.
O jeito de me fazer rodeios, de me beijar os seios, me beijar o ventre e me deixar em brasa.
Desfruta agora do meu corpo como se o meu corpo fosse a sua casa.
Eu sou sua menina e você é o meu rapaz. Meu corpo é testemunha do bem que você me faz.

Ele, firme na decisão, era conciso:

Não!
Já lhe dei meu corpo, minha alegria. Já estanquei meu sangue quando fervia.
Olha a voz que me resta! Olha a veia que salta! Olha a gota que falta pro desfecho da festa!
Por favor, deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa.

Quando você chora não sei se é dos olhos para fora, não sei do que ri.
Eu não sei se você agora está fora de si, ou se é o estilo de uma grande dama.
Não sei se está mesmo aqui, quando se joga na minha cama.
Deixe em paz meu coração que ele é um pote até aqui de mágoa.
Te falei, qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d'água.

Quando você mente não sei se deveras sente o que mente para mim.
Serei eu meramente mais um personagem efêmero da sua trama sem fim?

Quando você, vestida de preto, dá-me um beijo seco, prevejo meu fim.
E a cada vez que o perdão me clama, se joga na cama, mas nem sei se estais aqui.

Eu não sei se você sabe o que fez, quando fez o meu peito querer cantar outra vez.
Quando jura, não sei por que Deus você jura, que tem coração.
Te repeti, diversas vezes, qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d'água.
E você não deixou em paz meu coração e ele hoje é um pote até aqui de mágoa.

Ela, já chorando:

Quando você me deixou pela primeira vez, meu bem, olhaste bem nos olhos meus.
Me disse pra ser feliz e passar bem. Teu olhar era de adeus.

Juro que não acreditei. Eu te estranhei.
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei. Me arrastei e te arranhei e me agarrei nos teus cabelos, no teu peito, nos teus pelos, teu pijama, nos teus pés ao pé da cama.

Sem carinho, sem coberta, no tapete atrás da porta, reclamei baixinho.
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci.
Mas depois, como era de costume, obedeci.

Agora vou maldizer o nosso lar. Sujar teu nome, te humilhar.

Ele, irredutível, afirmava:

Eu só lhe fizesse o bem. Talvez fosse um vício a mais, mas você me teria desprezo por fim.
Porém não fui tão imprudente e agora não há francamente motivo pra você me injuriar assim.

Dinheiro não lhe emprestei, favores nunca lhe fiz. Não alimentei o seu gênio ruim.
Você nada está me devendo, por isso, meu bem, não entendo, porque anda agora falando de mim?
Você levou meu sorriso no seu sorriso. Meu assunto. Levou junto ele com o que me é de direito.
Arrancou-me do peito. E tem mais, levou seu retrato, seu trapo, seu prato. Que papel!
Uma imagem de são Francisco e um bom disco de Noel.

Você matou nosso amor. De vingança, nem herança deixou.
Não levou um tostão, porque não tinha não. Mas causou perdas e danos.
Levou os meus planos; meus pobres enganos; os meus vinte anos; o meu coração.
E além de tudo, me deixou mudo, um violão.
Você faz cinema, você é assim.
Porém eu sei viver sem. E fim.

Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim. Não me valeu. Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim? O resto é seu.

Trocando em miúdos, pode guardar as sobras de tudo que chamamos de lar.
As sombras de tudo que fomos nós. As marcas de amor nos nossos lençóis.
As nossas melhores lembranças. Aquela esperança de tudo se ajeitar.

Pode esquecer aquela aliança, você pode até empenhar, ou derreter.
Mas devo dizer que não vou lhe dar o enorme prazer de me ver chorar.

Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago: meu peito tão dilacerado.
Aliás, aceite uma ajuda do seu futuro amor pro aluguel.

Mas me devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu.
Amanhã eu bato o portão sem fazer alarde e levo a carteira de identidade. Uma saideira, certa saudade.
E a leve impressão de que já vou tarde.

Ela, com raiva e decidida, então sentenciou:

Quando você me quiser rever, já vai me encontrar refeita, pode crer.
Olhos nos olhos, quero ver o que você faz. Ao sentir que sem você eu passo bem demais.
E que venho até remoçando. Me pego cantando sem mais nem por que. E tantas águas rolaram. Quantos homens me amaram bem mais e melhor que você.
Quando talvez precisar de mim, ‘cê sabe que a casa do Bonfim é sempre sua, venha sim. Seus olhos nos meus olhos, quero ver o que você diz. Quero ver como suporta me ver tão feliz.

Vou vingar a qualquer preço. Te adorando pelo avesso...

Pra mostrar que inda sou tua...

Só pra provar que inda sou tua...


Desvanescendo-sem em mágoas às lágrimas...

No outro dia, Francis veio conversar comigo. Inconsolável, conversamos:

Se ela ainda tem seu endereço, ou se lembra de você, confesso que não perguntei.
Mas se você quer mesmo saber por que que ela ficou comigo, eu digo que não sei.

Ah! As nossas noites eram feito oração na catedral. Não cuidamos do mundo um segundo sequer. Que noites de alucinação passei dentro daquela mulher. Com outros homens, ela só me diz que sempre se exibiu e até fingiu sentir prazer. Mas nunca soube antes de mim que o amor ia longe assim.

Não foi você quem quis saber?

Ando com minha cabeça já pelas tabelas. Claro que ninguém se importa com minha aflição.
Será que Cristina volta? Será que fica por lá?
Será que ela não se importa de bater na porta pra te consolar?

Noite e dia me pergunto, meu assunto é perguntar.
Esses dias, quando vi todo mundo na rua de blusa amarela, eu achei que era ela puxando o cordão.

É tanta saudade, é pra matar! Eu fico até doente!
Se eu não mato a saudade...
...É, deixa estar, saudade mata a gente.

Danço de blusa amarela, pois minha cabeça talvez faça as pazes assim.
Quando ouvi a cidade de noite batendo as panelas, eu pensei que era ela voltando prá mim.

Será que Cristina volta?
Sei lá se ela quer voltar?
Será que Cristina volta.
Será que fica por lá?

Minha cabeça de noite batendo panelas provavelmente não deixa a cidade dormir.
Quando vi um bocado de gente descendo as favelas, eu achei que era o povo que vinha pedir a cabeça de um homem que olhava as favelas.

Quando vi a galera aplaudindo de pé as tabelas, eu jurei que era ela que vinha chegando com minha cabeça já pelas tabelas.

Imagina sua cabeça rolando no Maracanã?

Cheio de saudades suas procuro nas ruas quem saiba informar. Uns sorrindo fazem pouco, outros me tomam por louco. Outros passam tão depressa que não podem me escutar

Será que Cristina volta, será que ela vai gostar?
Será que nas horas mais frias das noites vazias não pensa em voltar?
Será que vem ansiosa, será que vem devagar?

Mas, claro que ninguém se importa.

Quis saber o que é o desejo, de onde ele vem. Fui até o centro da Terra e é mais além. Procurei uma saída e amor não tem. Estou ficando louco, louco de querer bem.
Quis chegar até o limite de uma paixão. Baldear o oceano com a minha mão.
Encontrar o sal da vida e a solidão. Esgotar o apetite, todo o apetite do coracão
Mas voltou a saudade. É pra ficar, aí eu encarei de frente.

Se você ficar na saudade, é deixa estar. Saudade engole a gente.


Depois conversei com ela, que me disse assim:

Quando o Francis querer me vir, estou certa que há de vir atrás. Há de me seguir por todos, todos, todos, todos os umbrais.

E quando o seu bem querer mentir que não vai haver adeus jamais.
Há de responder com juras, juras, juras, juras imorais.


E quando ele querer sentir que o amor é coisa tão fugaz, há de me abraçar com a garra. A garra, a garra, a garra dos mortais.

E quando o seu bem querer pedir pra você ficar um pouco mais, há que te afagar com calma. A calma, a calma, a calma dos casais.


E quando o meu bem querer ouvir o meu coração bater demais, há de me rasgar com a fúria. A fúria, a fúria, a fúria assim dos animais.

E quando o seu bem querer dormir, tome conta que ele sonhe em paz, como alguém que lhe apagasse a luz, vedasse a porta e abrisse o gás.

Continua...

sábado, 9 de abril de 2011

A História do Menino Jesus

Adaptado por Rafael Rivas



Segundo contou minha mãe, quando eu era criança, era um pouco dele, meu pai, uma eterna lembrança.



Tudo começou num bar. Ali, eles dois se amaram num só olhar. Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar. Eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar. Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente. E minha mãe se entregou a esse homem perdidamente.


Sem ao menos esperar ele teve de ir embora, assim de repente. Disse que deveria enfrentar tempestades, valentemente.

Na partida, deixou as seguintes palavras de despedida: “Quem me dera ficar meu amor, de uma vez. Mas escuta o que dizem as ondas do mar. Seu eu me deixo amarrar por um mês na amada de um porto, noutro porto outra amada é capaz de outro amor arranjar. Ah, a minha vida, querida, não é nenhum mar de rosas. Chora não, vou voltar”. 

Secando as lágrimas, no cais, ela assim disse, pra nunca mais: “Quem me dera amarrar meu amor por quase um mês, mas escuta o que dizem as pedras do cais, marujo cortês. Volte, assim como estais. Volta sim, e segue em paz”.

Ele assim como veio partiu não se sabe prá onde, deixando minha mãe com o olhar cada dia mais longe. Ela se despediu dele, que em um barco partia, bem onde ele jurou que voltaria. E ela, encharcada em prato, jurou que esperaria.

Esperando, parada, pregada na pedra do porto, com seu único velho vestido cada dia mais curto, ela então cantarolava uma música que falava do mar, da saudade que sentia e da amargura de tanto amar:
“Tristeza, por favor, vá embora. A minha alma que chora, está vendo o meu fim. Fez do meu coração a sua moradia. Já é demais o meu penar. Quero voltar àquela vida de alegria. Quero de novo cantar”… e, com voz embargada, seguia o refrão: “la ra rara, la ra rara, la ra rara, rara. Quero de novo cantar”.

E assim permanecia ali, a esperar, sempre no cais. Usava o mesmo vestido, pois, se ele voltasse, não iria se enganar. Aguentava bem forte, mesmo não sendo capaz. O marujo de ouro no dente, que tempestades enfrentava, e com todas as mulheres falaz.

Mais de mil luas se passaram e o tempo se escorreu. Ela pensava que o barco virara e que seu amor no mar morreu. Mas então, prenhe de esperança, lembrava-se dos dizeres. E assim seus olhos se encheram de amanheceres.

Sozinha no esquecimento, com seu espírito ao relento. Sozinha, com seu amor em mar, no porto a esperar.

Quando enfim eu nasci, minha mãe embrulhou-me num manto.  Vestiu-me como se eu fosse assim uma espécie de santo. E não sei bem se foi por ironia ou se por amor, resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor.

Na infância, sem conhecer o marujo, minha mãe contou-me, em um dia carujo, da sua valentia, dos versos que fizera pra ele, falando de mim e também do que sentia:
“Veja bem, meu bem,
Sinto te informar, que arranjei alguém pra me confortar.
Este alguém está quando você sai.
Eu só posso ter, pois sem ter você nestes braços tais.

Veja bem, amor, onde está você?
Somos no papel, mas não no viver.
Viajar sem mim, me deixar assim.
Tive que arranjar alguém pra passar os dias ruins.

Enquanto isso, navegando eu vou sem paz.
Sem ter um porto, quase morto, sem um cais
E eu nunca vou te esquecer, amor.
Mas a solidão deixa o coração neste leva-e-traz.

Veja bem além destes fatos vis.
Saiba: traições são bem mais sutis.
Se eu te troquei não foi por maldade.
Amor, veja bem, arranjei alguém chamado saudade”.

“laiá, laiá... laiá, laiá”.

Eram versos lindos, como seus olhos, já azuis pela cor do mar. Enquanto ela esperava lá, cansada de tanto amar, na pedra do porto, com aquele o olhar quase morto, a esperança escrava, ainda sorria quando uma embarcação no cais atracava.

Seu cabelo se branqueou, mas nenhum barco seu amor a devolvia. Os caranguejos lhe mordiam, sua roupa, sua tristeza, sua ilusão. Todos a chamavam de louca, a louca do cais. Mas ninguém podia arrancá-la. Do mar, não a separaram jamais.

Certo dia deixei-a sozinha, no esquecimento, com sua agonia, seu espírito, seu amor em mar. Com o sol, o velho vestido a voar, permaneceu naquele lugar, no molhe de São Bras.

Agora conto minha história, com esse nome que ainda hoje carrego comigo, quando vou de bar em bar, viro a mesa, berro, bebo e brigo. Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz, me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus.




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"Minha história" (Gesú bambino), música e letra de Lucio Della e Paola Pallotino, versão de Chico Buarque.
"El Muelle de Sán Blas", música e letra de Fernando Olvera e Álex González, banda Maná.
"Tristeza", Vininius de Moraes.
"Veja bem meu bem", Música e letra de Marcelo Camelo.
Adaptação minha, com versos e palavras que dão rima e ajustam ao contexto das músicas para expressar a ideia do texto.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O Pombo Enxadrista






Há anos eu jogo xadrez no mesmo lugar, na mesma mesa da Praça da Alfândega. Na velhice, é a única coisa que faz eu me sentir vivo, depois que perdi minha amada esposa.

Vou à tarde, sento-me na minha mesa da sorte e só saio à noite, quando começa a escurecer e aparecem os primeiros “perdidos”.

Sempre que chego já me aparece outro velho pra me desafiar.

Sempre ganho. Nem lembro das vezes que perdi, de tão raras. Sou um bom enxadrista, modéstia parte.

Dia desses, porém, cheguei e vi que minha mesa da sorte estava tomada de cocô de pombo. Aquela praça é cheia deles. Mal se podia ver as 64 casas, pois estavam todas brancas de merda de pombo. Situação desagradável.

Não quis limpar. Decidi-me a não jogar nesse dia.

Foi então que um velho, do outro lado da ruela, me chamou para jogar no tabuleiro da mesa dele. 

Sentei e joguei. 

Perdi todas as partidas...

Maldito pombo!