quarta-feira, 16 de maio de 2012

A Dança do Silêncio






Foi estranho vê-la assim tão de repente, depois de tantos anos, entre pessoas conhecidas e rostos estranhos. Sua face se iluminava pela fogueira acesa na areia. Ainda era linda, alguns anos mais velha, mas como se fosse a mesma, só que vestindo uma roupa antiga. Seu corpo balançava como as ondas do mar com o ritmo da música do violeiro, aquele sorriso tímido seguindo com os lábios a letra de Redemption Song. Encontrá-la num luau à beira do mar foi realmente muito estranho e inesperado.

Fiquei por alguns minutos de pé, do outro lado da fogueira, fitando seu rosto, que escurecia e se iluminava pelo roçar do vento na fogueira, até que uma amiga do seu lado lhe falou algo no ouvido e ela me olhou. Quando seus olhares me alcançaram, a boca parou de cantarolar, quedou-se pálida e semicerrada, com a língua entre os dentes, sussurrou meu nome e pude notar uma lágrima contida no canto do seu olho esquerdo. Talvez não pudesse crer em tamanho acaso, assim como eu.

O violeiro, seguido de um acordeonista, iniciou Mondo Bongo, do Joe Stummer, que era, para coroar a coincidência, a nossa música, minha e dela. Ela agora já nem sabia mais o que fazer, de tão nervosa. Decidida, passou a mão naqueles negros cabelos longos, colocando-os atrás da orelha, levantou e, ainda me olhando, veio em minha direção. Trajava uma leve saia branca que ia da cintura até os pés descalços, e uma blusa azul turquesa deixando quase aparecer pouco do peito. Atravessou a fogueira e estacionou a um palmo do meu rosto. Com minha mão direita peguei na sua esquerda, que pendia suada e trêmula, deitei o rosto sobre seus ombros, sentindo aquele mesmo perfume de outrora, ergui a cabeça e acenei para trás, indicando minha vontade de dançar um pouco, longe dali. Segurei com minha mão esquerda a sua cintura, dei um passo para trás e começamos a dançar.

Enquanto rodávamos, ela me olhava como se eu fosse um desconhecido, um estranho e misterioso homem que lhe encantara repentinamente. De tanto girar, nos distanciamos da fogueira, sentindo a areia gelada nos pés descalços. A música ia entrando no ritmo dos nossos corpos, já velhos conhecidos. A lua agora era nossa única testemunha, pois as pessoas pareciam não mais estar ali, só a música, a areia, e eu e ela a dançar.

“Latino caribo, mondo bongo, the flower looks good in your hair. Latino caribo, mondo bongo, nobody said it was fair, oh”. Girei-a e agarrei por trás, comprimindo seu corpo no meu. Ela lançou uma risada de liberdade, afastou-se, virou e me olhou nos olhos, com o vestígio do riso na boca. Mordeu o lábio, balançou a cintura de um lado para o outro, colocou o pé esquerdo no joelho direito e caiu sobre mim. Aparei sua queda, ficando meio palmo de boca a boca. A levantei com a brandura da música, cravei minhas digitais na sua cintura e, aproximando minha boca da sua suavemente, senti o que há tempos não sentia: a fragrância adolescente, uma felicidade estranha.

Aquela boca era bem mais que uma boca. Aquele beijo significava muito mais que um simples roçar de lábios. A música acabou, o fogo apagou, o mundo calou, a boca esfriou, a lágrima secou, e o mundo inteiro voltou a rodar. Abri os olhos e me deparei com o rosto dela, pálido e indiferente.

Ela desviou o olhar, olhou para o chão, olhou para as pessoas indo embora, virou-se, mexeu no cabelo e partiu. Nem a lua nos espiava mais. Antes de sair da areia, olhou pela última vez para trás e me viu ali, parado, como fiquei durante algumas horas, até que meus joelhos cansaram e eu sentei. Sentei na areia gelada daquela noite fria, naquele vento intenso daquela cena estranha. Olhei pras minhas mãos, que ainda conservavam o calor do corpo dela, coloquei no meu rosto, passei os dedos nos meus lábios, olhei para o mar e pude ver aquilo que talvez estivesse latente dentro de mim há tempos, aquela verdade velada que me fazia sonhar com esse dia.


Eu sei que eu a amava, e ainda amo. Ela também deve sentir o mesmo. É sempre amor, mesmo que mude. É sempre amor, mesmo que acabe.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O Assalto da Vida






“Cadê o Geral, cadê o Geraldo?”. Escuto meu nome ser proferido aos berros do lado de fora da minha porta, mas não entendo por quê. Levanto e vou até a porta, para ver do que se trata. Abro a porta, saio confuso e sinto algo gelado forçando minha têmpora direita. Na minha frente está minha secretária ajoelhada e um homem de capuz preto na cara, que segura uma arma contra a nuca dela. Ainda sem entender o que acontece, olho pra direita pra tentar achar a coisa que incomoda minha cabeça: é outra arma, outro bandido de capuz preto na cabeça. Ele diz "Ajoelha" pra mim e minhas pernas obedecem antes da cabeça mandar. "Tu que é o Geraldo?", ele grita, e antes de eu responder, Letícia de súbito diz que sim, que sou eu o gerente do banco e o único que pode dar o dinheiro que eles querem.

Tantos anos sendo minha secretária e nunca pensei que ela me trairia desta forma. O algoz dela me olha e diz: "É ele", apertando em seguida o gatilho da arma que estava sobre a cabeça de Letícia. BLAM! O barulho seco do tiro abafado pelo crânio dela me deixa surdo, a luz intensa que sai do cano da arma deixa minha vista branca e o cheiro do sangue, da carne e da e pólvora me baixam a pressão.

Como cheguei até aqui? Esta é a vida que eu imaginei ter? Eu queria ser bombeiro, era apaixonado por caminhões de bombeiros e suas sirenes. Sempre que brincava com meus amigos eu era quem salvava as vítimas. Depois pretendi ser médico, salvar pessoas, me tornar pediatra, ou geriatra, resolveria problemas graves. Abandonei a ideia no segundo semestre da faculdade, mas foi lá que eu conheci meu primeiro e verdadeiro amor. Ela era linda, tão tímida que encantava qualquer um. Fazia enfermagem, só que sonhava mesmo em ser médica, pediatra ou geriatra. Foi aí que me apaixonei, mesmo que desapaixonara da medicina. Saímos algumas vezes, e ela também estava apaixonada, apesar de eu ter perdido a oportunidade de realizar um sonho que ela tinha. Comecei a estudar administração, pois não sabia o que iria fazer da vida. Lá que eu aprendi, com alguns colegas mal intencionados, a proceder pequenos golpes no banco em que eu estagiava. Me formei, fui efetivado no banco, mas, depois que Cíntia descobriu meus planos de fazer um golpe grande no banco, terminou comigo e nunca mais nos vimos. Disse que não me conhecia, que eu não era quem ela pensava ser, um altruísta, filantropo, alguém ético e correto. Eu queria poder, dinheiro, posição, era e sempre fui ambicioso. Ela nunca entenderia, por ser inocente e ingênua demais. Esse é um mundo de Geraldos, não de Cíntias.

Por já ter certa posição no banco, e conseguir muito dinheiro desviando aposentadoria de velhinhos, casei com a filha de um influente político do estado. Ele me promoveu a gerente geral da maior agência do banco no estado, o que me deu margem para desviar grana grande. Honesto ele nunca foi mesmo, porque não dar uma boa condição de vida a sua própria filha, indiretamente? Apesar de estar feliz com minha vida financeira, nunca fui feliz com minha esposa arranjada. Ela também não deve ter sido, pois também foi forçada, uma vez que o pai dela arranjou o inescrupuloso perfeito para ajudá-lo nas licitações fraudulentas. Tive apenas um filho, que parou de estudar quando foi para uma universidade na Holanda e agora é traficante de drogas na zona vermelha. Se arrependimento matasse… ou melhor, se arrependimento evitasse que a gente morresse como agora vai acontecer comigo! Eu viveria outra vida. Aliás, eu voltaria a viver a vida antes do primeiro desvio, encontraria Cíntia e tentaria mostrar que, agora que estou para morrer, sinto novamente meu amor por ela, o quanto estive errado e como minha vida seria da forma que ela previu, naquele dia em que nunca mais vi ela.

Queria tanto não morrer agora, como Letícia, que foi sumariamente descartada por não ser quem essa gente procurava. É assim que um homem arrependido deve morrer, pelas mãos de assassinos frios que só querem dinheiro?

Sinto um tapa na cara e o sujeito manda eu levantar, querem que eu abra o cofre. Tento dizer que não tenho a chave, mas eles mostram saber mais da minha vida que minha própria esposa. Pego a chave, há cinco milhões de reais lá dentro. Com esse dinheiro eu poderia dar uma vida de rainha pra Cíntia, fazer dela a mulher mais feliz do mundo. Pagaria sua faculdade de medicina, se ela já não fosse médica, ela se tornaria geriatra, ou pediatra, e cuidaria de mim quando envelhecêssemos, teríamos dois filhos, uma casa de campo na serra, uma poltrona confortável à beira de uma lareira. Mas esse dinheiro agora não poderia mais ser meu, nem do banco, nem dos verdadeiros donos, pois os homens encapuzados, que creio serem cinco, em conta feita por alto, portanto um milhão para cada, o que seria justo, uma vez que assaltam juntos o maior banco do estado, cujo gerente é um dos homens mais sujos do país, agora vão levar sem nenhum esforço. Enfio a chave trêmula, giro e estalo! Trinta e dois pra direita, sessenta e cinco pra esquerda, estalo! Setenta pra direita, vinte e quatro pra esquerda, estalo! Trinta e nove pra direita e, e, e... e qual é a porra da última dezena? Cinquenta e cinco? Cinquenta e seis? "Foda-se, vou explodir", diz o mais impaciente deles. BLAM! Agora o fogo que me cega é do cano da arma que apontava pra minha testa e agora empurra a mão do atirador contra seu corpo, o barulho que eu escuto é da explosão do projétil que agora entra na minha cabeça e o cheiro que eu sinto é do meu sangue que escorre pelo meu rosto.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Aos Braços de Morfeu





Por Laura Carvalho

Um grito me despertou no meio da madrugada. Acordei assustada: “De onde vem esse grito?” – pensei. Ainda trôpega de sono, olhei pela janela: tudo em paz. Silêncio no quarto e na rua, nenhum movimento a não ser meu peito descompassado. Confusa, voltei para a cama, ainda com ecos daquele grito na mente. Quando consegui relaxar e estava para ultrapassar aquela doce fronteira que separa o sonho da realidade, encontrei a fonte do grito: era minha alma, que tão profundamente tocada, ao se ver sozinha, clamara por quem a marcou.

Com olhar distante, ela me indagou: “Por que fizeste isso? Como podes me expor a semelhante sublime maldição? Eu, que sou tua essência, tua guia, teu ser. Agora me ofereces um encontro apenas na fluidez das quimeras? E se quando acordares ele não estiver lá? Vais sofrer e eu junto, com a lembrança de um sonho a escapar-te a medida em que despertas”.

“Tola” – respondi-lhe. Acaso não sabe que duas almas quando se tocam já não são dois elementos isolados, mas duas partes de um todo único e indissolúvel?  Ele vai estar comigo a cada sorriso que outros enxergarem em meu olhar, a cada pensamento suspirado, a cada desejo contido até o momento de nossos corpos se encontrarem novamente. E quando a saudade não couber mais no peito, a ponto de extrapolar as barreiras, vou te enviar ao encontro do nosso elemento perdido finalmente encontrado, aquela parte dele que, de tão igual a ti, te causa tal abstinência insana apenas por estar ausente”.

“Venha comigo, companheira” – chamei, oferecendo-lhe minha mão – “adentremos as terras de Morfeu, onde a distância não separa duas almas amantes”.


Olhando então para o espaço além dos portões que libertam as almas, ela me deu a mão, mas não sem antes fazer uma última pergunta: “E se ele não estiver lá?”. “Não se preocupe” – afirmei, já nos encaminhando para transpor a entrada – “ele vai estar lá!”.




- Como não se apaixonar por uma mulher que te acorda com uma história dessas em forma de SMS? Essa é minha namorada, Laura Carvalho, que me fascinou de todas as maneiras humana, psíquica e espiritualmente possíveis. Obrigado, meu lugar certo. Te amo!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A Grande Contradição da Greve dos PMs na Bahia

Por Rafael Rivas

Greve armada não é greve legal e legítima


Existe uma grande contradição nesta greve dos PMs da Bahia. Na verdade, existem algumas. A primeira, se ela é legítima ou não. A segunda, se é legal ou não. A terceira, é sobre a cobertura e opinião da mídia sobre o caso. A quarta, se deve se tratar esta reivindicação como se tratam as outras, de menor potencial ofensivo. Por último, uma possível solução.


Da Legitimidade da Greve

A analise de se é ou não legítima a greve deve iniciar pelo debate racional da medida adotada pelos reivindicantes. Eles seguiram um caminho tomado por todos os manifestantes grevistas? Inicialmente, se agruparam em associações de classe, reivindicaram aumentos ao governo, pressionaram os políticos, mostraram que, sem seu trabalho, a coisa ficaria um caos. De fato ficou! Até aí, tudo normal para uma paralisação de serviço público.

A parte ilegítima dessa greve consiste na utilidade da função exercida pelos policiais na sociedade. Assim como na área da saúde, a paralisação da segurança pública traz consequências imediatas e fatais, extremamente nocivas à vida da população.

Portanto, havendo ou não o direito que eles reivindicam, paralisar totalmente um serviço fundamental à vida é ilegítimo, imoral e extrapola o livre exercício da greve.


Da Legalidade da Greve

O direito à greve deve ser garantido pelo Estado. Até agora, nunca se legislou sobre a greve de funcionários públicos, mas se utiliza por analogia a legislação trabalhista, ou seja, dos celetistas. Há necessidade extrema de visibilidade e pressão ao governo para melhorias do funcionalismo público, isso é patente.

Ocorre, entretanto, que o movimento grevista dos PMs da Bahia extrapolou a legalidade de uma paralisação amparada pela lei e pelo Estado. Os policiais não reivindicam desarmados, não invadiram a Assembleia Legislativa como fariam professores, não estão lá como civis. Os PMs que estão amotinados na Assembleia são homens armados, pessoas sem licença para utilizar a arma de serviço para tais fins.

Logo, a greve dos PMs também está na ilegalidade, pois a reivindicação é armada, é abusiva e viola os princípios mais básicos de uma democracia.

O líder grevista, Marco Prisco Caldas Machado, sequer está lotado no Corpo de Bombeiros, cargo do qual foi exonerado após uma tentativa de assassinato do seu superior, em um levante semelhante ao presente em 2001.


Da Mídia

A mídia tem noticiado o caso, sem tentar pender para o lado político da greve, que é público e notório. O líder da greve é filiado ao PSDB, oposição ao Governo baiano do PT. O PSDB nunca foi dado a greves, só que neste caso está diretamente relacionado, ainda que não tenha se manifestado públicamente como fez do DEM.

Estão falando das vítimas, das consequências, dos calores da manifestação, do exército nas ruas, na contenção dos manifestantes pelo exército e etc. Por óbvio, a mídia não é imparcial, só que, por ser contra o PT, desta vez se foca mais na opinião antiga do governador baiano sobre as greves do que na ilegalidade ou ilegitimidade da greve em si.
Ou seja, ao invés de tocar nas manifestações de reivindicações sociais e salariais que são as greves, falam de como o governo reage e é hipócrita estando na situação. Falar bem de greve nunca foi praxe da mídia gorda, mas na ótica deles, esta greve deve ser amplamente divulgada, pois se trata de um tiro no pé do governo petista quando em oposição.

A mídia, por conseguinte, faz seu papel de sempre, ocultando um pouco das manifestações contrárias às greves que sempre são seu foco, quando o governo da situação é aquele que defende seus interesses.


Das Reivindicações Sociais

É comum vermos a polícia militar do Brasil repreender qualquer manifestação que ultrapasse o limite do aceitável (por eles, é claro). Ainda que seja constitucionalmente protegido o direito da livre manifestação, reunião e mobilização por uma causa, corriqueiramente vemos a polícia literalmente descendo o cacete nos “manifestantes”, sejam eles professores, defensores da liberação das drogas, estudantes, trabalhadores civis ou funcionários públicos.

Tendo em vista que a greve dos PMs não é nada além de outra greve comum, não seria de se indignar uma represália, uma resposta hostil aos manifestantes. Na falta de policiais havidos de porrada e sangue, que se utilize o exército, mantenedor da ordem pública.

Então, qualquer reação do exército brasileiro a essa manifestação armada não seria nada mais do que a própria polícia militar já está acostumada a fazer, com a diferença apenas do lado em que está e na condição de armados que estão.


Da Solução

É consabido que a oposição sempre pressiona o governo do poder auxiliando as reivindicações sociais nas suas empreitadas. Aqui no RS, por exemplo, havia muita gente do PT a favor dos professores grevistas, quando o governo era tucano. Agora, o CPERS divulga amplamente que o Governo de Tarso Genro (PT) é mais um inimigo da educação!

Ora, o problema dos vencimentos dos servidores públicos é e sempre será motivo de reivindicação, pois nunca chegará ao patamar desejável. Não com essa mentalidade política e econômica. Haverá insatisfeitos sempre, pois nosso erário não condiz com a política salarial reivindicada por todo funcionalismo público. Não há como praticar todos os reajustes almejados. Estando oposicionistas ou situacionistas no poder, a reivindicação será sempre um hábito.

Urge uma reforma política, tributária e previdenciária no Brasil, e é isso que transformará nossos cofres públicos em um reformador dessa condição de precarização da saúde, educação e segurança pública. Apesar de eu ser favorável às greves, legítimas e legais - aquelas que são repreendidas na porrada -, não creio que greves sejam o melhor caminho. É algo imediato e paliativo, não atinge a raiz do problema e só protela o inevitável: uma nova greve!

É necessária uma reforma urgente na política e no nosso sistema falho como um todo, melhorando e aperfeiçoando os mecanismos econômicos da gestão de recursos. É preciso reduzir drasticamente as verbas do Executivo e Legislativo, aplicar de uma forma mais responsável e investidora do dinheiro público, assim como é forçosa uma fiscalização apurada do Judiciário, apurando-se eventuais irregularidades. Afastar, de uma vez por todas, esse curral político atual, essa baderna que é nosso cenário representativo.

A problemática da política no Brasil não é moral ou metafísica, tampouco política; é um problema sistêmico, que está inserido no germe da mentalidade individualista da sociedade atual.

Essa greve, diferente das outras, é meramente política, um teatro perigoso de pessoas mal intencionadas. Na voz dos próprios colegas dos amotinados, os grevistas são “baderneiros”, “delinquentes” que põem em risco a vida da população.

O líder grevista, Marco Prisco Caldas Machado, é pré-candidato pelo PSDB a uma das cadeiras da Câmara de Salvador este ano, ou seja, quer ser um bem remunerado vereador soteropolitano, o que mostra que não se reivindica uma solução, senão apenas uma forma de se continuar enganando e utilizando a massa como manobra política de interesses privados e escusos.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O Drama de Angélica



Ouve meu cântico, quase sem ritmo, que é a voz de um tísico magro esquelético. Poesia épica, em forma esdrúxula, feita sem métrica com rima rápida.

Amei Angélica, mulher anêmica, de cores pálidas e gestos tímidos. Era maligna e tinha ímpetos de fazer cócegas no meu esôfago.

Em noite frígida, fomos ao Lírico ouvir o músico, pianista célebre. Soprava o zéfiro, ventinho úmido, então Angélica ficou asmática.

Fomos ao médico, de muita clínica, com muita prática e preço módico. Depois do inquérito, descobre o clínico o mal atávico: mal sifilítico.

Mandou-me célere comprar noz vômica e ácido cítrico para o seu fígado. O farmacêutico, mocinho estúpido, errou na fórmula - fez despropósito. Não tendo escrúpulo, deu-me sem rótulo ácido fênico e ácido prússico.

Corri mui lépido mais de um quilômetro num bonde elétrico de força múltipla. O dia cálido deixou-me tépido. Achei Angélica já toda trêmula.

Da terapêutica dose alopática lhe dei uma xícara, de ferro ágate. Tomou no fôlego, triste e bucólica, esta estrambólica droga fatídica. Caiu no esôfago, deixou-a lívida, dando-lhe cólica e morte trágica.

O pai de Angélica, chefe do tráfego, homem carnívoro, ficou perplexo. Por ser estrábico, usava óculos: um vidro côncavo, outro convexo.

Morreu Angélica de um modo lúgubre, moléstia crônica levou-a ao túmulo. Foi feita a autópsia, todos os médicos foram unânimes no diagnóstico.

Fiz-lhe um sarcófago, assaz artístico, todo de mármore, da cor do ébano. E sobre o túmulo uma estatística, coisa metódica, como Os Lusíadas.

E numa lápide, paralelepípedo, pus esse dístico, terno e simbólico:

"Cá jaz Angélica,
moça hiperbólica
beleza helênica,
morreu de cólica!".










Música de Alvarenga e Ranchinho.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Sr. Policial

Me explique você, que é policial militar, que é um protetor do povo, do cidadão de bem, por que bater em manifestante que reivindica direitos? 


Por acaso, quando bombeiros reivindicam, quando policiais civis reivindicam, quando vocês próprios reivindicam melhores salários e condições dignas de trabalho, estão ali para fazer baderna, ou para exigir o cumprimento de uma obrigação? 


Qual é a lógica de descer o cacete em professor, em gente pobre sem teto, em gente que quer terra improdutiva pra plantar, sendo que eles estão tão fudidos na vida quanto tu, que ganha pouco e é extremamente desvalorizado pelo Estado?


É apenas uma forma de revidar esse descaso servindo cegamente ao Estado? Ou é uma nova modalidade de escravidão?


Quando eu vejo um brigadiano batendo num professor, num pobre, num ocupante, eu vejo duas pessoas mal pagas, desvalorizadas, que brigam e choram pela mesma coisa. Vejo um apanhar como marginal, e outro batendo com sangue nos olhos. Uma raiva que nada tem a ver com o espancado. Vejo que um defende seus interesses, os interesses de uma classe, enquanto o outro defende os interesses daqueles que o fodem sem pestanejar.


A Constituição defende o policial que se recusar a cumprir uma ordem de caráter desumano. Seja um respeitador da Constituição, Sr. Policial, não um mero fantoche do Estado repressor ou do seu superior manipulado.


Sem manifestações, sem democracia.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Fidelidade, Adultério e a Pluralidade dos Amores na Modernidade Líquida



É curioso o número de pessoas que compartilham no Facebook fotos comparativas de casais felizes envelhecendo juntos e solteiros fazendo a farra quando jovens e quando velhos morrendo sozinhos. Essas pessoas que compartilham fazem isso como se, de fato, fossem ficar com seus atuais companheiros para sempre, ou como se o próximo pretendente será “a pessoa certa” para o todo sempre.

São em sua maioria pessoas jovens e que apenas namoram. Algumas são solteiras e “se valorizam”, continuam sonhando com o príncipe do cavalo branco (ou um Mustang amarelo) ou com aquela gostosa surreal da televisão. Os enamorados fazem isso justamente pelo fato de estarem apaixonados, para causar impacto, para provar o amor, assim como porque acreditam (ainda) que isso seja verdade, inobstante a maioria já ter namorado umas duas ou mais pessoas no passado, também pensando na mesma eternidade do amor. Depois da separação, tornam-se completos estranhos.

Malgrado tais intenções, fala-se muito em “viver intensamente”, “aproveitar como se não houvesse amanhã”, como se a morte fosse algo iminente à maioria das pessoas, e como se nossa expectativa de vida não tivesse aumentado. Deveras, há novas e muitas formas de morrer atualmente, e muito se divulgam essas mortes violentas, como acidentes e tragédias. Entretanto, as pessoas vivem mais e melhor que antigamente.

Há, em nossa juventude atual (e nessa se incluem todas as juventudes, inclusive as da 3ª idade), algo totalmente ao contrário do que se tinha há décadas, em termos de relacionamento amoroso. O crescente liberalismo cultural e multiculturalismo trouxeram a nós uma liquidez em todas as relações sociais e uma pluralidade nas formas de amor. São líquidas porque não concretas, não mais tendem a ser “até que a morte os separe”, mas que “seja infinito enquanto dure”; e são plurais porque exercidas de diferentes maneiras, como pelo homossexualismo, pelo bissexualismo, pelo “poliamor” etc.

Nos tempos atuais, a maioria das relações amorosas se aproxima das relações de consumo, porquanto um produto satisfaz o consumidor, até que outro, melhor e mais atrativo, seja disponibilizado no mercado. Daí que surge esse medo das pessoas que compartilham em seus perfis do Facebook tais mensagens de utopia adolescente, pois há o grande receio de que essa liquidez em uma relação até então estável acabe por dar termo ao “amor infinito” dessas pessoas. Há o temor de que o produto novo seja melhor que o antigo, que as qualidades venham a se deteriorar com o tempo. Mas, óbvio, ninguém prima pela excelência enquanto juntos.

A Infidelidade e o Adultério

Nesse contexto, o que causa maior dano é a “traição”, que soçobra a esperança dos amantes e, como se se tratasse de “infidelidade”, põe termo aos planos de vida a dois. Há tempos tenho isso em mente, que traição não é infidelidade. Traição é somente o ato falho de alguém trocar fluído corpóreos com outra(s) pessoa(s), alheia ao relacionamento, ato este que pode ser totalmente desprovido de infidelidade, tendo em vista que a lealdade ao parceiro perdura mesmo após o adultério. Exemplo? Sendo um pouco absurdo, lembro daqueles casais que curtem casas de "Swing". Também lembro das pessoas que gostam de sexo casual, não levando o adultério para o lado pessoal, apenas carnal.


Portanto, traição e adultério podem, sim, ser diferentes de infidelidade e deslealdade.

Porém, sonhos sonhos são. As pessoas continuarão temendo a solidão e o adultério enquanto a liquidez da modernidade atual – chamada pós-modernidade - não ser totalmente compreendida, enquanto não ser aceita. Perceber que existe a possibilidade de ser solteiro por um tempo na juventude, até se encontrar a pessoa idealizada, é não incorrer no erro de acreditar que toda paixão deve se tornar amor, ou que deve durar para sempre.

Falta temperança para a maioria das pessoas, falta parar com esse conto de fadas, digno de uma comédia romântica açucarada norte americana, de que há um homem ou uma mulher perfeita, que tenha TODAS as qualidades do mundo. As próprias qualidades são subjetivas. De fato, existem pessoas muito boas, com diversas qualidades, e é preciso se idealizar um padrão de parceiro, mas, em algum determinado momento, as falhas e defeitos é que vão sobressair, e é aí que se prova o tal do amor eterno.

Por essa razão, eu recomendo e aplico a mim a sobriedade no amor, o equilíbrio nas relações, pois o meio termo é sempre o melhor caminho. No momento, prefiro mesmo é aproveitar minha condição de solteiro, certo de que não vou morrer sozinho, enquanto vejo pessoas “morrendo” de e pelo amor.


Há paixões que suscitam loucuras, essas eu já provei e até devo provar de novo. Mas a falácia de que a eternidade no amor existe de verdade, essa eu não caio mais!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

SOPA e os Paradoxos da Sociedade de Mercado




Usarei aqui o termo Sociedade de Mercado porque é um conceito mais utilizado pelos “imparciais” que a denominação Capitalismo - que agora é tido como um conceito ideológico de esquerda, apesar de significar exatamente a mesma coisa que Sociedade de Mercado.

A Sociedade de Mercado, ou seja, o sistema político-econômico vigente no mundo ocidental criou algo extremamente paradoxal na nossa sociedade: a liberdade irrestrita e a necessidade de regulamentação dessa liberdade, a flexibilização da propriedade privada e a defesa da propriedade privada.

O sistema de política liberal pressupõe a liberdade dos indivíduos inseridos em sociedade livre e democrática. Essa sociedade deve ter, ao contrário das ditas ditaduras de esquerda ou de extrema direita, a liberdade de expressão, de manifestação livre. Até nossa Constituição Federal protege isso.

Ocorre, entretanto, que essa liberdade acabou por criar indivíduos críticos e que detém um forte aparato erudito para criticar justamente essa sociedade de mercado. Esses críticos são vistos, agora, como inimigos da ideia de mercado livre, porquanto não resignados pelo sistema proposto. São como Yoani Sánchez, só que com ideias inversas.

E como se formou esse paradoxo? O sistema de mercado livre, com intervenção do Estado na economia, ou capitalismo, caso algum saudosista ainda queira denominar assim (eu prefiro capitalismo), nada mais é do que uma ideologia. Sim, é uma ideologia, na medida em que estão dentro do conceito ideias de construção econômica, jurídica e política de uma sociedade. Dessa “ideologia” de mercado intervencionista, ou até mesmo anarco-capitalista, surgiram muitos teóricos, em sua maioria economistas, como John Maynard Keynes, Ludwig von Mises, Friedrich Hayek, Liebman, etc.

Essa ideologia de mercado, conjunto de ideias pragmáticas e organizadas para serem exercidas na política econômica e na sociedade, é amplamente divulgada em nossa grande mídia, ao passo que temos, hodiernamente, centenas de propagandas de produtos criados em benefício do consumo, fruto do livre mercado. Além disso, muitos teóricos dessa ideologia, que utilizam a mídia para repisar os argumentos desse modelo.

Mídia "imparcial".
Portanto, a mídia “gorda” é, em última instância, o folhetim ideológico dos grandes interesses econômicos, pois não haveria sentido em ter-se uma sociedade de mercado sem consumidores, ou gente ideologizando cabeças sobre a certeza de sucesso do sistema vigente.


Essa mídia gorda e ideologicamente neoliberal, diuturnamente nos bombardeia com um sistema de ideias voltadas aos interesses dos grandes possuidores, ou seja, empresários de ramos influentes.

A grande mídia é, pois, para a direita neoliberal o que a esquerda é para os militantes, sindicalistas e trabalhadores politizados.

Nesse comenos, erigiu-se algo que, até então, seria inofensivo aos grandes interesses: a internet! Um grande sistema de computadores interligados que seria a cara da globalização, sem, contudo, por em risco a mídia tradicional. É a união entre povos distintos, a troca de culturas por meio virtual. Sem falar na alta popularidade, que facilita a propagação de produtos e ideias. Com a conexão dos povos por um sistema tecnológico, facilmente se chegaria a uma integração dos interesses do mercado em se comunicar com outras nações, promovendo a chamada “globalização”. De mercado, é claro.

Acontece que essa globalização perdeu os rumos esperados. A liberdade social que o liberalismo criou acabou voltando-se contra ele próprio, ao ponto de o mercado, através da política, ver-se obrigado a fazer uma limitação a essa liberdade.

Eis que, então, surge o projeto de lei norte americano SOPA (Stop Online Piracy Act), que visa à proibição da “pirataria” on-line. Essa pirataria consiste em ofensa à propriedade intelectual privada de autores sobre suas obras. Com o projeto aprovado, a internet perde metade de sua utilidade, e passa a ser vigiada.

Esse é o paradoxo. O próprio sistema de mercado e de consumo criou a tal “pirataria”, que nada mais é do que a promoção dos autores às mais longínquas audiências do mundo, sistema esse que é encabeçado pela própria globalização. Como globalizar informações sem que elas firam direitos de propriedade? As pessoas querem conhecer aquilo que irão consumir. E, de fato, a maioria das pessoas que “baixam” coisas da internet acaba por se apaixonar pelas coisas que sequer teriam conhecimento, não fosse a pirataria. Aquilo que não agrada, apesar de correr o mundo, não será consumido.

Dentro dessa nova realidade da pirataria, há os que se adaptaram, transformando aquilo que lhes onerava em algo extremamente rentável. Mas há também aqueles que não se adaptaram a essa nova realidade, e brigam para voltar à época em que tudo era restrito e controlado.

Esse paradoxo do mercado privado mostrou aquilo que a própria sociedade é atualmente. Criou-se, por esse excesso de liberdade e essa ferramenta de compartilhamento que é a internet, um sistema novo, além das fronteiras do grande capital, dos interesses privados. Em contraponto dos pressupostos liberais, querem que o Estado aja como Imperador para barrar as sangrias dos cofres privados. Ou seja, quando a coisa começa a apertar, eles querem um Estado atuante e repressor, algo próximo das regulamentações do Estado cubano.

Além da proibição de sites de compartilhamento de músicas e obras que não tenham direitos sobre a propriedade alheia, existe a sanção aos grupos econômicos de financiamento que contribuem com esses sites piratas. E o pior, qualquer página da internet tida como “suspeita” será derrubada, sem prévia ação judicial e aviso, promovendo uma restrição, inclusive, da crítica a qualquer outra maneira de ver o sistema de mercado que não seja do interesse do próprio mercado.

É de se ressaltar que a internet nos EUA estará livre disso, pois a lei se aplica somente aos outros países.

Creio que está surgindo uma proposta de sanção às liberdades propostas pelo próprio sistema de mercado, que é regida pelos interesses dos EUA, a grande potência econômica mundial. Terão sucesso nessa empreitada? Ou as manifestações coletivas na internet contra esse sistema conseguirão derrubar e vetar esse projeto?


Pois é, mercado, pariste um filho rebelde. Agora aguenta!

O Brado Retumbante de Aécio na Globo


Qualquer semelhança do Presidente fictício de “O Brado Retumbante” com Aécio Neves é mera coincidência. Ou não.

No 4° capítulo da série, a “Primeira Dama” critica o livro didático que estaria promovendo a deseducação dos alunos. Ora, essa polêmica idiota levantada pela PIG sobre o livro do MEC já deveria ter sido esquecida, tendo em vista que se tratava de uma total ignorância do que realmente tinha no livro didático da vida real e nada teve a ver com corrupção.
Ficou claro na série que a autora fictícia do livro didático estaria em conluio com o Ministro da Educação, enriquecendo com o dinheiro público. O que eles estão querendo dizer? Eles tentaram explicar ao povo desinformado o que aconteceu nesse caso real, sem que isso correspondesse à realidade dos fatos, que estão bem longe desses da ficção.


Além disso, a Primeira Dama ainda fala das ideologias mortas que a autora do livro estaria propagando para as crianças. Falar certas coisas contra a mídia gorda e o grande poder do capital, realmente, assusta. Bem que eles podia falar do Occupy Wall Street, mostrando também algumas trapalhadas da economia mundial.

Trata-se de uma descarada obra de manipulação das pessoas menos interessadas por política. E talvez dê certo, pois é quase certa a candidatura de Aécio Neves para presidência em 2014. Virá como o novo "Vassourinha", o "Caçador de Marajás", o neto de Tancredo Neves, o homem que vai moralizar a política brasileira.

E outra, que trama meio idiota, pois qual presidente que viajaria com o vice no mesmo helicóptero, ou avião, ou qualquer outro meio de transporte?

Acompanharei a série, para continuar captando essas e outras "semelhanças". Com certeza essa minissérie ainda terá muitas outras manipulações. Vejamos até onde vai a cara de pau da Rede Bobo.




Aécio Neves, futuro candidato à presidência pelo PSDB
Paulo Alberto Ventura, Presidente Fictício



sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

E agora, o que eu vou fazer se te amo?


Eu gosto de ver como algumas músicas se parecem nas letras. Mas gosto mais ainda de transformar duas ou mais letras que se parecem em uma só canção, como fiz em "Francis e Cristina" e "A História do Menino Jesus". É o que eu fiz nessa, juntei "N", do Nando Reis, com "Eu te amo", do Chico Buarque.


Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas...


E agora, o que eu vou fazer?
Se já perdemos a noção da hora,
Se juntos já jogamos tudo fora,
Se os seus lábios ainda estão molhando os lábios meus
E as lágrimas não secaram com o sol que fez,
Me conta agora como hei de partir?


E agora como posso te esquecer?
Se ao te conhecer dei pra sonhar, fiz tantos desvarios,
Rompi com o mundo, queimei meus navios,
Se o teu cheiro ainda está no travesseiro
E o teu cabelo está enrolado no meu peito,
Me diz pra onde é que inda posso ir?


E agora, como eu passo sem te ver?

Se o seu nome está gravado no meu braço como um selo,
Nossos nomes que tem o "N" como um elo,

Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas,
Diz com que pernas eu devo seguir?


E agora como posso te perder?
Se entornaste a nossa sorte pelo chão,
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu,
Se o teu corpo ainda guarda o meu prazer
E o meu corpo está moldado com o teu?


Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu?


Como, se nos amamos feito dois pagãos,
Teus seios ainda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair?


Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir.