domingo, 7 de abril de 2013

Crossroads

Duas horas numa fila de supermercado. A operadora do caixa, uma loira baixinha, daquelas gorduchas cujas roupas são menores que seu manequim, mastiga lentamente seu chiclete, com a mesma displicência com que passa os produtos no leitor óptico. O empacotador, que é portador de síndrome de Down, deposita as compras na sacola com extremo esmero, como se estivesse ajeitando taças numa prateleira de cristais. A cena me comove um pouco, a vontade que ele tem de ser útil mesmo com as limitações, comparo meus problemas com os dele, mas faz meia hora que tem apenas dois carrinhos na minha frente e a caixa loira gorducha continua fazendo corpo mole. O careca da minha frente parece menos impaciente que eu, pois deve ter percorrido uns 5 quilômetros de supermercado com a mulher, uma morena de trajes sumários que não para de falar um minuto das duas horas em que estou atrás deles. Ao contrário dos seus cabelos, que sacaram a chatice da tagarela e sumiram há anos, este homem deve ser daqueles resignados por natureza, passivo, apático, pois seu semblante lembra o de um aposentado que espera – ou deseja – a morte. O que está sendo atendido no caixa - um senhor de cabelos grisalhos, magro e adequadamente vestido -, se irrita com o cartão de crédito, pergunta pra filha se foi ela quem estourou o limite, reclama da máquina que não cospe o maldito bilhete azul, do governo que lhe cobra impostos exorbitantes nos produtos, da economia brasileira “que vai de mal a pior”, do ar-condicionado desligado, do aquecimento global, da vontade de mijar. Pergunto-me se comprei tudo, a massa, o molho, o absorvente sem abas da minha mulher, os ovos de páscoa das crianças. Se não, deixo pra outro dia, porque hoje tá difícil fazer qualquer outra coisa a não ser aguardar. E sair da fila pra ficar mais duas horas de fila depois não é uma opção.

Exausto, deposito os braços cruzados sobre o manete do carrinho, deito a cabeça neles e fecho os olhos, respiro bem fundo e sinto tudo em volta sumir. A música, o locutor de ofertas, a tagarela, o reclamão, a filha envergonhada. Aperto os olhos nos braços e começo a ver dezenas de bolas coloridas, como se fossem rosquinhas, abrindo e fechando, um caleidoscópio de cores com uns pontos brancos se abrindo, da mesma forma como brincava de olhos fechados na infância. O murmurinho do mercado todo vai sumindo, dando lugar a um sentimento inédito de paz, algo que nunca havia sentido antes. Até que sinto um cheiro ruim que me obriga a levantar e abrir os olhos. O cheiro vem junto com uma luz muito forte, que não sei se é porque eu estava apertando tanto os olhos e a luminosidade do ambiente me cegou, mas me sinto um recém-nascido que abre os olhos pela primeira vez. Na medida em que minha visão vai voltando a distinguir as coisas, cores e formatos vejo que o careca da minha frente e sua mulher sumiram. O cara chato do cartão, a filha pródiga, a caixa lerda, o empacotador Down, todo mundo some, até quem estava atrás de mim. Olho tudo ao redor, e só há um homem, vestindo terno preto, gravata azul e cabelos negros penteado pra trás. Ele me fita encostado numa parede há uns 10 metros em frente ao caixa. Está fumando um cigarro, e me pergunto quem hoje em dia fuma cigarros num supermercado. Olha como se não fosse surpresa o fato de toda aquela gente ter sumido assim. Olha como se me conhecesse, como se quisesse ter apenas a mim ali, e eu olho pra ele como que perguntando por que só ele e eu permanecemos no supermercado. Deve ser um segurança, e penso que viajei por horas no caleidoscópio coloridos dos meus olhos fechados e agora o mercado tem de fechar. Me parece óbvio um segurança no final do expediente acender um cigarro esperando o último cliente inconveniente sair.

“Boa noite”, ele me saúda, olhando tão dentro dos meus olhos que minha espinha estremece feito bambu verde. “Conheço você?”, pergunto, agarrando forte com as mãos já suadas o manete do carrinho de compras, que está igualmente vazio, como o supermercado a minha volta. “Vim pra te levar pra casa”, ele responde vindo em minha direção, tão malemolente que nem parece passar uma perna sobre a outra, anda como se flutuasse. A voz não parece vir da boca dele também, fala dentro da minha cabeça, o som parece estar colado ao meu ouvido. Num piscar ele já se encontra em minha frente, recostado com o cotovelo sobre o caixa, e continua com os olhos no fundo da Minh‘alma. Pensei: “pronto, pirei!” Em tom jocoso, posto que não cria naquela situação, pergunto se ele é a Morte, mas a resposta dele é ainda mais audaz, com uma voz sedutora: - “Sou o Diabo”. “Então não vou morrer?”, rebato. Deixo transparecer meu nervosismo com a situação. Digo que não tenho tempo para piadas de mau gosto, imagino ser um daqueles programas vespertinos de domingo, procuro as câmeras, o apresentador, minha mulher que deve estar rindo muito de mim atrás de algum biombo, e ele me pega pelo braço; - “Teu tempo acabou. Pra tipos com tu, a Morte apenas não toa”. Sua mão gélida esfria meu corpo inteiro, e já me sinto morto. - “Encarregaram-me deste fardo, carregar almas como a tua direto pro inferno”. A vida nunca me pareceu tão boa quanto agora, que me sinto extinto. - “E qual a razão de o próprio Lúcifer vir me buscar, que vida tão indigna da morte eu tive?”, digo a ele, já resignado.
- A vida de ceticismo, de ateísmo niilista.
- Então o próprio Deus deveria baixar aqui, para que eu fosse então julgado por aquele cuja existência eu duvidava e até mesmo tentava convencer em quem Nele cria.
- E o que sou eu, senão Deus em Sua forma mais pura e sincera? Sou eu, dentre todas, a face Dele que ninguém espera ver quando parte. Sou a parte mais piedosa de Deus, Sua manifestação mais cínica, a expressão máxima da Sua vontade posta em prática.
- E por que não temo mais tua presença?
- Agora tu fazes parte de mim, e o inferno nada mais é do que a inexistência da alma, a morte do espírito, o esquecimento pleno, o nunca ter existido.
- Me parece o esquecimento uma boa forma de deixar pra trás uma vida de incertezas. Passei a vida inteira acreditando que o Diabo era mal por natureza.
- Homens que acreditam saber o que é Deus, o que ele pensa ou diz, falam essas e outras asneiras. Não há anjo decaído, não há alma a ser resgatada. Não existe Deus, não existe o Diabo! Senhor? Senhor? Dinheiro ou cartão, senhor?"
- Hãn?
- Dinheiro ou cartão?
- No cartão. Crédito, por favor.

domingo, 20 de janeiro de 2013

A Remissão




Gilberto era filho de agricultores e tinha três anos quando seu pai, homem rude e de poucas frases, levou a família inteira para tentar a vida na cidade grande. O pai de Gilberto começou fazendo alguns biscates de pedreiro, um ou outro serviço de elétrica, eventualmente algum trabalho mais complexo. Porém, os anos se passaram, o pai de Gilberto ficou velho, e com os anos escassearam os bicos. Ainda não adaptado à vida moderna da cidade, sentindo-se fora do seu contexto, por sua decisão, acabou fazendo a família inteira passar fome e frio. No dia em que Gilberto completou oito anos, seu pai se suicidou no banheiro, usando sua velha arma enferrujada que trouxera do campo. O tiro seco, que Betinho pensou ser um rojão por seu aniversário, mudou a vida dele e de sua família pra sempre.

Embora sua história tenha sido trágica, os traços da personalidade avessa de Gilberto já eram visíveis desde sua infância no campo. Todos já notavam como ele não sentia remorso, como parecia gelado e distante. Não demonstrava sentimentos. Embora seu pai fosse um homem de poucas palavras, Betinho tinha um olhar muito mais remoto. Na época de colégio, quando era flagrado afogando pequenos animais na privada, limitava-se a expressar um sorriso no canto da boca. Tanto eram fortes os indícios da psicopatia de Gilberto que sua mãe era a única que não lhe chamava de “Betinho”, como era de se esperar uma mãe chamar um Gilberto inda criança.

Cresceu e nada de mudar. Na adolescência, criado pela cidade suburbana, cada vez mais desabrido, andava sempre com os “barras pesada”. Era o pior do bando. Fumava desde os 13, e, sempre que podia, praticava alguma maldade a outra pessoa. Roubou diversas vezes. De ricos a pobres. Furtava discos, revistas, quinquilharias de toda espécie, apenas por prazer ou pela adrenalina. Algumas vezes meteu-se a pichar muros, escrevendo seu apelido, “Manson”, alcunha essa nada distante do que realmente era a personalidade do rapaz. Alguns mendigos o conheciam pela sua truculência, violência e rebeldia. Depois que sua mãe morreu de câncer de pulmão, quando não estava preso por algum delito, dormia em albergues ou debaixo de alguma ponte fétida.

Constituiu família, depois de conseguir um ou dois empregos informais. Ébrio habitual espancava eventualmente a esposa e os filhos. Bebia cada dia mais. Estava numa estrada sem retorno para o inferno. Traições, surras, bebedeiras, xingamentos, demissões, prisões; essa era a sua rotina e de sua família. Todos sabiam que esse homem havia sido molestado pelo padrasto, depois que seu pai deu cabo da própria vida. Mas, mesmo entendendo a revolta, ninguém o suportava mais.

Num dia comum, um dos únicos que estivesse totalmente sóbrio, talvez o dia mais lúcido desde que nascera, Gilberto, andando com suas botas de couro velho pelas ruas do centro da cidade, observando tudo e todos a sua volta, percebeu uma situação estranha. Atravessou a Avenida Ipiranga e, com os olhos, acompanhou uma senhora de cadeira de rodas que atravessava contra ele. Repentinamente, tentando subir no cordão da calçada à esquerda da rua, que era muito alto, essa senhora, inclinando seu corpo para trás, virou a cadeira e caiu com o corpo quase que totalmente no meio da rua que atravessara. Ao observar isso, Gilberto virou o rosto e olhou instintivamente para o fluxo da rua, percebendo um carro se aproximava muito rapidamente em direção à mulher. Na certa esmagaria por completo seu frágil corpo. Nesse comenos, que durou quase três segundos, Gilberto correu em direção à mulher, pondo-se a frente do motorista que, logo ao perceber o que se passava, frenou decididamente, derrapou para o lado direito acertando em cheio as pernas de Gilberto, que, com o impacto, foi arremessado há 7 metros. Caiu feito pacote flácido no asfalto e rolou mais uns 3 metros.

Gilberto morreu na hora. Quebrou seu pescoço quando rolou desajeitado pelo chão, com muitas escoriações e diversas fraturas no crânio. Havia uma auréola de sangue em volta de sua cabeça. O motorista conseguiu parar o carro logo depois do choque, antes de causar maiores danos à incolumidade do público que, naquele momento, quedava-se inerte e silente, como se o tempo tivesse parado naquele átimo. A mulher, com a ajuda de outros transeuntes, sentou-se em sua cadeira, após ter assistido deitada a toda aquela cena hollywoodiana. Olhou para aquele corpo estendido e saiu, retornando a seu destino, até então interrompido pelo tombo.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O Mimimi sobre o BBB

Ariadna, ex-BBB (a foto não foi escolhida por acaso)

Sobre o BBB, que está recomeçando hoje, sabemos que, com as postagens no Facebook sobre o programa - como se todos, além de meteorologistas, fossem contratados pelo site EGO -, choverão críticas. Acredito que o exemplo delas vale pra bastante coisa na vida.

Vejamos. O BBB é um programa para maiores de idade. O que é feito lá é com o consentimento dos participantes. Ainda que sejam obrigados por contrato a fazer ou dizer certas coisas, o máximo que podem transgredir são as cláusulas contratuais, nada contra sua liberdade individual ou que tenha feito sob coação. O mesmo pode se dizer de quem assiste. O telespectador não é obrigado a ver, votar ou acompanhar. Embora tudo na Globo, e até em outros canais, seja vinculado de alguma forma ao programa, é de livre escolha de quem está na frente da televisão ver ou não. É o poder do botão vermelho do controle remoto. Sem entrar no mérito da qualidade do programa, se é de bom ou mau gosto, se é imoral e contra os bons costumes ou reflete a realidade da vontade de cada um, se o Bial é ou não um asno que chama os participantes injustamente de heróis, e desconsiderando a curiosidade antropológica da trama – que já se exauriu na segunda edição -, o programa está aí e não vai ser alguns milhares de compartilhamentos dessa rede social que vai mudar isso. Nem xingar muito no Twitter.

Acho bem difícil que alguém não tenha visto e acompanhado ao menos uma edição do BBB, que sejam as primeiras. Bater de frente com BBB é como gritar pra uma parede que a cor dela é feia.

Nossa liberdade é vilipendiada diariamente da mesma forma com que os críticos maldizem à série. Se uma pessoa acha errado que você tenha tatuagem, use alargador na orelha, se vista como uma pessoa do outro sexo, tenha outra orientação sexual diferente ou que divirja da opinião dela em qualquer outra coisa, trata logo de dar o diagnóstico da sua diferença, dizendo ser a dela uma verdade melhor que a sua.

Finalizando, quer ver, veja; quer ler, leia; quer correr pelado na rua, seja um preso feliz. Só não tente impor aos outros suas próprias convicções. Use o bom senso e tente argumentar sem dar um tiro no próprio pé e sair parecendo o idiota que você quis fazer com que o outro parecesse.

sábado, 17 de novembro de 2012

My Way


Todos os pelos de Arnaldo se arrepiaram quando, do radinho da cozinha, surgiu a voz grave de Elvis nos primeiros acordes de My Way. Debruçado com a cabeça na mão cujo braço lhe servia de alicerce em cima da mesa em que olhava para uma xícara de café frio, Arnaldo acorda de um sonho que parecia durar décadas. Um sonho cinza. Um misto de lembrança com um frio inédito na espinha tomou conta da memória de Arnaldo, remetendo-o a um momento em que sua vida era muito mais colorida. Rosalinda, sua mulher, que preparava o jantar na cozinha e nem dava bola para música a tocar no radinho, surpreendeu-se quando viu parado na soleira da porta um Arnaldo que há anos não via mais. Ele estava sorridente, com uma alegria verdadeira, um semblante leve, diferente do seu jeito de sempre estar.

“I faced it all and I stood tall. And did it my way”... Rosalinda abre a boca para dizer qualquer coisa quando é interrompida pelo marido, que de súbito põe o dedo indicador sobre seus lábios, pega sua cintura, cola a testa na dela e, balançando, a convida para dançar. Ela solta o corpo há anos tenso sobre os braços dele, como há muito tempo não ousava dar. E ele, enrijecido pelos anos como os calos que surgiram em suas mãos, tem um olhar cheio de ternura e graça que cheira a guardado de tão obsoleto. De tanto ele maldizer a vida ela já nem sonhava mais, mas sua carne tesa, já macilenta pela falta de calor no sangue, retornou-se jovem e se enrubesceu. Então enfim ela ouviu a música, e se lembrou do tempo que havia no sorriso de Arnaldo. Um tempo que só quem viveu recorda em tais tonalidades. O calor dos braços aumentava a cada subida do timbre grave de Elvis, até que soam os metais e ela começa a girar desatada.

De mãos dadas, saíram os dois pela rua rodando, dançando a música que só eles escutavam. À luz da praça, sob o véu da lua, dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou. Foi tão grande a felicidade que a cidade inteira se iluminou. Deram tantos beijos loucos, tantos risos roucos, como não se ouvia mais. E o mundo compreendeu. E o dia amanheceu em paz.









Baseada na música "Valsinha", do Chico Buarque com Vinicius de Moraes e título e trecho da "My Way", interpretada por Elvis Presley.

Elvis Presley Live - My Way

http://www.youtube.com/watch?v=2e3CFIHCe8M

Valsinha - Chico Buarque

https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=6u4FK_Z5298

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Lentes, Esquizofrenia e Mensalão.

Acredito que muita gente já assistiu algum filme com tecnologia 3D, com aqueles óculos que faz as imagens saírem das telas para quase nos tocar.
Se você colocar óculos de lentes azuis, por exemplo, verá tudo a sua volta também ficar em vários tons de azul.
Nos dois exemplos, vemos como coisas exteriores aos nossos sentidos podem determinar a maneira como percebemos a realidade. Tudo que vemos faz parte do que está fora de nós; mas o modo como enxergamos também é determinado pelas “lentes dos óculos”. Entretanto, não podemos dizer que o mundo a nossa volta é azul por causa dos óculos, ou que a imagem do filme é realmente tangível pela tecnologia das câmeras.

Tiramos primeiras - segundas, terceiras - impressões das coisas, até mesmo as que testemunhamos. Isso porque a razão trata de impor significado àquilo que os sentidos determinam ao cérebro, e essa definição passa pelo que acreditamos que deve ser. E é justamente por isso que nossa razão e nossos sentidos são falhos! Nós não somos placas que registram tudo imparcialmente.

Daí vem nossa virada de Copérnico, e percebemos que, na verdade, é a Terra que gira em torno do sol, e não o contrário.

Nunca saberemos ao certo, com 100% de certeza, como as coisas “são em si”, apenas como elas “se mostram” para nós. Usamos sempre nossos óculos de realidade aumentada e adequada (e, às vezes colorida), e é inevitável não tomar partido.



Todo esse exemplo vale para o caso da recente e crescente onda de louvar e tornar herói o “algoz dos mensaleiros”, o douto ministro do STF Joaquim Barbosa. Ao invés de usar lentes que aumentam nossa visão crítica, colocamos as lentes coloridas, que atrapalham o sentido das coisas em si, e interpretamos as coisas como queremos ver. Muitos taxaram o ministro como herói, desconhecendo que ele também é, em parte, o grande vilão por essas mesmas lentes.
Sim, é herói e vilão ao mesmo tempo. É Batman e Coringa, gato e rato, contra e a favor de “mensaleiro”. Recentes declarações do ministro nos mostram que ele votou no Lula, desde as eleições contra o Collor, votou na Dilma e é contra a pressão midiática que se fez contra o “Mensalão petista”. Além disso, disse que no Brasil há muito racismo, que o empresariado é branco e conservador (justamente quem lhe chama de herói). Declarou que a mídia empurrou a Ação 470 para o foco como “maior esquema de corrupção do país”, esquecendo-se de outros não tão importantes (aos patrocinadores), mas tão grandes quanto.

As lentes coloridas, sejam vermelhas ou azuis, deturpam certos fatos, atos e conceitos, adaptando e, muitas vezes, afastando da razão o que é captado pelos sentidos. No mesmo sentido da metáfora da realidade que é filtrada pelos óculos, temos também algumas doenças psicológicas, que criam fantasias na mente de alguns indivíduos. Esquizofrenia é uma delas. Para os esquizofrênicos, a realidade é diferente, a agudeza das coisas vem desviada por algum lugar do cérebro que insiste em transformar o visto com o imaginado.

Isso acontece a algumas pessoas sãs também. Elas vão além das lentes. Usam os óculos coloridos ou em 3D e são esquizofrênicas. Pegam um fato - um acontecimento, uma informação superficial -, filtram pelo seu senso viciado de realidade, modelam de acordo com sua imaginação, daí saem lutando contra moinhos de vento.
E pra esses não adianta falar que a Terra é só mais um pedaço de pedra que gira em torno do Sol; eles tentarão te queimar numa fogueira!

sábado, 7 de julho de 2012

Bullying, Vitimização e a Influência Norte-Americana na nossa Juventude





Imagine a cena: um adolescente desengonçado - espinha na cara, óculos de grau, sem muita vida social e particular interesse em computadores -, o famoso loser, se apaixona  à primeira vista pela garota mais popular da escola - normalmente uma loira, olhos claros, líder de torcida, geralmente fútil e que o despreza profundamente -, que namora o bonitão e musculoso - esportista, popular entre as outras garotas e que vai ganhar uma bolsa de estudos por ser o melhor do esporte popular que pratica. O loser, ou o destino do roteiro, consegue um jeito de se aproximar da gostosa por causa das más notas da garota fútil, dando aulas de reforço. O gostosão popular não gosta, então passa a humilhar o nerd/geek/loser de várias maneiras ao longo da trama. Esse é o enredo de 90% dos filmes do cinema hollywoodiano voltados para os adolescentes.

Muitos já perceberam que nossa juventude atual não consegue lidar com certas situações de pressão, seja na escola, na família ou no trabalho. Geralmente, quando uma pessoa mais “forte” (física, hierárquica ou psicologicamente) coage um jovem pratica certo tipo de “crime” ou atitude reprovável, algo que deve ser reprimido. É o chamado bullying. Por prepotência, problemas familiares ou pura demonstração de força, muitos jovens rebaixam colegas, principalmente os que são visivelmente mais “fracos”. O problema é que, quanto mais os “fracos” se fragilizam, mais os prevalecidos se fortalecem.

Essa onda de agressões físicas e psicológicas parece ser algo novo pra nós, um desafio a ser enfrentado pelos pais e educadores. Antigamente, apesar de também existir esse tipo de violência, as “vítimas” não tinham tanta tendência ao suicídio, homicídio, chacina ou à depressão. Ou pelo menos não em maior número e maiores tragédias.

Aqui pelo Brasil, acho que isso é causado pela soma de alguns fatores. Li esses dias um post interessante que falava sobre a maneira como os jovens e adolescentes de hoje são mais suscetíveis à depressão por bullying. Dizia o autor que responsável por essa onda de vitimização é a mudança de fórmula no Merthiolate, que agora não arde mais. Bom, tirei uma conclusão um pouco diferente, apesar de a metáfora ser ótima.

Há décadas estamos sendo bombardeados por uma influência grande da mídia norte-americana na nossa televisão e cinema. São filmes, séries, canais de TV a cabo, além de uma grande dominação linguística, neologismos, anglologismos e etc. É uma conhecida fórmula de colonização através da cultura e da língua, pois, desde os gregos, o idioma e os hábitos dos “mais civilizados” sempre foram uma boa forma de unir colônias e povos “inferiores” ao Império, torná-los bons selvagens, servos pela sedução, quando não pela coerção.

A questão é que nossa televisão aberta passa apenas filmes de procedência americana. No máximo, alguma produção cinematográfica estrangeira premiada em Hollywood que passa na nossa programação televisiva por consentimento das grandes mídias. Portanto, com o passar das décadas, absorvemos a cultura norte-americana, tornamos ela um referencial. Passou a se buscar uma correspondência à personalidade “superior” dos estadunidenses, sendo eles “mais civilizados” e evoluídos que nós (segundo um americano aí, enquanto eles brincavam com novas tecnologias, nós brasileiros brincávamos na lama, daí os bons jogadores de futebol). Não faltam exemplos de como é a visão dos norte-americanos sobre nós, nem de como exaltamos a cultura deles, em detrimento da nossa.

As produções de cinema da nossa televisão mostram a importância da imagem individual dos atores sociais no padrão norte-americano, aquilo que eles têm de ser para os outros: populares, superiores, competitivos, mormente para o ambiente da escola, num primeiro contato com a vida social, fora do núcleo familiar tradicional e do âmbito dos amigos próximos.

Assim como eles, nossos atos têm se resumido a uma caça pela correspondência desse modelo de estrutura social. No caso em comento, nos colégios, os valentões e os oprimidos agem de acordo com o que veem nos filmes americanos, seja no âmbito psicológico particular, seja nas tragédias.

Por óbvio, os filmes americanos só retratam (e talvez abusem da fórmula) a realidade existente por lá, em que alunos que sofreram humilhações públicas invadem escolas com metralhadoras para matar seus colegas “malvados”, se suicidam, ou, na melhor das hipóteses, se entopem de remédios. Lá existe uma cultura bélica muito forte, porquanto é uma nação que, desde sua independência, passou poucos anos sem uma boa guerra. Desse modo, nossas influências acabaram por demonstrar que estamos absorvendo essa cultura imperialista norte-americana de uma maneira muito mais forte do que se pensa.

É patente a influência dos padrões norte-americanos nos jovens das últimas gerações, tanto que muitos se identificam com “Glee” e outros tantos filmes e séries de cunho moral, que se iniciam basicamente na década de 80. De 1950 a 1979 os jovens e a cultura de lá eram um pouco diferentes.

Muitos se sentem subjugados pelos “valentões”, ao ponto de exigirem uma vingança em igual proporção, ou muito maior ao agravo, por questões psicológicas. É o caso do assassino do Realengo, que descobriu-se ter sofrido bullying no colégio.


Existem também aqueles que não consegue lidar com a situação de humilhação no seu meio social, e, por não terem contato íntimo com os pais, familiares ou educadores (leia-se instrutores), acabam ficando sem ter a quem recorrer; apelam comumente às drogas, à criminalidade, à depressão e/ou suicídio, como uma forma de autodestruição, autoflagelação e eliminação do sofrimento. Sentem-se, em parte, culpado pela própria fragilidade e pela violência que sofrem.


Isso deve-se a uma vitimização, uma fragilidade excessiva na personalidade das pessoas. E não só nos jovens; tudo vira ameaça, ofensa, dano moral, assédio. Ninguém mais pode pedir uma sopa nova num restaurante por causa de uma mosca que caiu lá acidentalmente, querem enriquecer alegando que nunca mais vão tomar sopa em razão do infortúnio. Não há mais bom senso, razoabilidade.


É por causa disso que os consultórios de psicólogos e psiquiatras estão lotados de pessoas que apenas não sabem lidar com a vida, com a realidade, que necessitam amorfinar-se, desligar-se do sofrimento. Acham a realidade dura demais, o sofrimento algo a ser evitado ao extremo, em prejuízo da saúde mental. Um mundo que antes era cor-de-rosa e agora ficou preto e branco, e dá-lhe remédio pra maquiar a dor e o pesar. As pessoas não são estimuladas a viver e conviver com o sofrimento. "Toma um remedinho tarja preta que passa". E com isso os médicos inescrupulosos financiados pela indústria farmacêutica vão lucrando bilhões, mantendo as pessoas sedadas e inertes à própria dor.

O sofrimento é necessário, o luto é fundamental, a dor ensina, já diriam os clichês.

Boa parte desse sentimento de fragilidade provém dessa cultura vazia do culto à imagem, propalada principalmente pelos norte-americanos e que nos chegam pelos filmes. Estão construindo uma geração de “mariquinhas” (estou falando de vítimas, não de homossexuais), gente tão preocupada com a própria imagem que é capaz de agredir, humilhar, assim como, pela humilhação sofrida, exigir vinganças cinematográficas e banhos de sangue.

É a influência da cultura norte-americana, a importância da própria imagem que eles fizeram o favor de propagar - e nossa mídia fez o desfavor de reproduzir. Se lá estão construindo uma cultura para vender antidepressivo e tarjas-pretas - inclusive a crianças e adolescentes - é questão pra outro tópico. Mas que estamos cheios de “mimimis” e ficando “dodóis” por pouca coisa, isso sim, estamos. E muito! É nos jovens que isso pode cessar.

Por isso, diga não ao bullying, não seja uma vítima. Ignore! Se há agressão física, denuncie. Polícia serve pra isso. Autoridades servem pra isso. A justiça é um meio, quando há grave dano. Mas não algo suportável.

Se aconteceu alguma coisa passível de "dano moral", pense mesmo se é um dano, se afeta mesmo seu sistema psicológico. Tem coisas que acontecem por engano, por erro, por descuido, e que podem ser coibidas com uma simples advertência.

Se você sofre assédio moral no trabalho, denuncie, mas não se abale. Ou quem pratica é um babaca, ou você não tem aptidão pro que tá fazendo e pode procurar um emprego que melhor se adapte às suas habilidades e possibilidades. Às vezes as pessoas têm razão, e somos mesmo peixe no aquário errado.


A vida é dura, ninguém disse que seria fácil.


A evolução se dá não nos que apenas sobrevivem, mas nos que melhor se adaptam às adversidades.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

A Dança do Silêncio






Foi estranho vê-la assim tão de repente, depois de tantos anos, entre pessoas conhecidas e rostos estranhos. Sua face se iluminava pela fogueira acesa na areia. Ainda era linda, alguns anos mais velha, mas como se fosse a mesma, só que vestindo uma roupa antiga. Seu corpo balançava como as ondas do mar com o ritmo da música do violeiro, aquele sorriso tímido seguindo com os lábios a letra de Redemption Song. Encontrá-la num luau à beira do mar foi realmente muito estranho e inesperado.

Fiquei por alguns minutos de pé, do outro lado da fogueira, fitando seu rosto, que escurecia e se iluminava pelo roçar do vento na fogueira, até que uma amiga do seu lado lhe falou algo no ouvido e ela me olhou. Quando seus olhares me alcançaram, a boca parou de cantarolar, quedou-se pálida e semicerrada, com a língua entre os dentes, sussurrou meu nome e pude notar uma lágrima contida no canto do seu olho esquerdo. Talvez não pudesse crer em tamanho acaso, assim como eu.

O violeiro, seguido de um acordeonista, iniciou Mondo Bongo, do Joe Stummer, que era, para coroar a coincidência, a nossa música, minha e dela. Ela agora já nem sabia mais o que fazer, de tão nervosa. Decidida, passou a mão naqueles negros cabelos longos, colocando-os atrás da orelha, levantou e, ainda me olhando, veio em minha direção. Trajava uma leve saia branca que ia da cintura até os pés descalços, e uma blusa azul turquesa deixando quase aparecer pouco do peito. Atravessou a fogueira e estacionou a um palmo do meu rosto. Com minha mão direita peguei na sua esquerda, que pendia suada e trêmula, deitei o rosto sobre seus ombros, sentindo aquele mesmo perfume de outrora, ergui a cabeça e acenei para trás, indicando minha vontade de dançar um pouco, longe dali. Segurei com minha mão esquerda a sua cintura, dei um passo para trás e começamos a dançar.

Enquanto rodávamos, ela me olhava como se eu fosse um desconhecido, um estranho e misterioso homem que lhe encantara repentinamente. De tanto girar, nos distanciamos da fogueira, sentindo a areia gelada nos pés descalços. A música ia entrando no ritmo dos nossos corpos, já velhos conhecidos. A lua agora era nossa única testemunha, pois as pessoas pareciam não mais estar ali, só a música, a areia, e eu e ela a dançar.

“Latino caribo, mondo bongo, the flower looks good in your hair. Latino caribo, mondo bongo, nobody said it was fair, oh”. Girei-a e agarrei por trás, comprimindo seu corpo no meu. Ela lançou uma risada de liberdade, afastou-se, virou e me olhou nos olhos, com o vestígio do riso na boca. Mordeu o lábio, balançou a cintura de um lado para o outro, colocou o pé esquerdo no joelho direito e caiu sobre mim. Aparei sua queda, ficando meio palmo de boca a boca. A levantei com a brandura da música, cravei minhas digitais na sua cintura e, aproximando minha boca da sua suavemente, senti o que há tempos não sentia: a fragrância adolescente, uma felicidade estranha.

Aquela boca era bem mais que uma boca. Aquele beijo significava muito mais que um simples roçar de lábios. A música acabou, o fogo apagou, o mundo calou, a boca esfriou, a lágrima secou, e o mundo inteiro voltou a rodar. Abri os olhos e me deparei com o rosto dela, pálido e indiferente.

Ela desviou o olhar, olhou para o chão, olhou para as pessoas indo embora, virou-se, mexeu no cabelo e partiu. Nem a lua nos espiava mais. Antes de sair da areia, olhou pela última vez para trás e me viu ali, parado, como fiquei durante algumas horas, até que meus joelhos cansaram e eu sentei. Sentei na areia gelada daquela noite fria, naquele vento intenso daquela cena estranha. Olhei pras minhas mãos, que ainda conservavam o calor do corpo dela, coloquei no meu rosto, passei os dedos nos meus lábios, olhei para o mar e pude ver aquilo que talvez estivesse latente dentro de mim há tempos, aquela verdade velada que me fazia sonhar com esse dia.


Eu sei que eu a amava, e ainda amo. Ela também deve sentir o mesmo. É sempre amor, mesmo que mude. É sempre amor, mesmo que acabe.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Perfume de Pólvora




“Cadê o Geraldo, cadê o Geraldo?”. Escuto meu nome ser proferido aos berros do lado de fora da minha porta, mas não entendo por quê. Levanto e vou até à porta pra ver do que se trata. Abro a porta, saio confuso e sinto algo gelado forçando minha têmpora direita. Minha retina volta o foco, e na minha frente está minha secretária ajoelhada e um homem de capuz preto na cara, que segura uma arma contra a nuca dela. Ainda sem entender o que acontece, olho pra direita pra tentar achar a coisa que incomoda minha cabeça: é outra arma, outro bandido de capuz preto na cabeça. Ele diz "Ajoelha", e minhas pernas obedecem antes da cabeça mandar. "Tu que é o Geraldo?", ele grita, e antes de eu responder, Melissa de súbito aponta pra mim e diz "É ele!", delatando que sou o gerente do banco e o único que pode dar o dinheiro que eles querem.

Tantos anos sendo minha secretária e nunca pensei que ela me trairia desta forma. O verdugo que a mantém genuflexa me olha e diz: "É ele", apertando em seguida o gatilho da arma que estava sobre a cabeça de Melissa: BLAM! O barulho seco do tiro abafado pelo crânio dela deixa o som das vozes abafadas, por alguns segundos só escuto um zunido. A luz intensa que sai do cano da arma deixa minha vista branca e o cheiro do sangue, da carne e da e pólvora me baixam a pressão instantaneamente.

Como cheguei até aqui? Esta é a vida que eu imaginei ter? Eu queria ser bombeiro. Era apaixonado por caminhões de bombeiros e suas sirenes, me imaginava de farda, combatendo o fogo. Sempre que brincava com meus amigos eu era quem salvava as vítimas. Depois pretendi ser médico, salvar pessoas, me tornar pediatra - ou geriatra -, resolveria problemas graves. Abandonei a ideia no segundo semestre da faculdade, mas foi lá que eu conheci meu primeiro e verdadeiro amor, Cíntia. Ela era linda, tão tímida que encantava qualquer um. Fazia enfermagem, só que sonhava mesmo em ser médica, pediatra ou geriatra. Foi aí que me apaixonei, mesmo que desapaixonara da medicina. Acho que permutei as paixões. Saímos algumas vezes até eu perceber que ela também estava apaixonada - apesar de eu ter desperdiçado um sonho que era dela. Comecei a estudar administração, pois ainda estava à deriva e não sabia bem o que iria fazer da vida após ter o sonho interrompido pela desilusão. Comecei estagiando em bancos, e fui aprendendo com meus amigos a praticar pequenos furtos. Me formei, fui efetivado em um grande banco, mas, depois que Cíntia descobriu meus planos de fazer um golpe grande, terminou nosso relacionamento e nunca mais nos vimos. Disse que não me conhecia, que eu não era quem ela pensava ser, um altruísta, filantropo, alguém ético e correto. Eu queria poder, dinheiro, posição, era e sempre fui ambicioso. Ela nunca entenderia, por ser inocente e ingênua demais. Esse é um mundo de Geraldos, não de Cíntias.

Por já ter certa posição no banco e conseguir muito dinheiro desviando aposentadoria de velhinhos, casei com a filha de um influente senador. Ele me promoveu a gerente do setor de empréstimos da maior agência do banco no estado, o que me deu margem para desviar grana grande. Foi uma maneira de o senador dar melhores condições de vida à sua filha, indiretamente. Contudo, apesar de estar feliz com minha vida financeira, nunca fui feliz com minha esposa arranjada. Ela também não deve ter sido, pois foi praticamente forçada a casar-se comigo. Tivemos apenas um filho, que parou de estudar quando foi para uma universidade na Holanda e agora é um drug dealer na zona vermelha. 

Se arrependimento matasse… ou melhor, se arrependimento evitasse que a gente morresse como agora vai acontecer comigo! Eu viveria outra vida. Aliás, eu voltaria a viver a vida antes do primeiro desvio, antes do primeiro golpe, encontraria Cíntia e tentaria mostrar o que estou sentido agora, no momento em que estou para morrer. Diria que sinto novamente meu amor por ela, o quanto estive errado e como minha vida foi de fato da forma como ela prognosticou naquele dia em que nunca mais a vi.

Queria tanto não morrer agora, como Melissa, que foi sumariamente descartada por não ser quem essa gente procurava. É assim que um homem arrependido deve morrer, pelas mãos de assassinos frios que só querem dinheiro?

Recobro minha vista com um tapa na cara, e o sujeito me manda levantar. Querem que eu abra o cofre. Tento dizer que não tenho a chave, mas eles mostram saber mais da minha vida que minha própria esposa. Pego a chave codificada. Há cinco milhões de reais no cofre do banco. Com esse dinheiro eu poderia dar uma vida de rainha pra Cíntia, fazer dela a mulher mais feliz do mundo, pra que ela me fizesse o homem mais realizado. Pagaria sua faculdade de medicina, se ela já não fosse médica, e ela se tornaria geriatra, ou pediatra, e cuidaria de mim quando envelhecêssemos, e teríamos dois filhos com os olhos dela, uma casa de campo na serra, uma poltrona confortável à beira de uma lareira. Mas esse dinheiro agora não poderia mais ser meu, nem do banco, nem dos verdadeiros donos, pois os homens encapuzados (que conto por alto serem cinco, portanto um milhão para cada, o que seria justo, uma vez que assaltam juntos o maior banco do estado, cujo gerente é um dos homens mais sujos do país) agora vão levar sem nenhum esforço. Enfio a chave trêmula, giro e estalo! Trinta e dois pra direita, sessenta e cinco pra esquerda, estalo! Setenta pra direita, vinte e quatro pra esquerda, estalo! Trinta e nove pra direita e, e, e... e qual é a porra da última dezena? Cinquenta e cinco? Cinquenta e seis? "Vai duma vez, caralho. Foda-se, vou explodir essa merda", diz o mais impaciente deles. Ele olha pra mim com raiva, fecha o rosto. Reluz no vidro dos seus olhos um brilho intenso: BLAM! O brilho é do fogo da arma que ele apontava pra mim, e que agora empurra a mão dele contra seu corpo. O barulho da explosão ecoa entre minhas orelhas, e sinto um doce perfume misturado à pólvora e à fumaça: é o cheiro do sangue que me escorre pela face.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Aos Braços de Morfeu





Por Laura Carvalho

Um grito me despertou no meio da madrugada. Acordei assustada: “De onde vem esse grito?” – pensei. Ainda trôpega de sono, olhei pela janela: tudo em paz. Silêncio no quarto e na rua, nenhum movimento a não ser meu peito descompassado. Confusa, voltei para a cama, ainda com ecos daquele grito na mente. Quando consegui relaxar e estava para ultrapassar aquela doce fronteira que separa o sonho da realidade, encontrei a fonte do grito: era minha alma, que tão profundamente tocada, ao se ver sozinha, clamara por quem a marcou.

Com olhar distante, ela me indagou: “Por que fizeste isso? Como podes me expor a semelhante sublime maldição? Eu, que sou tua essência, tua guia, teu ser. Agora me ofereces um encontro apenas na fluidez das quimeras? E se quando acordares ele não estiver lá? Vais sofrer e eu junto, com a lembrança de um sonho a escapar-te a medida em que despertas”.

“Tola” – respondi-lhe. Acaso não sabe que duas almas quando se tocam já não são dois elementos isolados, mas duas partes de um todo único e indissolúvel?  Ele vai estar comigo a cada sorriso que outros enxergarem em meu olhar, a cada pensamento suspirado, a cada desejo contido até o momento de nossos corpos se encontrarem novamente. E quando a saudade não couber mais no peito, a ponto de extrapolar as barreiras, vou te enviar ao encontro do nosso elemento perdido finalmente encontrado, aquela parte dele que, de tão igual a ti, te causa tal abstinência insana apenas por estar ausente”.

“Venha comigo, companheira” – chamei, oferecendo-lhe minha mão – “adentremos as terras de Morfeu, onde a distância não separa duas almas amantes”.

Olhando então para o espaço além dos portões que libertam as almas, ela me deu a mão, mas não sem antes fazer uma última pergunta: “E se ele não estiver lá?”. “Não se preocupe” – afirmei, já nos encaminhando para transpor a entrada – “ele vai estar lá!”.