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terça-feira, 7 de julho de 2015

O Sorriso de Dona Margot

Nunca a viram tão feliz.

Quem a conhece não pode reconhecer.

Quem não a conhece se admira com tanta felicidade.

Passeia alegre pelo centro da cidade com uma criança nos braços.

Quem vê Dona Margot assim tão tranquila não pode imaginar que ela acabou de roubar um bebê.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Puerpério



- Recomendo aos leitores que não têm estômago nem começar a ler, pois é um texto pesado e forte, apesar do falso-leve do enredo.

Puerpério*


*Puerpério: período pós-parto.

Era quase impossível de acreditar. Após longos anos tentando engravidar, finalmente Simone sentia os primeiros sintomas da tão esperada gestação. Sempre foi magra, e percebia que sua imensa vontade de ser mãe se realizara na medida em que aumentava gradativamente com a dilatação de seu abdômen. Havia 2 meses que sua menstruação não descia. Alberto, seu marido, logo que ficou sabendo da boa nova, tirou um empréstimo no banco pra construir um anexo para o bebê, e com o que sobrou pegou a patroa e foi às compras. Decidiram comprar tudo em cores neutras, pois não sabiam o sexo do bebê ainda. Por ser cedo e a barriga de pouca ampliação, decidiram adiar o pré-natal até poder saber o sexo do bebê. Já com o quartinho quase pronto, Simone passou a se dedicar a aulas de tricô, enquanto Alberto baixava tutoriais e vídeos de como ser pai de primeira viagem. Com o primeiro sapatinho de lã pronto, as paredes pintadas e enfeitadas, e após incontáveis horas de vídeos no Youtube, o casal já se sentia pronto e à vontade com a ideia do filho.

Chegou o que Simone acreditava ser a metade do quarto mês de gestação, pelo tempo de amenorreia. Era hora do tão esperado pré-natal, o dia em que veriam o bebê, ouviriam as batidas do seu coração em ritmo acelerado, suas perninhas e dedinhos, talvez até um pintinho ou a falta dele, indicando o sexo. Alberto queria um menino, torcedor do Avenida como ele. Por Simone tanto fazia, orava por uma criança linda e saudável, embora torcesse em segredo que fosse menina, um pouco por ciúmes outro tanto pelo prazer de contradizer o pai babão. Simone trajou seu macacão, ainda um pouco folgado pela barriga das 15 semanas, pegou o marido e foi ao obstetra para conhecer o mais novo membro da família.

Deitada sobre a maca, com um incontrolável sorriso nos lábios, Simone sente com frio o médico passando o gel sobre seu útero. O Doutor olhou para o ultrassom, coçou a barba desligou o aparelho de vídeo. Percorreu por toda a barriga dela com o estetoscópio, e ela já não aguentava de ansiosa pra escutar o coração do bebê no computador. Lacrimejando, disse ao médico que sentia chutes nos últimos dias, sobretudo à noite, e que mal via a hora de ele, ou ela, nascer e dar seu primeiro grito de liberdade. Desconstruindo aos poucos aquele semblante de obstetra brincalhão, o médico diz em tom baixo, preocupado e quase inaudível: “talvez as notícias não sejam tão boas”. Alberto, aflito, pega no braço do médico e pergunta assustado: “o que há com meu filho, doutor?”. “Este é o problema. Temo que não haja feto no útero de sua mulher”. “Como assim”, pergunta Alberto assustado, enquanto Simone, incrédula, começa a chorar convulsivamente.
- “É um caso raro, se chama pseudociese, ou gravidez psicológica”, prosseguiu o médico. “É um transtorno emotivo, e pode acontecer quando a mulher quer muito ter um filho, ou quando tem muito medo de engravidar. Vou pedir um exame de HCG pra confirmar, mas acredito que a ausência de feto já me dê base pra afirmar que infelizmente não existe bebê no seu ventre. Vou recomendar um psicólogo que sei ser muito bom pra casos como esse”, mas, antes que ele termine de falar, Simone se veste num pulo e sai do consultório às pressas, tendo Alberto em seu encalço. Simone desceu correndo as escadas até dar na sarjeta do prédio, onde acocorou e chorou baixinho, sendo abraçada logo em seguida por um Alberto ofegante.

Passaram-se quase dois meses desde a consulta, que não voltou a acontecer, e Simone contava agora com 24 semanas de gravidez. Os enjoos aumentavam como suas mamas e seu ventre, seu humor oscilava bastante durante o dia, passava as noites em claro. Isso deixava Alberto cada vez mais furioso. Simone teimava em continuar o tricô, jogava pratos no chão gritando, logo depois agarrava-se aos pelos do marido chorando, e se jogava aos seus pés. Mas só ele aceitava que Simone levava na barriga um filho fantasma, um feto inexistente, pois ela se recusou a acreditar no diagnóstico, não via motivos para um tratamento psicológico, decidindo assim a levar a gestação quimérica até o parto. Após uma briga feia, Aberto decidiu sair de casa, com a mesma roupa que trajava, abandonando de vez a mulher pseudográvida e completamente perturbada. Determinada, Simone ia ser mãe solteira, e nem iria registrar o bebê – que agora mais do que nunca ela queria menina – com o sobrenome do pai covarde. Daria o nome de Marlene à criança, nome de sua mãe, pra abespinhar o agora ex-marido, sabendo que eles se odiavam desde sempre. Diria à filha que ela foi gerada por fertilização in vitro, como produção independente por sua imensa vontade de ser mãe, julgava que a filha lhe absolveria, e se emocionava cada vez que pensava nos olhinhos dela ao mamar no seu seio.

Contavam vinte e nove semanas da ilusão que Simone carregava no ventre quando dores fortes tomaram conta de todo seu corpo e uma poça de água se fez no carpete do quartinho da Marlene. “Ainda não está na hora”, ela pensou desesperada. Foi até o banheiro pra pegar a maleta do bebê quando um forte espasmo a jogou pra trás, derrubando-a de sua própria altura e fazendo com que ela batesse com a cabeça na quina da banheira. Minutos depois, ainda com a vista anuviada, Simone acorda, vê sangue na banheira, vê sangue no vestido e percebe que não há mais tempo, a dilatação indica que a criança está chegando. A dor abdominal é insuportável, ela desmaia por segundos algumas vezes até erguer-se num só respiro e sentir algo descendo sobre suas pernas molhadas. Ela agarra no ar e fecha os olhos, erguendo o bebê ainda quente em suas mãos. Esperando ouvir o choro, ela abre lentamente os olhos e percebe que deu luz à sua própria placenta. Uma placenta vazia, pegajosa e nojenta, que ela pega e atira na parede com força, provocando uma explosão de líquido incolor pastoso. Num acesso de raiva e melancolia, Simone atira sua cabeça contra o espelho do lavabo, quebrando-o em vários pedaços. Com as mãos trêmulas, pega o celular que estava sobre o mármore da pia e disca errante para o número de Alberto. O líquido vermelho escorre às bicas pelo seu rosto, pingam de seus cabelos e o telefone fica vermelho de tanto sangue.

Alberto demora propositalmente para atender, pois não quer falar com a ex-mulher. No entanto, mesmo não sabendo do risco de vida dela, e comovido pelo toque cuja melodia era a primeira música que eles ouviram juntos, ele decide atendê-la. “Alô”, ele diz. É tarde: Simone deixa cair de sua mão o celular, cata com cada mão os mais afiados fragmentos do espelho arruinado na cuba da pia, olha no reflexo sua imagem sumindo em uma nuvem negra e numa só investida ataca os próprios pulsos. Ao chão, ela ainda consegue dar o último suspiro de vida ouvindo no telefone: “Simone, meu amor, você está bem?”.







- Apesar de não gostar de explicar o que eu escrevo, deixando assim a livre interpretação, digo que escrevi essa história pensando nas pessoas que ficam cegas por suas convicções, que muitas vezes recusam ajuda e afastam aqueles que as amam por uma obsessão, um objetivo inalcançável.

domingo, 20 de janeiro de 2013

A Remissão




Gilberto era filho de agricultores e tinha três anos quando seu pai, homem rude e de poucas frases, levou a família inteira para tentar a vida na cidade grande. O pai de Gilberto começou fazendo alguns biscates de pedreiro, um ou outro serviço de elétrica, eventualmente algum trabalho mais complexo. Porém, os anos se passaram, o pai de Gilberto ficou velho, e com os anos escassearam os bicos. Ainda não adaptado à vida moderna da cidade, sentindo-se fora do seu contexto, por sua decisão, acabou fazendo a família inteira passar fome e frio. No dia em que Gilberto completou oito anos, seu pai se suicidou no banheiro, usando sua velha arma enferrujada que trouxera do campo. O tiro seco, que Betinho pensou ser um rojão por seu aniversário, mudou a vida dele e de sua família pra sempre.

Embora sua história tenha sido trágica, os traços da personalidade avessa de Gilberto já eram visíveis desde sua infância no campo. Todos já notavam como ele não sentia remorso, como parecia gelado e distante. Não demonstrava sentimentos. Embora seu pai fosse um homem de poucas palavras, Betinho tinha um olhar muito mais remoto. Na época de colégio, quando era flagrado afogando pequenos animais na privada, limitava-se a expressar um sorriso no canto da boca. Tanto eram fortes os indícios da psicopatia de Gilberto que sua mãe era a única que não lhe chamava de “Betinho”, como era de se esperar uma mãe chamar um Gilberto inda criança.

Cresceu e nada de mudar. Na adolescência, criado pela cidade suburbana, cada vez mais desabrido, andava sempre com os “barras pesada”. Era o pior do bando. Fumava desde os 13, e, sempre que podia, praticava alguma maldade a outra pessoa. Roubou diversas vezes. De ricos a pobres. Furtava discos, revistas, quinquilharias de toda espécie, apenas por prazer ou pela adrenalina. Algumas vezes meteu-se a pichar muros, escrevendo seu apelido, “Manson”, alcunha essa nada distante do que realmente era a personalidade do rapaz. Alguns mendigos o conheciam pela sua truculência, violência e rebeldia. Depois que sua mãe morreu de câncer de pulmão, quando não estava preso por algum delito, dormia em albergues ou debaixo de alguma ponte fétida.

Constituiu família, depois de conseguir um ou dois empregos informais. Ébrio habitual espancava eventualmente a esposa e os filhos. Bebia cada dia mais. Estava numa estrada sem retorno para o inferno. Traições, surras, bebedeiras, xingamentos, demissões, prisões; essa era a sua rotina e de sua família. Todos sabiam que esse homem havia sido molestado pelo padrasto, depois que seu pai deu cabo da própria vida. Mas, mesmo entendendo a revolta, ninguém o suportava mais.

Num dia comum, um dos únicos que estivesse totalmente sóbrio, talvez o dia mais lúcido desde que nascera, Gilberto, andando com suas botas de couro velho pelas ruas do centro da cidade, observando tudo e todos a sua volta, percebeu uma situação estranha. Atravessou a Avenida Ipiranga e, com os olhos, acompanhou uma senhora de cadeira de rodas que atravessava contra ele. Repentinamente, tentando subir no cordão da calçada à esquerda da rua, que era muito alto, essa senhora, inclinando seu corpo para trás, virou a cadeira e caiu com o corpo quase que totalmente no meio da rua que atravessara. Ao observar isso, Gilberto virou o rosto e olhou instintivamente para o fluxo da rua, percebendo um carro se aproximava muito rapidamente em direção à mulher. Na certa esmagaria por completo seu frágil corpo. Nesse comenos, que durou quase três segundos, Gilberto correu em direção à mulher, pondo-se a frente do motorista que, logo ao perceber o que se passava, frenou decididamente, derrapou para o lado direito acertando em cheio as pernas de Gilberto, que, com o impacto, foi arremessado há 7 metros. Caiu feito pacote flácido no asfalto e rolou mais uns 3 metros.

Gilberto morreu na hora. Quebrou seu pescoço quando rolou desajeitado pelo chão, com muitas escoriações e diversas fraturas no crânio. Havia uma auréola de sangue em volta de sua cabeça. O motorista conseguiu parar o carro logo depois do choque, antes de causar maiores danos à incolumidade do público que, naquele momento, quedava-se inerte e silente, como se o tempo tivesse parado naquele átimo. A mulher, com a ajuda de outros transeuntes, sentou-se em sua cadeira, após ter assistido deitada a toda aquela cena hollywoodiana. Olhou para aquele corpo estendido e saiu, retornando a seu destino, até então interrompido pelo tombo.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Perfume de Pólvora




“Cadê o Geraldo, cadê o Geraldo?”. Escuto meu nome ser proferido aos berros do lado de fora da minha porta, mas não entendo por quê. Levanto e vou até à porta pra ver do que se trata. Abro a porta, saio confuso e sinto algo gelado forçando minha têmpora direita. Minha retina volta o foco, e na minha frente está minha secretária ajoelhada e um homem de capuz preto na cara, que segura uma arma contra a nuca dela. Ainda sem entender o que acontece, olho pra direita pra tentar achar a coisa que incomoda minha cabeça: é outra arma, outro bandido de capuz preto na cabeça. Ele diz "Ajoelha", e minhas pernas obedecem antes da cabeça mandar. "Tu que é o Geraldo?", ele grita, e antes de eu responder, Melissa de súbito aponta pra mim e diz "É ele!", delatando que sou o gerente do banco e o único que pode dar o dinheiro que eles querem.

Tantos anos sendo minha secretária e nunca pensei que ela me trairia desta forma. O verdugo que a mantém genuflexa me olha e diz: "É ele", apertando em seguida o gatilho da arma que estava sobre a cabeça de Melissa: BLAM! O barulho seco do tiro abafado pelo crânio dela deixa o som das vozes abafadas, por alguns segundos só escuto um zunido. A luz intensa que sai do cano da arma deixa minha vista branca e o cheiro do sangue, da carne e da e pólvora me baixam a pressão instantaneamente.

Como cheguei até aqui? Esta é a vida que eu imaginei ter? Eu queria ser bombeiro. Era apaixonado por caminhões de bombeiros e suas sirenes, me imaginava de farda, combatendo o fogo. Sempre que brincava com meus amigos eu era quem salvava as vítimas. Depois pretendi ser médico, salvar pessoas, me tornar pediatra - ou geriatra -, resolveria problemas graves. Abandonei a ideia no segundo semestre da faculdade, mas foi lá que eu conheci meu primeiro e verdadeiro amor, Cíntia. Ela era linda, tão tímida que encantava qualquer um. Fazia enfermagem, só que sonhava mesmo em ser médica, pediatra ou geriatra. Foi aí que me apaixonei, mesmo que desapaixonara da medicina. Acho que permutei as paixões. Saímos algumas vezes até eu perceber que ela também estava apaixonada - apesar de eu ter desperdiçado um sonho que era dela. Comecei a estudar administração, pois ainda estava à deriva e não sabia bem o que iria fazer da vida após ter o sonho interrompido pela desilusão. Comecei estagiando em bancos, e fui aprendendo com meus amigos a praticar pequenos furtos. Me formei, fui efetivado em um grande banco, mas, depois que Cíntia descobriu meus planos de fazer um golpe grande, terminou nosso relacionamento e nunca mais nos vimos. Disse que não me conhecia, que eu não era quem ela pensava ser, um altruísta, filantropo, alguém ético e correto. Eu queria poder, dinheiro, posição, era e sempre fui ambicioso. Ela nunca entenderia, por ser inocente e ingênua demais. Esse é um mundo de Geraldos, não de Cíntias.

Por já ter certa posição no banco e conseguir muito dinheiro desviando aposentadoria de velhinhos, casei com a filha de um influente senador. Ele me promoveu a gerente do setor de empréstimos da maior agência do banco no estado, o que me deu margem para desviar grana grande. Foi uma maneira de o senador dar melhores condições de vida à sua filha, indiretamente. Contudo, apesar de estar feliz com minha vida financeira, nunca fui feliz com minha esposa arranjada. Ela também não deve ter sido, pois foi praticamente forçada a casar-se comigo. Tivemos apenas um filho, que parou de estudar quando foi para uma universidade na Holanda e agora é um drug dealer na zona vermelha. 

Se arrependimento matasse… ou melhor, se arrependimento evitasse que a gente morresse como agora vai acontecer comigo! Eu viveria outra vida. Aliás, eu voltaria a viver a vida antes do primeiro desvio, antes do primeiro golpe, encontraria Cíntia e tentaria mostrar o que estou sentido agora, no momento em que estou para morrer. Diria que sinto novamente meu amor por ela, o quanto estive errado e como minha vida foi de fato da forma como ela prognosticou naquele dia em que nunca mais a vi.

Queria tanto não morrer agora, como Melissa, que foi sumariamente descartada por não ser quem essa gente procurava. É assim que um homem arrependido deve morrer, pelas mãos de assassinos frios que só querem dinheiro?

Recobro minha vista com um tapa na cara, e o sujeito me manda levantar. Querem que eu abra o cofre. Tento dizer que não tenho a chave, mas eles mostram saber mais da minha vida que minha própria esposa. Pego a chave codificada. Há cinco milhões de reais no cofre do banco. Com esse dinheiro eu poderia dar uma vida de rainha pra Cíntia, fazer dela a mulher mais feliz do mundo, pra que ela me fizesse o homem mais realizado. Pagaria sua faculdade de medicina, se ela já não fosse médica, e ela se tornaria geriatra, ou pediatra, e cuidaria de mim quando envelhecêssemos, e teríamos dois filhos com os olhos dela, uma casa de campo na serra, uma poltrona confortável à beira de uma lareira. Mas esse dinheiro agora não poderia mais ser meu, nem do banco, nem dos verdadeiros donos, pois os homens encapuzados (que conto por alto serem cinco, portanto um milhão para cada, o que seria justo, uma vez que assaltam juntos o maior banco do estado, cujo gerente é um dos homens mais sujos do país) agora vão levar sem nenhum esforço. Enfio a chave trêmula, giro e estalo! Trinta e dois pra direita, sessenta e cinco pra esquerda, estalo! Setenta pra direita, vinte e quatro pra esquerda, estalo! Trinta e nove pra direita e, e, e... e qual é a porra da última dezena? Cinquenta e cinco? Cinquenta e seis? "Vai duma vez, caralho. Foda-se, vou explodir essa merda", diz o mais impaciente deles. Ele olha pra mim com raiva, fecha o rosto. Reluz no vidro dos seus olhos um brilho intenso: BLAM! O brilho é do fogo da arma que ele apontava pra mim, e que agora empurra a mão dele contra seu corpo. O barulho da explosão ecoa entre minhas orelhas, e sinto um doce perfume misturado à pólvora e à fumaça: é o cheiro do sangue que me escorre pela face.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O Drama de Angélica



Ouve meu cântico, quase sem ritmo, que é a voz de um tísico magro esquelético. Poesia épica, em forma esdrúxula, feita sem métrica com rima rápida.

Amei Angélica, mulher anêmica, de cores pálidas e gestos tímidos. Era maligna e tinha ímpetos de fazer cócegas no meu esôfago.

Em noite frígida, fomos ao Lírico ouvir o músico, pianista célebre. Soprava o zéfiro, ventinho úmido, então Angélica ficou asmática.

Fomos ao médico, de muita clínica, com muita prática e preço módico. Depois do inquérito, descobre o clínico o mal atávico: mal sifilítico.

Mandou-me célere comprar noz vômica e ácido cítrico para o seu fígado. O farmacêutico, mocinho estúpido, errou na fórmula - fez despropósito. Não tendo escrúpulo, deu-me sem rótulo ácido fênico e ácido prússico.

Corri mui lépido mais de um quilômetro num bonde elétrico de força múltipla. O dia cálido deixou-me tépido. Achei Angélica já toda trêmula.

Da terapêutica dose alopática lhe dei uma xícara, de ferro ágate. Tomou no fôlego, triste e bucólica, esta estrambólica droga fatídica. Caiu no esôfago, deixou-a lívida, dando-lhe cólica e morte trágica.

O pai de Angélica, chefe do tráfego, homem carnívoro, ficou perplexo. Por ser estrábico, usava óculos: um vidro côncavo, outro convexo.

Morreu Angélica de um modo lúgubre, moléstia crônica levou-a ao túmulo. Foi feita a autópsia, todos os médicos foram unânimes no diagnóstico.

Fiz-lhe um sarcófago, assaz artístico, todo de mármore, da cor do ébano. E sobre o túmulo uma estatística, coisa metódica, como Os Lusíadas.

E numa lápide, paralelepípedo, pus esse dístico, terno e simbólico:

"Cá jaz Angélica,
moça hiperbólica
beleza helênica,
morreu de cólica!".










Música de Alvarenga e Ranchinho.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O Homem que Escrevia no Espírito (Parte 1)


Por Rafael Rivas



Vinícius era um homem apaixonado. Gostava de relacionamentos longos, conhecer e aprender de sua amada. Observava com afinco os gestos, a postura, a maneira de andar. Esforçava-se para se apaixonar sempre pela mesma mulher. Resignava-se fácil, não gostava de tolices.

Estava namorando há sete anos a mulher que lhe rendeu um noivado. Dedicava-se como se aquela fosse a última, a beijava como se fosse a única. Romântico que era, dava flores inesperadas, surpreendia com presentes fora de data, comentava os cortes de cabelo – ainda que fossem apenas nas pontas -, elogiava constantemente as roupas, sapatos, ligava para dizer um eu te amo, mandava mensagens agradecendo pela oportunidade de ser feliz ao lado dela. Quando ia trabalhar, deixava no quarto dela poesias de amor e sexo que improvisava em post-its, e partia vendo ela agarrada aos lençóis, como se fizesse parte de uma pintura, na qual a cama era a moldura.

Entretanto, ela sempre foi pouco habituada aquele amor todo. Desdenhava no início, mas veio a se acostumar com o noivo meloso com passar dos anos. Achava brega, antiquado, um tanto obsceno. Não era dada a palavras eróticas. Tinha personalidade recatada, negligente, um quê de pachorrenta.

Tal espírito desidioso da namorada acabou por aplacar esse ímpeto poético no jovem Vina. Já perdera o tino para improvisos, não escrevia mais nada. Ele foi se desapaixonando aos poucos, mas não só por ela, por si mesmo, pela sua atitude servil. Do noivado sobrou apenas amizade, ou seja, amor sem sexo. E de amizade nenhum homem vive por muito tempo. Sentia cãibras no seu espírito criativo, havia adormecido nele aquele tino para a arte. Vina queria mais, queria se reapaixonar, só que por outra mulher, por si, pela vida. Sentir novamente aquele frio na barriga, se interessar pelos gestos, pelo corpo de outra mulher, voltar às poesias de amor e sexo. Rompeu o noivado estanque e partiu rumo à vida.

Foi então que ele conheceu Carla… e Camila e Joana e Bárbara e Amanda e Vanessa… Vinícius apaixonou-se não só uma vez, mas várias, diversas, por todas, umas diferentes das outras, suas peculiaridades, suas curvas, minúcias, a maneira de andar e quedarem-se sentadas. E nunca estivera tão inspirado a fazer poesias. Não de escrevê-las em post-its ou cartas, mas dizê-las às amadas, sussurrar no pé d’ouvido, em letras garrafais, caligrafias virtuais, tons retumbantes. Sentia o fundo d’alma delas estremecer aos percucientes verbos empregados em suas prosas, às exclamações, às rimas, cada estrofe um gozo. Valia-se de palavras de baixo calão, vulgares, chulas, dignas do funk mais bagaceiro, unidas a palavras rebuscadas, aprimoradas, requintadas, aveludadas por sua voz macia e firme, em literatura pura e métrica. Fazia uma montanha russa de emoções naquelas orelhas atentas. De fato, as palavras polidas eram as que mais faziam efeito, pois elas quase não entendiam, não fosse o contexto.

Passou a deixar de lado as flores e as mensagens e as ligações e os comentários sobre os cabelos e os vestidos, pois elas o procuravam apenas para que ele falasse aos seus ouvidos as palavras mágicas. Enquanto ele se deliciava em seus corpos, beijando as coxas, as nádegas, as costas, declamava seus famosos versos e prosas, sentindo nos pelos a repercussão das palavras. Deixou papel e caneta, tudo estava em sua cabeça, e era gravado naqueles corpos desde o espírito que ele fazia seu livro. Cada orelha uma página em branco, esperando ser preenchida com aquela retórica persuasiva que lhe vinha de súbito, no improviso. Cada palavra entrava n’alma e nunca mais saía, provocando calafrios mesmo depois de horas, só de lembrança vaga.

E cada vez mais ouvintes lhe procuravam; senhoras, acadêmicas, enfermeiras, putas pagavam para ouvir dele as palavras mais belas e sórdidas. Tornou-se famoso na boemia da cidade, fazendo a diversão dos ouvintes atentos nos bares. Logo ficou conhecido em toda capital, passando a dar entrevistas a jornais e saindo de quando em vez em colunas de suplementos literários. Em um ano já fazia apresentações em programas televisivos, ia a talk-shows, escrevia no espírito das apresentadoras suas poesias. 

Aquela vida pretérita do Vinícius estava tão longe quanto perto o desfecho do seu livro. Nem se lembrava da noiva, que tanto lhe sufocara o espírito criativo. Tinha tantas admiradoras que sequer lembrava-se da mulher da véspera.

Continua em O Homem que Escrevia no Espírito (Parte 2)

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Um Sorriso nos Lábios






Letícia acorda e olha para aquele homem ao seu lado, com quem se deitara por cinco longos anos. Ela amava e conhecia ele como ninguém.

Apesar disso, embora tenha sido o melhor amante de sua vida, não lhe procurava mais há meses. Ela não se sentia mais desejada. Percebia que os olhares dele escapavam ao dela.

Almoços, jantas e finais de semana sozinha. Qualquer coisa tirava a atenção dele a ela. Sentia-se doente, triste, consternada pela desídia do marido.

Acordou e lembrou:  ele se deitou ao seu lado, na noite anterior, e não a abraçou em concha, não a aliciou. Nada! Estava extremamente áspero há mais de duas semanas. Duro, ríspido no tratar. Não sorria mais para ela. Sequer a beijava no último mês.

Até ontem, Letícia ainda tinha esperanças. Porém, nessa manhã, finalmente percebeu o pior: ele dormiu e acordou com o mesmo sorriso nos lábios.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Mariluz – O Último Dia de Praia (+18)


Não sei colocar censura etária, portanto, se tiver menos de 18 anos, ser virgem, ou não gostar de emoções fortes, não leia a partir daqui!




Mariluz – O Último Dia de Praia




















Após duas semanas curtindo Mariluz (município litorâneo norte riograndense, praia pequena e irrelevante para a rotação do mundo, mas incontornável depois de descoberta), havia chegado o último dia dessas pequenas férias. Eu, minha namorada e meu melhor amigo, também com sua namorada, alugamos dois quartos de uma pousada bem discreta, familiar, cor de salmão - ou um laranja já desbotado -, à beira-mar. Alugamos um quarto ao lado do outro. O único problema é que a parede comum aos dois quartos era muito fina, e durante a noite alguns soluços escapavam, tanto de lá quanto de cá. Mas por causa dos mosquitos dormíamos completamente tapados pelo lençol, o que abafava um pouco o barulho.

Passamos o dia na areia, elas tomando banho de sol e nós, homens, jogando um futebolzinho. Depois, já no finalzinho da tarde, apreciamos o pôr-do-sol com um chimarrão, um violão e muitas risadas. Aproveitamos o dia como se aquele fosse o último dia de verão de nossas vidas. Dia 25, segunda-feira, eu tinha de voltar ao trabalho, naquele escritório chato de pessoas chatas e papéis inúteis.

Enquanto minha namorada Ana e meu amigo Zeca iam lavar os chinelos no mar, Suellen, a nova namorada do meu amigo, me revelou um tanto escondida que eu tocava muito bem, o que me fez reparar nela como não havia reparado ainda desde então. Em respeito ao meu amigo, não ficava espichando os olhos pra ela. Mas, assim que ela falou aquilo, levantou e foi em direção ao mar. Aí que percebi Suellen, toda loira, de pele tostada pelos banhos de sol, com seu short sumário deixando escapar as polpas da bunda e uma blusinha de crochê içada, pela imponência dos seios, pouco acima do umbigo. Ao estilo mignon, contava com apenas 1m60cm de uma suntuosa silhueta. Tinha olhos grandes e verdes, esplêndidos pares de coxas e pezinhos pequenos como uma chuva miúda no verão.

Passado o lapso de cobiça da mulher alheia e recobrando os sentidos após surto de vaidade que me tomou o espírito, soltei os lábios ainda rijos, levantei, sacudi a areia da bermuda, calcei os chinelos e emparelhei a caminhada com os três rumo à pousada.

Como em todas as outras noites, saímos pelo centrinho de Mariluz. Só que aquela noite era especial. Estava exalando uma estranha e agradável brisa no ar, que lambia nossos corpos com sua maresia e nos deixava ainda mais em clima de festa. Riamos sozinhos, nós quatro. Era realmente uma noite muito boa.

Lá por volta das duas da madrugada, sentamos à beira do mar novamente. Jogamos conversa fora, bebemos e discutimos planos. Tudo que quatro pessoas falariam quando levemente embriagadas. Um clima assim impende muitas indiretas por parte das mulheres. Sim, é claro que elas, amiúde, aproveitavam para se lamuriar daqueles gravames comuns à nossa raça.

O tempo corria nas crinas do vento, enquanto o sono chegava a cavalo e nossos olhos já semicerrados lacrimejavam. O grau etílico subiu gradativamente, seja pelos ponteiros do relógio, seja pelo cansaço que nos tomava da festa “interminável” das últimas duas semanas. Havia também uma garrafa quase vazia – ou meio cheia – de uísque nos acompanhando. Mas essa não tinha culpa de nada.

Voltamos - cambaleantes - para nossos respectivos quartos. Entretanto, antes de eu poder processar a ideia de me esparramar na cama e desfrutar as últimas horas das minhas férias, por alguma coisa que eu fiz - ou deixei de fazer -, mesmo sem saber o que tinha sido, minha namorada começou a discutir comigo. Mais uma daquelas brigas pesadas, que tanto me irritavam e me desmotivavam. Mulheres sempre fazem isso: pegam frases desconexas e fora de contexto, criam uma estória no seu imaginário fértil e usam contra nós depois, pobres e indefesos homens, escravos dessas torpes criaturas de Deus. Deve ser a tal da TPM. Será que ela percebeu algum olhar de Suellen pra mim a hora que eu tocava violão? Ou alguma coisa com relação à minha falta de perspectiva para o casamento após seis anos de relacionamento?

Mandei ela longe, deitei de costas para suas costas e me fechei como dedos. Embora estivesse exausto, não conseguia conciliar o sono. Virava, revirava, abraçava o travesseiro e nada de achar jeito na cama. Estava irritado e de cabeça quente. Tive de ir à beira mar para repensar minha vida, pois aquela briga era definitiva! (Sempre é!) O som das ondas e a maresia têm um efeito terapêutico em mim. Levei comigo o resto daquele uísque e bebi até a última gota. Já era o suficiente (?!).

Estava completamente envolto em pensamentos quando percebi que meu amigo também andava pela praia - talvez pelo mesmo motivo. Não pensei que aquela conversa na beira do mar tinha rumado para tais armadilhas femininas. Pegaram-nos desprevenidos, as duas! No entanto, Zeca estava avesso e não queria pensar ao som das ondas e cheirando maresia, queria mesmo beber mais no centro de Marilight, ver a mulherada. Orra, em posse daquela loira cordicuia de olhos verdes ele ainda tem olhos para outra mulher? Eu recusei a proposta e voltei trocando os pés ao meu quarto.

Quando entrei no quarto, pensei em não acender a luz para não acordar minha (furiosa) namorada. Não é que a desgraçada tinha conseguido dormir?! Pé por pé fui até a cama e deitei. Senti álcool das duas semanas inteiras retumbar naquele escuro circundante. Nesse instante, veio-me à cabeça que nas vezes em que brigamos nossas reconciliações sempre se davam com boas doses de sexo. Na minha opinião, as melhores transas são depois das piores brigas.

Obstinado pelo pensamento, parti para o ataque. Abracei seu corpo em concha, no desejo de dirimir aquela briga inútil – ainda que não existam brigas úteis. Ela estava deliciosamente nua por de baixo dos lençóis. Senti que ela me retribuiu o gesto, arrastando no colchão sua bunda para perto da minha cintura e retirando com os pés, de uma só vez, o lençol que lhe cobria. Veio com um roçar sensual que me estremeceu até o último pelo da alma! Sentia a eletricidade pulsando por todo meu corpo. Aproximei meu queixo na nuca dela, tentando arrancar um arrepio de sua espinha com minha barba. Segurei firme seu cabelo enquanto minha outra mão deslizava sobre suas coxas, já todas ouriçadas pelos calos dos meus dedos. Continuei no pescoço, virando seu corpo até que pudesse chegar aos seus lindos seios. E que seios! Sentia o bico hirto em meus lábios, enquanto fazia movimentos com língua e boca, ora remansados, ora provocadores. Pareciam deliciosamente firmes. Ela revirava-se, deixando marcas perpétuas no colchão. Nunca havia sentido tal aproximação entre nós. Aquele cheiro de xampu entrando nas minhas narinas. Era um desejo anímico, sem qualquer explicação plausível. Que pele! Enrolei minhas pernas nas dela, enquanto minhas mãos ainda descortinavam seu contorno. Foram minutos de intenso prazer preliminar. Indescritível. Com um movimento rápido, segurei com força e firmeza suas costas, virando seu corpo de bruços, de forma com que pudesse deitar sobre sua pronunciada bunda. Num pulo, tirei a cueca, subi e entrei. Nesse momento, em um gemido impudico, lento, tórrido e impublicável, como em uma ironia romântica, ela exclamou: “AI ZECA!”…


Sim, na azáfama da embriaguez eu havia imperdoavelmente errado de quarto. E antes que eu pudesse me lamentar do erro… já estava dentro da namorada do meu melhor amigo.








* A frase "pequena e irrelevante para a rotação do mundo, mas incontornável depois de descoberta" é de Luís Augusto Fischer, e está no songbook do Vitor Ramil.

** A expressão “Ironia Romântica” explicada em http://www.edtl.com.pt/?option=com_mtree&task=viewlink&link_id=448&Itemid=2.