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quarta-feira, 16 de maio de 2012

A Dança do Silêncio






Foi estranho vê-la assim tão de repente, depois de tantos anos, entre pessoas conhecidas e rostos estranhos. Sua face se iluminava pela fogueira acesa na areia. Ainda era linda, alguns anos mais velha, mas como se fosse a mesma, só que vestindo uma roupa antiga. Seu corpo balançava como as ondas do mar com o ritmo da música do violeiro, aquele sorriso tímido seguindo com os lábios a letra de Redemption Song. Encontrá-la num luau à beira do mar foi realmente muito estranho e inesperado.

Fiquei por alguns minutos de pé, do outro lado da fogueira, fitando seu rosto, que escurecia e se iluminava pelo roçar do vento na fogueira, até que uma amiga do seu lado lhe falou algo no ouvido e ela me olhou. Quando seus olhares me alcançaram, a boca parou de cantarolar, quedou-se pálida e semicerrada, com a língua entre os dentes, sussurrou meu nome e pude notar uma lágrima contida no canto do seu olho esquerdo. Talvez não pudesse crer em tamanho acaso, assim como eu.

O violeiro, seguido de um acordeonista, iniciou Mondo Bongo, do Joe Stummer, que era, para coroar a coincidência, a nossa música, minha e dela. Ela agora já nem sabia mais o que fazer, de tão nervosa. Decidida, passou a mão naqueles negros cabelos longos, colocando-os atrás da orelha, levantou e, ainda me olhando, veio em minha direção. Trajava uma leve saia branca que ia da cintura até os pés descalços, e uma blusa azul turquesa deixando quase aparecer pouco do peito. Atravessou a fogueira e estacionou a um palmo do meu rosto. Com minha mão direita peguei na sua esquerda, que pendia suada e trêmula, deitei o rosto sobre seus ombros, sentindo aquele mesmo perfume de outrora, ergui a cabeça e acenei para trás, indicando minha vontade de dançar um pouco, longe dali. Segurei com minha mão esquerda a sua cintura, dei um passo para trás e começamos a dançar.

Enquanto rodávamos, ela me olhava como se eu fosse um desconhecido, um estranho e misterioso homem que lhe encantara repentinamente. De tanto girar, nos distanciamos da fogueira, sentindo a areia gelada nos pés descalços. A música ia entrando no ritmo dos nossos corpos, já velhos conhecidos. A lua agora era nossa única testemunha, pois as pessoas pareciam não mais estar ali, só a música, a areia, e eu e ela a dançar.

“Latino caribo, mondo bongo, the flower looks good in your hair. Latino caribo, mondo bongo, nobody said it was fair, oh”. Girei-a e agarrei por trás, comprimindo seu corpo no meu. Ela lançou uma risada de liberdade, afastou-se, virou e me olhou nos olhos, com o vestígio do riso na boca. Mordeu o lábio, balançou a cintura de um lado para o outro, colocou o pé esquerdo no joelho direito e caiu sobre mim. Aparei sua queda, ficando meio palmo de boca a boca. A levantei com a brandura da música, cravei minhas digitais na sua cintura e, aproximando minha boca da sua suavemente, senti o que há tempos não sentia: a fragrância adolescente, uma felicidade estranha.

Aquela boca era bem mais que uma boca. Aquele beijo significava muito mais que um simples roçar de lábios. A música acabou, o fogo apagou, o mundo calou, a boca esfriou, a lágrima secou, e o mundo inteiro voltou a rodar. Abri os olhos e me deparei com o rosto dela, pálido e indiferente.

Ela desviou o olhar, olhou para o chão, olhou para as pessoas indo embora, virou-se, mexeu no cabelo e partiu. Nem a lua nos espiava mais. Antes de sair da areia, olhou pela última vez para trás e me viu ali, parado, como fiquei durante algumas horas, até que meus joelhos cansaram e eu sentei. Sentei na areia gelada daquela noite fria, naquele vento intenso daquela cena estranha. Olhei pras minhas mãos, que ainda conservavam o calor do corpo dela, coloquei no meu rosto, passei os dedos nos meus lábios, olhei para o mar e pude ver aquilo que talvez estivesse latente dentro de mim há tempos, aquela verdade velada que me fazia sonhar com esse dia.


Eu sei que eu a amava, e ainda amo. Ela também deve sentir o mesmo. É sempre amor, mesmo que mude. É sempre amor, mesmo que acabe.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O Drama de Angélica



Ouve meu cântico, quase sem ritmo, que é a voz de um tísico magro esquelético. Poesia épica, em forma esdrúxula, feita sem métrica com rima rápida.

Amei Angélica, mulher anêmica, de cores pálidas e gestos tímidos. Era maligna e tinha ímpetos de fazer cócegas no meu esôfago.

Em noite frígida, fomos ao Lírico ouvir o músico, pianista célebre. Soprava o zéfiro, ventinho úmido, então Angélica ficou asmática.

Fomos ao médico, de muita clínica, com muita prática e preço módico. Depois do inquérito, descobre o clínico o mal atávico: mal sifilítico.

Mandou-me célere comprar noz vômica e ácido cítrico para o seu fígado. O farmacêutico, mocinho estúpido, errou na fórmula - fez despropósito. Não tendo escrúpulo, deu-me sem rótulo ácido fênico e ácido prússico.

Corri mui lépido mais de um quilômetro num bonde elétrico de força múltipla. O dia cálido deixou-me tépido. Achei Angélica já toda trêmula.

Da terapêutica dose alopática lhe dei uma xícara, de ferro ágate. Tomou no fôlego, triste e bucólica, esta estrambólica droga fatídica. Caiu no esôfago, deixou-a lívida, dando-lhe cólica e morte trágica.

O pai de Angélica, chefe do tráfego, homem carnívoro, ficou perplexo. Por ser estrábico, usava óculos: um vidro côncavo, outro convexo.

Morreu Angélica de um modo lúgubre, moléstia crônica levou-a ao túmulo. Foi feita a autópsia, todos os médicos foram unânimes no diagnóstico.

Fiz-lhe um sarcófago, assaz artístico, todo de mármore, da cor do ébano. E sobre o túmulo uma estatística, coisa metódica, como Os Lusíadas.

E numa lápide, paralelepípedo, pus esse dístico, terno e simbólico:

"Cá jaz Angélica,
moça hiperbólica
beleza helênica,
morreu de cólica!".










Música de Alvarenga e Ranchinho.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O Homem que Escrevia no Espírito (Parte 1)


Por Rafael Rivas



Vinícius era um homem apaixonado. Gostava de relacionamentos longos, conhecer e aprender de sua amada. Observava com afinco os gestos, a postura, a maneira de andar. Esforçava-se para se apaixonar sempre pela mesma mulher. Resignava-se fácil, não gostava de tolices.

Estava namorando há sete anos a mulher que lhe rendeu um noivado. Dedicava-se como se aquela fosse a última, a beijava como se fosse a única. Romântico que era, dava flores inesperadas, surpreendia com presentes fora de data, comentava os cortes de cabelo – ainda que fossem apenas nas pontas -, elogiava constantemente as roupas, sapatos, ligava para dizer um eu te amo, mandava mensagens agradecendo pela oportunidade de ser feliz ao lado dela. Quando ia trabalhar, deixava no quarto dela poesias de amor e sexo que improvisava em post-its, e partia vendo ela agarrada aos lençóis, como se fizesse parte de uma pintura, na qual a cama era a moldura.

Entretanto, ela sempre foi pouco habituada aquele amor todo. Desdenhava no início, mas veio a se acostumar com o noivo meloso com passar dos anos. Achava brega, antiquado, um tanto obsceno. Não era dada a palavras eróticas. Tinha personalidade recatada, negligente, um quê de pachorrenta.

Tal espírito desidioso da namorada acabou por aplacar esse ímpeto poético no jovem Vina. Já perdera o tino para improvisos, não escrevia mais nada. Ele foi se desapaixonando aos poucos, mas não só por ela, por si mesmo, pela sua atitude servil. Do noivado sobrou apenas amizade, ou seja, amor sem sexo. E de amizade nenhum homem vive por muito tempo. Sentia cãibras no seu espírito criativo, havia adormecido nele aquele tino para a arte. Vina queria mais, queria se reapaixonar, só que por outra mulher, por si, pela vida. Sentir novamente aquele frio na barriga, se interessar pelos gestos, pelo corpo de outra mulher, voltar às poesias de amor e sexo. Rompeu o noivado estanque e partiu rumo à vida.

Foi então que ele conheceu Carla… e Camila e Joana e Bárbara e Amanda e Vanessa… Vinícius apaixonou-se não só uma vez, mas várias, diversas, por todas, umas diferentes das outras, suas peculiaridades, suas curvas, minúcias, a maneira de andar e quedarem-se sentadas. E nunca estivera tão inspirado a fazer poesias. Não de escrevê-las em post-its ou cartas, mas dizê-las às amadas, sussurrar no pé d’ouvido, em letras garrafais, caligrafias virtuais, tons retumbantes. Sentia o fundo d’alma delas estremecer aos percucientes verbos empregados em suas prosas, às exclamações, às rimas, cada estrofe um gozo. Valia-se de palavras de baixo calão, vulgares, chulas, dignas do funk mais bagaceiro, unidas a palavras rebuscadas, aprimoradas, requintadas, aveludadas por sua voz macia e firme, em literatura pura e métrica. Fazia uma montanha russa de emoções naquelas orelhas atentas. De fato, as palavras polidas eram as que mais faziam efeito, pois elas quase não entendiam, não fosse o contexto.

Passou a deixar de lado as flores e as mensagens e as ligações e os comentários sobre os cabelos e os vestidos, pois elas o procuravam apenas para que ele falasse aos seus ouvidos as palavras mágicas. Enquanto ele se deliciava em seus corpos, beijando as coxas, as nádegas, as costas, declamava seus famosos versos e prosas, sentindo nos pelos a repercussão das palavras. Deixou papel e caneta, tudo estava em sua cabeça, e era gravado naqueles corpos desde o espírito que ele fazia seu livro. Cada orelha uma página em branco, esperando ser preenchida com aquela retórica persuasiva que lhe vinha de súbito, no improviso. Cada palavra entrava n’alma e nunca mais saía, provocando calafrios mesmo depois de horas, só de lembrança vaga.

E cada vez mais ouvintes lhe procuravam; senhoras, acadêmicas, enfermeiras, putas pagavam para ouvir dele as palavras mais belas e sórdidas. Tornou-se famoso na boemia da cidade, fazendo a diversão dos ouvintes atentos nos bares. Logo ficou conhecido em toda capital, passando a dar entrevistas a jornais e saindo de quando em vez em colunas de suplementos literários. Em um ano já fazia apresentações em programas televisivos, ia a talk-shows, escrevia no espírito das apresentadoras suas poesias. 

Aquela vida pretérita do Vinícius estava tão longe quanto perto o desfecho do seu livro. Nem se lembrava da noiva, que tanto lhe sufocara o espírito criativo. Tinha tantas admiradoras que sequer lembrava-se da mulher da véspera.

Continua em O Homem que Escrevia no Espírito (Parte 2)

domingo, 10 de julho de 2011

Cãibras da Vida



Acordei esses dias, pelas oito horas da manhã, com o braço esquerdo inteiro em câimbras. Sequer conseguia mover o dedo médio e indicador da mão, e sentia meu braço inteiro formigar. Tentei dobrar os dedos, mas por maior força que exercesse, não obtinha sucesso. Fechei os olhos, virei-me de peito para cima e esperei o sangue fluir. Em cerca de um minuto recobrei os movimentos. Na mesma hora peguei um papel e rabisquei algo. Voltei a dormir e, só depois de uma semana, fui ver a ideia que tinha surgido daquele fato.

Sim, havia algo por trás daquele fato comezinho. Por mais comum ou trivial que possa ter sido. Ou talvez apenas algo que se pudesse usar como analogia ao fato de estar com cãibra. (Câimbra ou cãibra, pela nossa língua, tanto faz).

Bom, o fato é que eu pensei em algo e escrevendo essa ideia consegui extrair um pensamento. Talvez seja válido...

É comum que sintamos câimbra (ou cãibra). Isso ocorre por causa da contração espasmódica do tecido muscular, e quando perdemos a circulação de sangue no membro em que sentimos essa formicação, o membro atingido perde alguns movimentos, por que os movimentos são comandados do cérebro pela circulação sanguínea (óbvio). No meu caso, foi porque permaneci deitado por horas em cima do meu braço. O sangue, portanto, não fluiu nesse membro, deixando-o imóvel, sem responder aos meus impulsos cerebrais. Meu cérebro mandava, mas a mão, maior atingida pelo meu peso, não respondia aos movimentos que ele governava.

E que relevância tem isso?

Podemos traçar alguns pontos semelhantes nesse processo de formicação que acontecem na nossa vida, quotidianamente. Por muitas vezes nós deixamos alguma coisa deitar sobre nós, interromper nossa circulação. Então ficamos inertes, sem resposta aos nossos impulsos normais.

Sim, rompemos nosso fluxo sanguíneo, fazendo com que nosso corpo fique sem movimento em situações que nem pensamos que isso acontece.

Como assim?

Quando nos deixamos influenciar por outra pessoa, por exemplo (e foi justamente a alusão que pensei naquele momento de reflexão).

Existem outras pessoas em nossa vida, isso porque não conseguimos conviver com nós mesmos. E cada pessoa tem sua maneira de pensar, seu jeito de viver e ver as coisas. O grande problema é quando por paixão, por amor, ou por respeito (ou por falta de personalidade mesmo), deixamos de ser o que nós pensamos ser certo e somos o que a outra pessoa pensa ser certo.

Nisso, um amigo meu (parente emprestado), grande pensador e escritor, acertadamente descreve como “mapa mental” (http://www.devotosdoprazer.com.br/siga_o_seu_mapa). Cada um de nós tem um mapa mental. E esse mapa mental é nosso, e SÓ nosso. Nossa interpretação de mundo, nossa explicação da realidade, de fatos e acontecimentos. Só nós temos o caminho para nossa felicidade, o caminho para o “nosso certo”. Mas ao longo de nossa existência cruzamos com outras pessoas que, igualmente, têm seu mapa mental, não é?!

O problema todo consiste em nos deixarmos dominar por esse caminho do outro, essa percepção de “certo” e “errado” que tem o outro, ou a outra. Da mesma forma, é errado que imponhamos nosso mapa mental ao outro.

Então, por paixão, amor, ou respeito, deitamos sobre o nosso próprio fluxo sanguíneo e ficamos com nosso corpo e mente inteiros sem movimentos. Deixamos de pensar como pensávamos, de sentir como sentíamos, apenas pela vontade do outro, para nos adequarmos à vontades alheias.

Isso é válido, com certeza, quando tem um resultado positivo em nossa vida, quando essa mudança significa em uma evolução racional e emocional. Quando é benéfica.

Mas e quando chegamos a um determinado momento em que não achamos isso tão “normal” assim? E quando não acreditamos que esse certo não é mais tão certo? Quando não queremos mais ser o que o outro entende ser certo? Quando nosso corpo e mente volta a fluir no sangue de nosso espírito próprio? Quando tomamos as rédeas de nosso próprio corpo e vontade?

É por isso que vos digo, em toda minha reflexão, que, quando o corpo e os sentidos retomam a forma que tinham antes, quando o sangue volta a fluir na veia, tomamos a forma de uma mola que, quando encolhida, se liberta da pressão que a forçava.

Essa mola reprimida pode ser usada como figura de linguagem, assim como meu braço formigante. Somos subjugados por essa força que nos empurra, nos faz outra pessoa que não somos, nos tiram a corrente sanguínea. Mas quando recuperamos o nosso eu, quando voltamos ao que éramos... ah, daí sim explodimos e recobramos nossa força, recuperamos nosso EU!

Fica minha dica: não deixe seu eu, seu íntimo, sua personalidade, sua subjetividade, ser dominada pela vontade de outra pessoa, pela imposição, ainda que implícita, do seu amante - ou algo semelhante. Seja você, assim como você é.

Uma hora ou outra essa pessoa vai te conhecer, pode ter certeza. Não há compressão que perdure por muito tempo. Não há entendimento que invada nosso próprio conceito de EU e permaneça por muito tempo.

As pessoas se divorciam por causa disso. Tendo filhos ou não.

Essa força contrária faz retornar aquilo que outrora você era. Essa força interior faz com que não importe a pressão externa, o interno se sobreponha a qualquer risco do eu não ser o eu mesmo. Nosso cérebro não permanece por muito tempo sendo submisso.

Não seja quem você não é só para conquistar alguém que parece o se encaixar no seu padrão, que se adequa a você. É errado fingirmos ser quem não somos.

A pessoa correta, que se encaixa nos nossos padrões de parceiro ideal, aceitará o que nós somos, mesmo errado ou certo na interpretação dele.

Está em suas mãos ser quem você é, ou ser quem querem que você seja. Posso dizer - com a certeza de minha parca experiência -, um dia esse seu eu vai jorrar de dentro pra fora, e ninguém vai segurá-lo, nem aquele que você se modificou para se parecer perfeito.

Sendo você quem é, ou não, em determinado momento, esse seu EU irá transparecer. Você ou ele terá uma atitude. E essa atitude pode ser inesperada e drasticamente definitiva.

Quem você quer ser? A mola encolhida? O braço formigante? Ou você mesmo, com erros e acertos inerentes à sua vontade?

Escolha você mesmo!

sábado, 16 de abril de 2011

Francis e Cristina - outra homenagem minha a Chico Buarque

Francis e Cristina eram um casal de amigos meus. Francis era meu amigo de infância. Cristina era colega da faculdade e minha confidente. Eles se conheceram por mim. Mas no fim, não souberam aproveitar a oportunidade. Certa feita, soltando os monstrinhos que tinham dentro de si, um para devorar o outro, brigaram sem fim...

Na briga ele disse a ela assim:

Eu tinha alguém que comigo morava. Mas tinha um defeito que brigava, com razão ou sem razão.
Encontrei um dia uma pessoa diferente, que me tratava carinhosamente. Dizendo resolver minha questão. Mas não!

Foi assim, troquei essa pessoa que eu morava por essa criatura que eu julgava que pudesse compreender todo meu eu.
Mas no fim, fiquei na mesma coisa em que estava, porque a criatura que eu sonhava não faz aquilo que me prometeu.

Não sei se é meu destino. Não sei se é meu azar. Mas tenho que viver brigando.
Todos no mundo encontram seu par. Porque só eu vivo trocando?

Se deixo de alguém, por falta de carinho, por brigas e outras coisas mais, quem aparece no meu caminho tem sempre os defeitos iguais. 


Ela respondeu, relembrando o passado disse:

Eu lembro como se fosse hoje. Como num romance você, o homem dos meus sonhos, me apareceu no dancing. Era mais um.

Só que num relance, seus olhos me chuparam feito um zoom.

Me comia com aqueles olhos de comer fotografia. Eu disse cheese.
E de close em close fui perdendo a pose, até sorrir, feliz.

Você voltou me ofereceu um drinque. Me chamou de anjo azul.
Minha visão foi desde então foi ficando flou.
Como no cinema, você me mandava às vezes, uma rosa e um poema.
Eu, feito uma gema, fui me desmilinguindo toda ao som do blues.

Abusou do scotch, disse que meu corpo era só teu aquela noite. Eu disse please!
De xale no decote, disparei com as faces rubras e febris.

Você voltou no derradeiro show, com dez poemas e um buquê. Eu disse adeus, Já vou com os meus numa turnê.

Como amar esposa, você disse que agora só me amava como esposa, não como star.
Me amassou as rosas, me queimou as fotos, me beijou no altar.

Nunca mais romance, nunca mais cinema, nunca mais drinque no dancing, nunca mais cheese. Nunca uma espelunca. Uma rosa nunca, nunca mais feliz.


Ele, arrependido, dizia:

E eu!
Tive pra mim: agora sim eu vivia enfim o grande amor. Mentira!
Me atirei assim de trampolim fui até o fim um amador.
Passava um verão a água e pão, dava o meu quinhão pro meu grande amor. Mentira!
Eu botava a mão no fogo então com meu coração de fiador.

Fui muito fiel, comprei anel, botei no papel o grande amor. Mentira!
Reservei hotel, sarapatel e lua-de-mel em Salvador.
Fui rezar na Sé pra São José, que eu levava fé no grande amor. Mentira!
Fiz promessa até pra Oxumaré de subir a pé o Redentor.

Ela, já desesperada, suplicava:

Meu amor, pense em mim.
Você tem um jeito manso que é só seu. Me deixa louca quando me beija a boca. A minha pele toda fica arrepiada quando me beija com calma e fundo, até minh'alma se sentir beijada.
Rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos com tantos segredos lindos e indecentes.
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo e me crava os dentes.

Você me deixar maluca quando me roça a nuca e quase me machuca com a barba malfeita.
O jeito de pousar as coxas entre as minhas coxas quando se deita.
O jeito de me fazer rodeios, de me beijar os seios, me beijar o ventre e me deixar em brasa.
Desfruta agora do meu corpo como se o meu corpo fosse a sua casa.
Eu sou sua menina e você é o meu rapaz. Meu corpo é testemunha do bem que você me faz.

Ele, firme na decisão, era conciso:

Não!
Já lhe dei meu corpo, minha alegria. Já estanquei meu sangue quando fervia.
Olha a voz que me resta! Olha a veia que salta! Olha a gota que falta pro desfecho da festa!
Por favor, deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa.

Quando você chora não sei se é dos olhos para fora, não sei do que ri.
Eu não sei se você agora está fora de si, ou se é o estilo de uma grande dama.
Não sei se está mesmo aqui, quando se joga na minha cama.
Deixe em paz meu coração que ele é um pote até aqui de mágoa.
Te falei, qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d'água.

Quando você mente não sei se deveras sente o que mente para mim.
Serei eu meramente mais um personagem efêmero da sua trama sem fim?

Quando você, vestida de preto, dá-me um beijo seco, prevejo meu fim.
E a cada vez que o perdão me clama, se joga na cama, mas nem sei se estais aqui.

Eu não sei se você sabe o que fez, quando fez o meu peito querer cantar outra vez.
Quando jura, não sei por que Deus você jura, que tem coração.
Te repeti, diversas vezes, qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d'água.
E você não deixou em paz meu coração e ele hoje é um pote até aqui de mágoa.

Ela, já chorando:

Quando você me deixou pela primeira vez, meu bem, olhaste bem nos olhos meus.
Me disse pra ser feliz e passar bem. Teu olhar era de adeus.

Juro que não acreditei. Eu te estranhei.
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei. Me arrastei e te arranhei e me agarrei nos teus cabelos, no teu peito, nos teus pelos, teu pijama, nos teus pés ao pé da cama.

Sem carinho, sem coberta, no tapete atrás da porta, reclamei baixinho.
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci.
Mas depois, como era de costume, obedeci.

Agora vou maldizer o nosso lar. Sujar teu nome, te humilhar.

Ele, irredutível, afirmava:

Eu só lhe fizesse o bem. Talvez fosse um vício a mais, mas você me teria desprezo por fim.
Porém não fui tão imprudente e agora não há francamente motivo pra você me injuriar assim.

Dinheiro não lhe emprestei, favores nunca lhe fiz. Não alimentei o seu gênio ruim.
Você nada está me devendo, por isso, meu bem, não entendo, porque anda agora falando de mim?
Você levou meu sorriso no seu sorriso. Meu assunto. Levou junto ele com o que me é de direito.
Arrancou-me do peito. E tem mais, levou seu retrato, seu trapo, seu prato. Que papel!
Uma imagem de são Francisco e um bom disco de Noel.

Você matou nosso amor. De vingança, nem herança deixou.
Não levou um tostão, porque não tinha não. Mas causou perdas e danos.
Levou os meus planos; meus pobres enganos; os meus vinte anos; o meu coração.
E além de tudo, me deixou mudo, um violão.
Você faz cinema, você é assim.
Porém eu sei viver sem. E fim.

Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim. Não me valeu. Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim? O resto é seu.

Trocando em miúdos, pode guardar as sobras de tudo que chamamos de lar.
As sombras de tudo que fomos nós. As marcas de amor nos nossos lençóis.
As nossas melhores lembranças. Aquela esperança de tudo se ajeitar.

Pode esquecer aquela aliança, você pode até empenhar, ou derreter.
Mas devo dizer que não vou lhe dar o enorme prazer de me ver chorar.

Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago: meu peito tão dilacerado.
Aliás, aceite uma ajuda do seu futuro amor pro aluguel.

Mas me devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu.
Amanhã eu bato o portão sem fazer alarde e levo a carteira de identidade. Uma saideira, certa saudade.
E a leve impressão de que já vou tarde.

Ela, com raiva e decidida, então sentenciou:

Quando você me quiser rever, já vai me encontrar refeita, pode crer.
Olhos nos olhos, quero ver o que você faz. Ao sentir que sem você eu passo bem demais.
E que venho até remoçando. Me pego cantando sem mais nem por que. E tantas águas rolaram. Quantos homens me amaram bem mais e melhor que você.
Quando talvez precisar de mim, ‘cê sabe que a casa do Bonfim é sempre sua, venha sim. Seus olhos nos meus olhos, quero ver o que você diz. Quero ver como suporta me ver tão feliz.

Vou vingar a qualquer preço. Te adorando pelo avesso...

Pra mostrar que inda sou tua...

Só pra provar que inda sou tua...


Desvanescendo-sem em mágoas às lágrimas...

No outro dia, Francis veio conversar comigo. Inconsolável, conversamos:

Se ela ainda tem seu endereço, ou se lembra de você, confesso que não perguntei.
Mas se você quer mesmo saber por que que ela ficou comigo, eu digo que não sei.

Ah! As nossas noites eram feito oração na catedral. Não cuidamos do mundo um segundo sequer. Que noites de alucinação passei dentro daquela mulher. Com outros homens, ela só me diz que sempre se exibiu e até fingiu sentir prazer. Mas nunca soube antes de mim que o amor ia longe assim.

Não foi você quem quis saber?

Ando com minha cabeça já pelas tabelas. Claro que ninguém se importa com minha aflição.
Será que Cristina volta? Será que fica por lá?
Será que ela não se importa de bater na porta pra te consolar?

Noite e dia me pergunto, meu assunto é perguntar.
Esses dias, quando vi todo mundo na rua de blusa amarela, eu achei que era ela puxando o cordão.

É tanta saudade, é pra matar! Eu fico até doente!
Se eu não mato a saudade...
...É, deixa estar, saudade mata a gente.

Danço de blusa amarela, pois minha cabeça talvez faça as pazes assim.
Quando ouvi a cidade de noite batendo as panelas, eu pensei que era ela voltando prá mim.

Será que Cristina volta?
Sei lá se ela quer voltar?
Será que Cristina volta.
Será que fica por lá?

Minha cabeça de noite batendo panelas provavelmente não deixa a cidade dormir.
Quando vi um bocado de gente descendo as favelas, eu achei que era o povo que vinha pedir a cabeça de um homem que olhava as favelas.

Quando vi a galera aplaudindo de pé as tabelas, eu jurei que era ela que vinha chegando com minha cabeça já pelas tabelas.

Imagina sua cabeça rolando no Maracanã?

Cheio de saudades suas procuro nas ruas quem saiba informar. Uns sorrindo fazem pouco, outros me tomam por louco. Outros passam tão depressa que não podem me escutar

Será que Cristina volta, será que ela vai gostar?
Será que nas horas mais frias das noites vazias não pensa em voltar?
Será que vem ansiosa, será que vem devagar?

Mas, claro que ninguém se importa.

Quis saber o que é o desejo, de onde ele vem. Fui até o centro da Terra e é mais além. Procurei uma saída e amor não tem. Estou ficando louco, louco de querer bem.
Quis chegar até o limite de uma paixão. Baldear o oceano com a minha mão.
Encontrar o sal da vida e a solidão. Esgotar o apetite, todo o apetite do coracão
Mas voltou a saudade. É pra ficar, aí eu encarei de frente.

Se você ficar na saudade, é deixa estar. Saudade engole a gente.


Depois conversei com ela, que me disse assim:

Quando o Francis querer me vir, estou certa que há de vir atrás. Há de me seguir por todos, todos, todos, todos os umbrais.

E quando o seu bem querer mentir que não vai haver adeus jamais.
Há de responder com juras, juras, juras, juras imorais.


E quando ele querer sentir que o amor é coisa tão fugaz, há de me abraçar com a garra. A garra, a garra, a garra dos mortais.

E quando o seu bem querer pedir pra você ficar um pouco mais, há que te afagar com calma. A calma, a calma, a calma dos casais.


E quando o meu bem querer ouvir o meu coração bater demais, há de me rasgar com a fúria. A fúria, a fúria, a fúria assim dos animais.

E quando o seu bem querer dormir, tome conta que ele sonhe em paz, como alguém que lhe apagasse a luz, vedasse a porta e abrisse o gás.

Continua...

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

No cais de São Brás

No Cais de São Brás




Ela despediu-se de seu amor, que em um barco partia
No cais de São Brás, onde ele jurou que voltaria
E encharcada em prato ela jurou que esperaria


Mais de mil luas se passaram
E ela estava sempre no cais... esperando


Muitas tardes se passaram
Passaram-se em seu cabelo e seus lábios


Vestia o mesmo vestido, pois se ele voltasse não iria se enganar
Os caranguejos a mordiam, sua roupa, sua tristeza e sua ilusão


E o tempo se escorreu, e seus olhos se encheram de amanheceres
Pelo mar se apaixonou e seu corpo se enraizou no cais.


Sozinha no esquecimento, com seu espírito
Sozinha, com seu amor em mar, no cais de São Brás


Seu cabelo se branqueou, mas nenhum barco seu amor a devolvia
E todos a chamavam de louca, a louca do cais de São Brás


Em uma tarde tentaram levá-la a um manicômio
Mas ninguém podia arrancá-la
Do mar jamais a separaram


Sozinha no esquecimento, com seu espírito
Sozinha, com seu amor em mar, no cais de São Brás
Quedou-se sozinha até o fim
Com o sol e com o mar, ficou nesse lugar
Sozinha no cais de São Brás




Tradução meia-boca feita por mim para música “El Muelle de Sá Blás”, de Monchy e Alexandra, interpretada por Maná.