quarta-feira, 6 de março de 2013
domingo, 20 de janeiro de 2013
A Remissão
Gilberto era filho de
agricultores e tinha três anos quando seu pai, homem rude e de poucas frases,
levou a família inteira para tentar a vida na cidade grande. O pai de Gilberto
começou fazendo alguns biscates de pedreiro, um ou outro serviço de elétrica,
eventualmente algum trabalho mais complexo. Porém, os anos se passaram, o pai
de Gilberto ficou velho, e com os anos escassearam os bicos. Ainda não adaptado
à vida moderna da cidade, sentindo-se fora do seu contexto, por sua decisão,
acabou fazendo a família inteira passar fome e frio. No dia em que Gilberto
completou oito anos, seu pai se suicidou no banheiro, usando sua velha arma
enferrujada que trouxera do campo. O tiro seco, que Betinho pensou ser um rojão
por seu aniversário, mudou a vida dele e de sua família pra sempre.
Embora sua história tenha sido
trágica, os traços da personalidade avessa de Gilberto já eram visíveis desde
sua infância no campo. Todos já notavam como ele não sentia remorso, como
parecia gelado e distante. Não demonstrava sentimentos. Embora seu pai fosse um
homem de poucas palavras, Betinho tinha um olhar muito mais remoto. Na época de
colégio, quando era flagrado afogando pequenos animais na privada, limitava-se
a expressar um sorriso no canto da boca. Tanto eram fortes os indícios da
psicopatia de Gilberto que sua mãe era a única que não lhe chamava de “Betinho”,
como era de se esperar uma mãe chamar um Gilberto inda criança.
Cresceu e nada de mudar. Na
adolescência, criado pela cidade suburbana, cada vez mais desabrido, andava
sempre com os “barras pesada”. Era o pior do bando. Fumava desde os 13, e,
sempre que podia, praticava alguma maldade a outra pessoa. Roubou diversas
vezes. De ricos a pobres. Furtava discos, revistas, quinquilharias de toda
espécie, apenas por prazer ou pela adrenalina. Algumas vezes meteu-se a pichar
muros, escrevendo seu apelido, “Manson”, alcunha essa nada distante do que
realmente era a personalidade do rapaz. Alguns mendigos o conheciam pela sua
truculência, violência e rebeldia. Depois que sua mãe morreu de câncer de
pulmão, quando não estava preso por algum delito, dormia em albergues ou
debaixo de alguma ponte fétida.
Constituiu família, depois
de conseguir um ou dois empregos informais. Ébrio habitual espancava
eventualmente a esposa e os filhos. Bebia cada dia mais. Estava numa estrada
sem retorno para o inferno. Traições, surras, bebedeiras, xingamentos,
demissões, prisões; essa era a sua rotina e de sua família. Todos sabiam que
esse homem havia sido molestado pelo padrasto, depois que seu pai deu cabo da
própria vida. Mas, mesmo entendendo a revolta, ninguém o suportava mais.
Num dia comum, um dos únicos
que estivesse totalmente sóbrio, talvez o dia mais lúcido desde que nascera, Gilberto,
andando com suas botas de couro velho pelas ruas do centro da cidade,
observando tudo e todos a sua volta, percebeu uma situação estranha. Atravessou
a Avenida Ipiranga e, com os olhos, acompanhou uma senhora de cadeira de rodas
que atravessava contra ele. Repentinamente, tentando subir no cordão da calçada
à esquerda da rua, que era muito alto, essa senhora, inclinando seu corpo para
trás, virou a cadeira e caiu com o corpo quase que totalmente no meio da rua
que atravessara. Ao observar isso, Gilberto virou o rosto e olhou
instintivamente para o fluxo da rua, percebendo um carro se aproximava muito
rapidamente em direção à mulher. Na certa esmagaria por completo seu frágil
corpo. Nesse comenos, que durou quase três segundos, Gilberto correu em direção
à mulher, pondo-se a frente do motorista que, logo ao perceber o que se passava,
frenou decididamente, derrapou para o lado direito acertando em cheio as pernas
de Gilberto, que, com o impacto, foi arremessado há 7 metros. Caiu feito pacote
flácido no asfalto e rolou mais uns 3 metros .
Gilberto morreu na hora.
Quebrou seu pescoço quando rolou desajeitado pelo chão, com muitas escoriações
e diversas fraturas no crânio. Havia uma auréola de sangue em volta de sua
cabeça. O motorista conseguiu parar o carro logo depois do choque, antes de
causar maiores danos à incolumidade do público que, naquele momento, quedava-se
inerte e silente, como se o tempo tivesse parado naquele átimo. A mulher, com a
ajuda de outros transeuntes, sentou-se em sua cadeira, após ter assistido
deitada a toda aquela cena hollywoodiana. Olhou para aquele corpo
estendido e saiu, retornando a seu destino, até então interrompido pelo tombo.
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
O Mimimi sobre o BBB
![]() |
| Ariadna, ex-BBB (a foto não foi escolhida por acaso) |
Sobre o BBB, que está recomeçando
hoje, sabemos que, com as postagens no Facebook sobre o programa - como se todos, além de meteorologistas, fossem contratados pelo site EGO -, choverão críticas. Acredito que o exemplo delas vale
pra bastante coisa na vida.
Vejamos. O BBB é um programa para
maiores de idade. O que é feito lá é com o consentimento dos participantes. Ainda
que sejam obrigados por contrato a fazer ou dizer certas coisas, o máximo que
podem transgredir são as cláusulas contratuais, nada contra sua liberdade
individual ou que tenha feito sob coação. O mesmo pode se dizer de quem
assiste. O telespectador não é obrigado a ver, votar ou acompanhar. Embora tudo
na Globo, e até em outros canais, seja vinculado de alguma forma ao programa, é
de livre escolha de quem está na frente da televisão ver ou não. É o poder do
botão vermelho do controle remoto. Sem entrar no mérito da qualidade do
programa, se é de bom ou mau gosto, se é imoral e contra os bons costumes ou
reflete a realidade da vontade de cada um, se o Bial é ou não um asno que chama
os participantes injustamente de heróis, e desconsiderando a curiosidade
antropológica da trama – que já se exauriu na segunda edição -, o programa está
aí e não vai ser alguns milhares de compartilhamentos dessa rede social que vai
mudar isso. Nem xingar muito no Twitter.
Acho bem difícil que alguém não
tenha visto e acompanhado ao menos uma edição do BBB, que sejam as primeiras. Bater
de frente com BBB é como gritar pra uma parede que a cor dela é feia.
Nossa liberdade é vilipendiada
diariamente da mesma forma com que os críticos maldizem à série. Se uma pessoa
acha errado que você tenha tatuagem, use alargador na orelha, se vista como uma
pessoa do outro sexo, tenha outra orientação sexual diferente ou que divirja da
opinião dela em qualquer outra coisa, trata logo de dar o diagnóstico da sua
diferença, dizendo ser a dela uma verdade melhor que a sua.
Finalizando, quer ver, veja; quer
ler, leia; quer correr pelado na rua, seja um preso feliz. Só não tente impor
aos outros suas próprias convicções. Use o bom senso e tente argumentar sem dar
um tiro no próprio pé e sair parecendo o idiota que você quis fazer com que o
outro parecesse.
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sábado, 17 de novembro de 2012
My Way
Todos os pelos de Arnaldo se arrepiaram
quando, do radinho da cozinha, surgiu a voz grave de Elvis nos primeiros
acordes de My Way. Debruçado com a cabeça na mão cujo braço lhe servia de
alicerce em cima da mesa em que olhava para uma xícara de café frio, Arnaldo
acorda de um sonho que parecia durar décadas. Um sonho cinza. Um misto de
lembrança com um frio inédito na espinha tomou conta da memória de Arnaldo,
remetendo-o a um momento em que sua vida era muito mais colorida. Rosalinda,
sua mulher, que preparava o jantar na cozinha e nem dava bola para música a
tocar no radinho, surpreendeu-se quando viu parado na soleira da porta um
Arnaldo que há anos não via mais. Ele estava sorridente, com uma alegria verdadeira,
um semblante leve, diferente do seu jeito de sempre estar.
“I faced it all and I stood tall. And did it my way”... Rosalinda abre a boca
para dizer qualquer coisa quando é interrompida pelo marido, que de súbito põe
o dedo indicador sobre seus lábios, pega sua cintura, cola a testa na dela e,
balançando, a convida para dançar. Ela solta o corpo há anos tenso sobre os
braços dele, como há muito tempo não ousava dar. E ele, enrijecido pelos anos
como os calos que surgiram em suas mãos, tem um olhar cheio de ternura e graça
que cheira a guardado de tão obsoleto. De tanto ele maldizer a vida ela já nem
sonhava mais, mas sua carne tesa, já macilenta pela falta de calor no sangue, retornou-se
jovem e se enrubesceu. Então enfim ela ouviu a música, e se lembrou do tempo que
havia no sorriso de Arnaldo. Um tempo que só quem viveu recorda em tais tonalidades. O calor
dos braços aumentava a cada subida do timbre grave de Elvis, até que soam os
metais e ela começa a girar desatada.
De mãos dadas, saíram os dois pela rua
rodando, dançando a música que só eles escutavam. À luz da praça, sob o véu da lua,
dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou. Foi tão grande a
felicidade que a cidade inteira se iluminou. Deram tantos beijos loucos, tantos
risos roucos, como não se ouvia mais. E o mundo compreendeu. E o dia amanheceu
em paz.
Baseada na música "Valsinha", do Chico Buarque com Vinicius de Moraes e título e trecho da "My Way", interpretada por Elvis Presley.
Baseada na música "Valsinha", do Chico Buarque com Vinicius de Moraes e título e trecho da "My Way", interpretada por Elvis Presley.
Elvis Presley Live - My Way
http://www.youtube.com/watch?v=2e3CFIHCe8MValsinha - Chico Buarque
https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=6u4FK_Z5298
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segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Lentes, Esquizofrenia e Mensalão.
Acredito
que muita gente já assistiu algum filme com tecnologia 3D, com aqueles óculos que
faz as imagens saírem das telas para quase nos tocar.
Se
você colocar óculos de lentes azuis, por exemplo, verá tudo a sua volta também
ficar em vários tons de azul.
Nos dois exemplos, vemos
como coisas exteriores aos nossos sentidos podem determinar a maneira como
percebemos a realidade. Tudo que vemos faz parte do que está fora de nós; mas o
modo como enxergamos também é determinado pelas “lentes dos óculos”.
Entretanto, não podemos dizer que o mundo a nossa volta é azul por causa dos
óculos, ou que a imagem do filme é realmente tangível pela tecnologia das
câmeras.
Tiramos primeiras -
segundas, terceiras - impressões das coisas, até mesmo as que testemunhamos.
Isso porque a razão trata de impor significado àquilo que os sentidos
determinam ao cérebro, e essa definição passa pelo que acreditamos que deve ser.
E é justamente por isso que nossa razão e nossos sentidos são falhos! Nós não
somos placas que registram tudo imparcialmente.
Daí vem nossa virada de
Copérnico, e percebemos que, na verdade, é a Terra que gira em torno do sol, e
não o contrário.
Nunca saberemos ao certo,
com 100% de certeza, como as coisas “são em si”, apenas como elas “se mostram”
para nós. Usamos sempre nossos óculos de realidade aumentada e adequada (e, às
vezes colorida), e é inevitável não tomar partido.
Todo esse exemplo vale para
o caso da recente e crescente onda de louvar e tornar herói o “algoz dos
mensaleiros”, o douto ministro do STF Joaquim Barbosa. Ao invés de usar lentes
que aumentam nossa visão crítica, colocamos as lentes coloridas, que atrapalham
o sentido das coisas em si, e interpretamos as coisas como queremos ver. Muitos
taxaram o ministro como herói, desconhecendo que ele também é, em parte, o
grande vilão por essas mesmas lentes.
Sim, é herói e vilão ao
mesmo tempo. É Batman e Coringa, gato e rato, contra e a favor de “mensaleiro”.
Recentes declarações do ministro nos mostram que ele votou no Lula, desde as
eleições contra o Collor, votou na Dilma e é contra a pressão midiática que se
fez contra o “Mensalão petista”. Além disso, disse que no Brasil há muito
racismo, que o empresariado é branco e conservador (justamente quem lhe chama
de herói). Declarou que a mídia empurrou a Ação 470 para o foco como “maior
esquema de corrupção do país”, esquecendo-se de outros não tão importantes (aos
patrocinadores), mas tão grandes quanto.
As lentes coloridas, sejam
vermelhas ou azuis, deturpam certos fatos, atos e conceitos, adaptando e,
muitas vezes, afastando da razão o que é captado pelos sentidos. No mesmo
sentido da metáfora da realidade que é filtrada pelos óculos, temos também
algumas doenças psicológicas, que criam fantasias na mente de alguns indivíduos.
Esquizofrenia é uma delas. Para os esquizofrênicos, a realidade é diferente, a agudeza
das coisas vem desviada por algum lugar do cérebro que insiste em transformar o
visto com o imaginado.
Isso acontece a algumas
pessoas sãs também. Elas vão além das lentes. Usam os óculos coloridos ou em 3D
e são esquizofrênicas. Pegam um fato - um acontecimento, uma informação
superficial -, filtram pelo seu senso viciado de realidade, modelam de acordo com
sua imaginação, daí saem lutando contra moinhos de vento.
E pra esses não adianta
falar que a Terra é só mais um pedaço de pedra que gira em torno do Sol; eles
tentarão te queimar numa fogueira!
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sábado, 7 de julho de 2012
Bullying, Vitimização e a Influência Norte-Americana na nossa Juventude
Imagine a cena: um adolescente desengonçado - espinha na cara, óculos de grau, sem muita vida social e particular interesse em computadores -, o famoso
loser, se apaixona à primeira vista pela garota mais
popular da escola - normalmente uma loira, olhos claros, líder de torcida, geralmente fútil e que o despreza profundamente -, que namora o bonitão e musculoso - esportista, popular entre as outras garotas e que vai ganhar uma bolsa de
estudos por ser o melhor do esporte popular que pratica. O loser, ou o destino do roteiro, consegue um jeito de se aproximar da gostosa por causa das más notas da garota fútil, dando aulas de reforço. O gostosão popular não
gosta, então passa a humilhar o nerd/geek/loser de várias maneiras ao longo da trama. Esse é o enredo de 90% dos filmes do cinema hollywoodiano
voltados para os adolescentes.
Muitos já perceberam que
nossa juventude atual não consegue lidar com certas situações de pressão, seja
na escola, na família ou no trabalho. Geralmente, quando uma pessoa mais
“forte” (física, hierárquica ou psicologicamente) coage um jovem pratica certo tipo de
“crime” ou atitude reprovável, algo que deve ser reprimido. É o chamado bullying. Por prepotência, problemas
familiares ou pura demonstração de força, muitos jovens rebaixam colegas,
principalmente os que são visivelmente mais “fracos”. O problema é que, quanto
mais os “fracos” se fragilizam, mais os prevalecidos se fortalecem.
Essa onda de agressões
físicas e psicológicas parece ser algo novo pra nós, um desafio a ser
enfrentado pelos pais e educadores. Antigamente, apesar de também existir esse
tipo de violência, as “vítimas” não tinham tanta tendência ao suicídio,
homicídio, chacina ou à depressão. Ou pelo menos não em maior número e maiores
tragédias.
Aqui pelo Brasil, acho que
isso é causado pela soma de alguns fatores. Li esses dias um post interessante
que falava sobre a maneira como os jovens e adolescentes de hoje são mais suscetíveis
à depressão por bullying. Dizia o
autor que responsável por essa onda de vitimização é a mudança de fórmula no
Merthiolate, que agora não arde mais. Bom, tirei uma conclusão um pouco
diferente, apesar de a metáfora ser ótima.
Há décadas estamos sendo
bombardeados por uma influência grande da mídia norte-americana na nossa
televisão e cinema. São filmes, séries, canais de TV a cabo, além de uma grande
dominação linguística, neologismos, anglologismos e etc. É uma conhecida
fórmula de colonização através da cultura e da língua, pois, desde os gregos, o
idioma e os hábitos dos “mais civilizados” sempre foram uma boa forma de unir
colônias e povos “inferiores” ao Império, torná-los bons selvagens, servos pela
sedução, quando não pela coerção.
A questão é que nossa
televisão aberta passa apenas filmes
de procedência americana. No máximo, alguma produção cinematográfica
estrangeira premiada em Hollywood que passa na nossa programação televisiva por
consentimento das grandes mídias. Portanto, com o passar das décadas, absorvemos
a cultura norte-americana, tornamos ela um referencial. Passou a se buscar uma correspondência
à personalidade “superior” dos estadunidenses, sendo eles “mais civilizados” e
evoluídos que nós (segundo um americano aí, enquanto eles brincavam com novas
tecnologias, nós brasileiros brincávamos na lama, daí os bons jogadores de futebol). Não faltam exemplos de como
é a visão dos norte-americanos sobre nós, nem de como exaltamos a cultura
deles, em detrimento da nossa.
As produções de cinema da
nossa televisão mostram a importância da imagem individual dos atores sociais
no padrão norte-americano, aquilo que eles têm de ser para os outros: populares, superiores, competitivos, mormente para o ambiente da escola, num
primeiro contato com a vida social, fora do núcleo familiar tradicional e do âmbito dos amigos próximos.
Assim como eles, nossos atos
têm se resumido a uma caça pela correspondência desse modelo de estrutura
social. No caso em comento, nos colégios, os valentões e os oprimidos agem de
acordo com o que veem nos filmes americanos, seja no âmbito psicológico
particular, seja nas tragédias.
Por óbvio, os filmes
americanos só retratam (e talvez abusem da fórmula) a realidade existente por
lá, em que alunos que sofreram humilhações públicas invadem escolas com
metralhadoras para matar seus colegas “malvados”, se suicidam, ou, na melhor
das hipóteses, se entopem de remédios. Lá existe uma cultura bélica muito
forte, porquanto é uma nação que, desde sua independência, passou poucos anos
sem uma boa guerra. Desse modo, nossas influências acabaram por demonstrar que
estamos absorvendo essa cultura imperialista norte-americana de uma maneira
muito mais forte do que se pensa.
É patente a influência dos
padrões norte-americanos nos jovens das últimas gerações, tanto que muitos se
identificam com “Glee” e outros tantos filmes e séries de cunho moral, que se
iniciam basicamente na década de 80. De 1950 a 1979 os jovens e a cultura de lá
eram um pouco diferentes.
Muitos se sentem subjugados
pelos “valentões”, ao ponto de exigirem uma vingança em igual proporção, ou
muito maior ao agravo, por questões psicológicas. É o caso do assassino do
Realengo, que descobriu-se ter sofrido bullying
no colégio.
Existem também aqueles que não consegue lidar com a situação de humilhação no seu meio social, e, por não terem contato íntimo com os pais, familiares ou educadores (leia-se instrutores), acabam ficando sem ter a quem recorrer; apelam comumente às drogas, à criminalidade, à depressão e/ou suicídio, como uma forma de autodestruição, autoflagelação e eliminação do sofrimento. Sentem-se, em parte, culpado pela própria fragilidade e pela violência que sofrem.
Isso deve-se a uma vitimização, uma fragilidade excessiva na personalidade das pessoas. E não só nos jovens; tudo vira ameaça, ofensa, dano moral, assédio. Ninguém mais pode pedir uma sopa nova num restaurante por causa de uma mosca que caiu lá acidentalmente, querem enriquecer alegando que nunca mais vão tomar sopa em razão do infortúnio. Não há mais bom senso, razoabilidade.
É por causa disso que os consultórios de psicólogos e psiquiatras estão lotados de pessoas que apenas não sabem lidar com a vida, com a realidade, que necessitam amorfinar-se, desligar-se do sofrimento. Acham a realidade dura demais, o sofrimento algo a ser evitado ao extremo, em prejuízo da saúde mental. Um mundo que antes era cor-de-rosa e agora ficou preto e branco, e dá-lhe remédio pra maquiar a dor e o pesar. As pessoas não são estimuladas a viver e conviver com o sofrimento. "Toma um remedinho tarja preta que passa". E com isso os médicos inescrupulosos financiados pela indústria farmacêutica vão lucrando bilhões, mantendo as pessoas sedadas e inertes à própria dor.
O sofrimento é necessário, o
luto é fundamental, a dor ensina, já diriam os clichês.
Boa parte desse sentimento
de fragilidade provém dessa cultura vazia do culto à imagem, propalada principalmente
pelos norte-americanos e que nos chegam pelos filmes. Estão construindo uma
geração de “mariquinhas” (estou falando de vítimas, não de homossexuais), gente
tão preocupada com a própria imagem que é capaz de agredir, humilhar, assim
como, pela humilhação sofrida, exigir vinganças cinematográficas e banhos de sangue.
É a influência da cultura
norte-americana, a importância da própria imagem que eles fizeram o favor
de propagar - e nossa mídia fez o desfavor de reproduzir. Se lá estão
construindo uma cultura para vender antidepressivo e tarjas-pretas - inclusive
a crianças e adolescentes - é questão pra outro tópico. Mas que estamos cheios
de “mimimis” e ficando “dodóis” por pouca coisa, isso sim, estamos. E muito! É nos
jovens que isso pode cessar.
Por isso, diga não ao
bullying, não seja uma vítima. Ignore! Se há agressão física, denuncie. Polícia
serve pra isso. Autoridades servem pra isso. A justiça é um meio, quando há grave dano. Mas não algo suportável.
Se aconteceu alguma coisa passível de "dano moral", pense mesmo se é um dano, se afeta mesmo seu sistema psicológico. Tem coisas que acontecem por engano, por erro, por descuido, e que podem ser coibidas com uma simples advertência.
Se você sofre assédio moral no trabalho, denuncie, mas não se abale. Ou quem pratica é um babaca, ou você não tem aptidão pro que tá fazendo e pode procurar um emprego que melhor se adapte às suas habilidades e possibilidades. Às vezes as pessoas têm razão, e somos mesmo peixe no aquário errado.
A vida é dura, ninguém disse que seria fácil.
A evolução se dá não nos que
apenas sobrevivem, mas nos que melhor se adaptam às adversidades.
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quarta-feira, 16 de maio de 2012
A Dança do Silêncio

Foi estranho vê-la assim tão
de repente, depois de tantos anos, entre pessoas conhecidas e rostos estranhos.
Sua face se iluminava pela fogueira acesa na areia. Ainda era linda, alguns
anos mais velha, mas como se fosse a mesma, só que vestindo uma roupa antiga.
Seu corpo balançava como as ondas do mar com o ritmo da música do violeiro,
aquele sorriso tímido seguindo com os lábios a letra de Redemption Song.
Encontrá-la num luau à beira do mar foi realmente muito estranho e inesperado.
Fiquei por alguns minutos de
pé, do outro lado da fogueira, fitando seu rosto, que escurecia e se iluminava
pelo roçar do vento na fogueira, até que uma amiga do seu lado lhe falou algo
no ouvido e ela me olhou. Quando seus olhares me alcançaram, a boca parou de cantarolar,
quedou-se pálida e semicerrada, com a língua entre os dentes, sussurrou meu
nome e pude notar uma lágrima contida no canto do seu olho esquerdo. Talvez não
pudesse crer em tamanho acaso, assim como eu.
O violeiro, seguido de um
acordeonista, iniciou Mondo Bongo, do Joe Stummer, que era, para coroar a
coincidência, a nossa música, minha e dela. Ela agora já nem sabia mais o que
fazer, de tão nervosa. Decidida, passou a mão naqueles negros cabelos longos,
colocando-os atrás da orelha, levantou e, ainda me olhando, veio em minha
direção. Trajava uma leve saia branca que ia da cintura até os pés descalços, e
uma blusa azul turquesa deixando quase aparecer pouco do peito. Atravessou a
fogueira e estacionou a um palmo do meu rosto. Com minha mão direita peguei na
sua esquerda, que pendia suada e trêmula, deitei o rosto sobre seus ombros,
sentindo aquele mesmo perfume de outrora, ergui a cabeça e acenei para trás,
indicando minha vontade de dançar um pouco, longe dali. Segurei com minha mão
esquerda a sua cintura, dei um passo para trás e começamos a dançar.
Enquanto rodávamos, ela me
olhava como se eu fosse um desconhecido, um estranho e misterioso homem que lhe
encantara repentinamente. De tanto girar, nos distanciamos da fogueira,
sentindo a areia gelada nos pés descalços. A música ia entrando no ritmo dos
nossos corpos, já velhos conhecidos. A lua agora era nossa única testemunha,
pois as pessoas pareciam não mais estar ali, só a música, a areia, e eu e ela a
dançar.
“Latino caribo, mondo bongo, the flower looks good in
your hair. Latino caribo, mondo bongo, nobody said it was fair, oh”. Girei-a e agarrei por trás, comprimindo seu corpo no meu. Ela lançou uma risada de
liberdade, afastou-se, virou e me olhou nos olhos, com o vestígio do riso na boca. Mordeu o lábio, balançou a cintura de um lado para o outro, colocou o
pé esquerdo no joelho direito e caiu sobre mim. Aparei sua queda, ficando meio
palmo de boca a boca. A levantei com a brandura da música, cravei minhas
digitais na sua cintura e, aproximando minha boca da sua suavemente, senti o
que há tempos não sentia: a fragrância adolescente, uma felicidade estranha.
Aquela boca era bem mais que
uma boca. Aquele beijo significava muito mais que um simples roçar de lábios. A
música acabou, o fogo apagou, o mundo calou, a boca esfriou, a lágrima secou, e
o mundo inteiro voltou a rodar. Abri os olhos e me deparei com o rosto dela,
pálido e indiferente.
Ela desviou o olhar, olhou
para o chão, olhou para as pessoas indo embora, virou-se, mexeu no cabelo e
partiu. Nem a lua nos espiava mais. Antes de sair da areia, olhou pela última vez para trás e
me viu ali, parado, como fiquei durante algumas horas, até que meus joelhos
cansaram e eu sentei. Sentei na areia gelada daquela noite fria, naquele vento
intenso daquela cena estranha. Olhei pras minhas mãos, que ainda conservavam o
calor do corpo dela, coloquei no meu rosto, passei os dedos nos meus lábios,
olhei para o mar e pude ver aquilo que talvez estivesse latente dentro de mim há tempos,
aquela verdade velada que me fazia sonhar com esse dia.
Eu sei que eu a amava, e
ainda amo. Ela também deve sentir o mesmo. É sempre amor, mesmo que mude. É
sempre amor, mesmo que acabe.
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segunda-feira, 16 de abril de 2012
Perfume de Pólvora
“Cadê o Geraldo, cadê o
Geraldo?”. Escuto meu nome ser proferido aos berros do lado de fora da minha
porta, mas não entendo por quê. Levanto e vou até à porta pra ver do que se
trata. Abro a porta, saio confuso e sinto algo gelado forçando minha têmpora
direita. Minha retina volta o foco, e na minha frente está minha secretária
ajoelhada e um homem de capuz preto na cara, que segura uma arma contra a nuca
dela. Ainda sem entender o que acontece, olho pra direita pra tentar achar a
coisa que incomoda minha cabeça: é outra arma, outro bandido de capuz preto na
cabeça. Ele diz "Ajoelha", e minhas pernas obedecem antes da cabeça
mandar. "Tu que é o Geraldo?", ele grita, e antes de eu responder,
Melissa de súbito aponta pra mim e diz "É ele!", delatando que sou o
gerente do banco e o único que pode dar o dinheiro que eles querem.
Tantos anos sendo minha
secretária e nunca pensei que ela me trairia desta forma. O verdugo que a
mantém genuflexa me olha e diz: "É ele", apertando em
seguida o gatilho da arma que estava sobre a cabeça de Melissa: BLAM! O
barulho seco do tiro abafado pelo crânio dela deixa o som das vozes
abafadas, por alguns segundos só escuto um zunido. A luz intensa que sai do cano da arma deixa
minha vista branca e o cheiro do sangue, da carne e da e pólvora me baixam a
pressão instantaneamente.
Como cheguei até aqui? Esta
é a vida que eu imaginei ter? Eu queria ser bombeiro. Era apaixonado por
caminhões de bombeiros e suas sirenes, me imaginava de farda, combatendo o
fogo. Sempre que brincava com meus amigos eu era quem salvava as vítimas. Depois
pretendi ser médico, salvar pessoas, me tornar pediatra - ou geriatra -, resolveria problemas graves. Abandonei a ideia no segundo semestre da
faculdade, mas foi lá que eu conheci meu primeiro e verdadeiro amor, Cíntia.
Ela era linda, tão tímida que encantava qualquer um. Fazia enfermagem, só que
sonhava mesmo em ser médica, pediatra ou geriatra. Foi aí que me apaixonei,
mesmo que desapaixonara da medicina. Acho que permutei as paixões. Saímos
algumas vezes até eu perceber que ela também estava apaixonada - apesar de eu
ter desperdiçado um sonho que era dela. Comecei a estudar administração, pois
ainda estava à deriva e não sabia bem o que iria fazer da vida após ter o sonho
interrompido pela desilusão. Comecei estagiando em bancos, e fui aprendendo com
meus amigos a praticar pequenos furtos. Me formei, fui efetivado em um
grande banco, mas, depois que Cíntia descobriu meus planos de fazer um golpe
grande, terminou nosso relacionamento e nunca mais nos vimos. Disse que não me
conhecia, que eu não era quem ela pensava ser, um altruísta, filantropo, alguém
ético e correto. Eu queria poder, dinheiro, posição, era e sempre fui
ambicioso. Ela nunca entenderia, por ser inocente e ingênua demais. Esse é um
mundo de Geraldos, não de Cíntias.
Por já ter certa posição no
banco e conseguir muito dinheiro desviando aposentadoria de velhinhos, casei
com a filha de um influente senador. Ele me promoveu a gerente do setor de
empréstimos da maior agência do banco no estado, o que me deu margem para
desviar grana grande. Foi uma maneira de o senador dar melhores condições de vida
à sua filha, indiretamente. Contudo, apesar de estar feliz com minha vida
financeira, nunca fui feliz com minha esposa arranjada. Ela também não deve ter
sido, pois foi praticamente forçada a casar-se comigo. Tivemos apenas um
filho, que parou de estudar quando foi para uma universidade na Holanda e agora
é um drug dealer na zona vermelha.
Se arrependimento matasse…
ou melhor, se arrependimento evitasse que a gente morresse como agora vai
acontecer comigo! Eu viveria outra vida. Aliás, eu voltaria a viver a vida
antes do primeiro desvio, antes do primeiro golpe, encontraria Cíntia e
tentaria mostrar o que estou sentido agora, no momento em que estou para
morrer. Diria que sinto novamente meu amor por ela, o quanto estive errado e
como minha vida foi de fato da forma como ela prognosticou naquele dia em que
nunca mais a vi.
Queria tanto não morrer
agora, como Melissa, que foi sumariamente descartada por não ser quem essa
gente procurava. É assim que um homem arrependido deve morrer, pelas mãos de
assassinos frios que só querem dinheiro?
Recobro minha vista com um
tapa na cara, e o sujeito me manda levantar. Querem que eu abra o cofre. Tento
dizer que não tenho a chave, mas eles mostram saber mais da minha vida que
minha própria esposa. Pego a chave codificada. Há cinco milhões de reais no
cofre do banco. Com esse dinheiro eu poderia dar uma vida de rainha pra Cíntia,
fazer dela a mulher mais feliz do mundo, pra que ela me fizesse o homem mais
realizado. Pagaria sua faculdade de medicina, se ela já não fosse médica, e ela
se tornaria geriatra, ou pediatra, e cuidaria de mim quando envelhecêssemos, e
teríamos dois filhos com os olhos dela, uma casa de campo na serra, uma
poltrona confortável à beira de uma lareira. Mas esse dinheiro agora não
poderia mais ser meu, nem do banco, nem dos verdadeiros donos, pois os homens
encapuzados (que conto por alto serem cinco, portanto um milhão para cada, o
que seria justo, uma vez que assaltam juntos o maior banco do estado, cujo
gerente é um dos homens mais sujos do país) agora vão levar sem nenhum esforço.
Enfio a chave trêmula, giro e estalo! Trinta e dois pra direita,
sessenta e cinco pra esquerda, estalo! Setenta pra direita, vinte e
quatro pra esquerda, estalo! Trinta e nove pra direita e, e, e... e
qual é a porra da última dezena? Cinquenta e cinco? Cinquenta e seis? "Vai
duma vez, caralho. Foda-se, vou explodir essa merda", diz o mais
impaciente deles. Ele olha pra mim com raiva, fecha o rosto. Reluz no vidro dos
seus olhos um brilho intenso: BLAM! O brilho é do fogo da arma que
ele apontava pra mim, e que agora empurra a mão dele contra seu corpo. O barulho
da explosão ecoa entre minhas orelhas, e sinto um doce perfume misturado à
pólvora e à fumaça: é o cheiro do sangue que me escorre pela face.
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quarta-feira, 7 de março de 2012
Aos Braços de Morfeu
Por Laura Carvalho
Um grito me despertou no
meio da madrugada. Acordei assustada: “De onde vem esse grito?” – pensei. Ainda
trôpega de sono, olhei pela janela: tudo em paz. Silêncio no quarto e na rua,
nenhum movimento a não ser meu peito descompassado. Confusa, voltei para a
cama, ainda com ecos daquele grito na mente. Quando consegui relaxar e estava
para ultrapassar aquela doce fronteira que separa o sonho da realidade,
encontrei a fonte do grito: era minha alma, que tão profundamente tocada, ao se
ver sozinha, clamara por quem a marcou.
Com olhar distante, ela me
indagou: “Por que fizeste isso? Como podes me expor a semelhante sublime
maldição? Eu, que sou tua essência, tua guia, teu ser. Agora me ofereces um
encontro apenas na fluidez das quimeras? E se quando acordares ele não estiver
lá? Vais sofrer e eu junto, com a lembrança de um sonho a escapar-te a medida
em que despertas”.
“Tola” – respondi-lhe. Acaso
não sabe que duas almas quando se tocam já não são dois elementos isolados, mas
duas partes de um todo único e indissolúvel? Ele vai estar comigo a cada sorriso que outros
enxergarem em meu olhar, a cada pensamento suspirado, a cada desejo contido até
o momento de nossos corpos se encontrarem novamente. E quando a saudade não
couber mais no peito, a ponto de extrapolar as barreiras, vou te enviar ao
encontro do nosso elemento perdido finalmente encontrado, aquela parte dele
que, de tão igual a ti, te causa tal abstinência insana apenas por estar
ausente”.
“Venha comigo, companheira”
– chamei, oferecendo-lhe minha mão – “adentremos as terras de Morfeu, onde a
distância não separa duas almas amantes”.
Olhando então para o espaço além dos portões que libertam as almas, ela me deu a mão, mas não sem antes fazer uma última pergunta: “E se ele não estiver lá?”. “Não se preocupe” – afirmei, já nos encaminhando para transpor a entrada – “ele vai estar lá!”.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
A Grande Contradição da Greve dos PMs na Bahia
Por Rafael Rivas
Existe uma grande
contradição nesta greve dos PMs da Bahia. Na verdade, existem algumas. A primeira,
se ela é legítima ou não. A segunda, se é legal ou não. A terceira, é sobre a cobertura
e opinião da mídia sobre o caso. A quarta, se deve se tratar esta reivindicação
como se tratam as outras, de menor potencial ofensivo. Por último, uma possível
solução.
Da
Legitimidade da Greve
A analise de se é ou não
legítima a greve deve iniciar pelo debate racional da medida adotada pelos
reivindicantes. Eles seguiram um caminho tomado por todos os manifestantes
grevistas? Inicialmente, se agruparam em associações de classe, reivindicaram
aumentos ao governo, pressionaram os políticos, mostraram que, sem seu
trabalho, a coisa ficaria um caos. De fato ficou! Até aí, tudo normal para uma
paralisação de serviço público.
A parte ilegítima dessa
greve consiste na utilidade da função exercida pelos policiais na sociedade. Assim
como na área da saúde, a paralisação da segurança pública traz consequências
imediatas e fatais, extremamente nocivas à vida da população.
Portanto, havendo ou não o
direito que eles reivindicam, paralisar totalmente um serviço fundamental à
vida é ilegítimo, imoral e extrapola o livre exercício da greve.
Da
Legalidade da Greve
O direito à greve deve ser
garantido pelo Estado. Até agora, nunca se legislou sobre a greve de
funcionários públicos, mas se utiliza por analogia a legislação trabalhista, ou
seja, dos celetistas. Há necessidade extrema de visibilidade e pressão ao
governo para melhorias do funcionalismo público, isso é patente.
Ocorre, entretanto, que o
movimento grevista dos PMs da Bahia extrapolou a legalidade de uma paralisação amparada
pela lei e pelo Estado. Os policiais não reivindicam desarmados, não invadiram
a Assembleia Legislativa como fariam professores, não estão lá como civis. Os PMs
que estão amotinados na Assembleia são homens armados, pessoas sem licença para
utilizar a arma de serviço para tais fins.
Logo, a greve dos PMs também
está na ilegalidade, pois a reivindicação é armada, é abusiva e viola os princípios
mais básicos de uma democracia.
O líder grevista, Marco Prisco Caldas Machado, sequer
está lotado no Corpo de Bombeiros, cargo do qual foi exonerado após uma
tentativa de assassinato do seu superior, em um levante semelhante ao presente em
2001.
Da
Mídia
A mídia tem noticiado o
caso, sem tentar pender para o lado político da greve, que é público e notório.
O líder da greve é filiado ao PSDB, oposição ao Governo baiano do PT. O PSDB
nunca foi dado a greves, só que neste caso está diretamente relacionado, ainda
que não tenha se manifestado públicamente como fez do DEM.
Estão falando das vítimas,
das consequências, dos calores da manifestação, do exército nas ruas, na
contenção dos manifestantes pelo exército e etc. Por óbvio, a mídia não é
imparcial, só que, por ser contra o PT, desta vez se foca mais na opinião
antiga do governador baiano sobre as greves do que na ilegalidade ou
ilegitimidade da greve em si.
Ou seja, ao invés de tocar
nas manifestações de reivindicações sociais e salariais que são as greves, falam
de como o governo reage e é hipócrita estando na situação. Falar bem de greve
nunca foi praxe da mídia gorda, mas na ótica deles, esta greve deve ser
amplamente divulgada, pois se trata de um tiro no pé do governo petista quando
em oposição.
A mídia, por conseguinte,
faz seu papel de sempre, ocultando um pouco das manifestações contrárias às
greves que sempre são seu foco, quando o governo da situação é aquele que
defende seus interesses.
Das
Reivindicações Sociais
É comum vermos a polícia
militar do Brasil repreender qualquer manifestação que ultrapasse o limite do
aceitável (por eles, é claro). Ainda que seja constitucionalmente protegido o
direito da livre manifestação, reunião e mobilização por uma causa,
corriqueiramente vemos a polícia literalmente descendo o cacete nos “manifestantes”,
sejam eles professores, defensores da liberação das drogas, estudantes,
trabalhadores civis ou funcionários públicos.
Tendo em vista que a greve
dos PMs não é nada além de outra greve comum, não seria de se indignar uma
represália, uma resposta hostil aos manifestantes. Na falta de policiais havidos
de porrada e sangue, que se utilize o exército, mantenedor da ordem pública.
Então, qualquer reação do
exército brasileiro a essa manifestação armada não seria nada mais do que a
própria polícia militar já está acostumada a fazer, com a diferença apenas do
lado em que está e na condição de armados que estão.
Da
Solução
É consabido que a oposição
sempre pressiona o governo do poder auxiliando as reivindicações sociais nas
suas empreitadas. Aqui no RS, por exemplo, havia muita gente do PT a favor dos
professores grevistas, quando o governo era tucano. Agora, o CPERS divulga
amplamente que o Governo de Tarso Genro (PT) é mais um inimigo da educação!
Ora, o problema dos vencimentos
dos servidores públicos é e sempre será motivo de reivindicação, pois nunca
chegará ao patamar desejável. Não com essa mentalidade política e econômica. Haverá
insatisfeitos sempre, pois nosso erário não condiz com a política salarial
reivindicada por todo funcionalismo público. Não há como praticar todos os
reajustes almejados. Estando oposicionistas ou situacionistas no poder, a
reivindicação será sempre um hábito.
Urge uma reforma política,
tributária e previdenciária no Brasil, e é isso que transformará nossos cofres
públicos em um reformador dessa condição de precarização da saúde, educação e
segurança pública. Apesar de eu ser favorável às greves, legítimas e legais -
aquelas que são repreendidas na porrada -, não creio que greves sejam o melhor
caminho. É algo imediato e paliativo, não atinge a raiz do problema e só protela
o inevitável: uma nova greve!
É necessária uma reforma
urgente na política e no nosso sistema falho como um todo, melhorando e
aperfeiçoando os mecanismos econômicos da gestão de recursos. É preciso reduzir
drasticamente as verbas do Executivo e Legislativo, aplicar de uma forma mais
responsável e investidora do dinheiro público, assim como é forçosa uma
fiscalização apurada do Judiciário, apurando-se eventuais irregularidades. Afastar,
de uma vez por todas, esse curral político atual, essa baderna que é nosso cenário
representativo.
A problemática da política
no Brasil não é moral ou metafísica, tampouco política; é um problema
sistêmico, que está inserido no germe da mentalidade individualista da
sociedade atual.
Essa greve, diferente das
outras, é meramente política, um teatro perigoso de pessoas mal intencionadas. Na
voz dos próprios colegas dos amotinados, os grevistas são “baderneiros”, “delinquentes”
que põem em risco a vida da população.
O líder grevista, Marco Prisco Caldas Machado, é pré-candidato
pelo PSDB a uma das cadeiras da Câmara de Salvador este ano, ou seja, quer ser
um bem remunerado vereador soteropolitano, o que mostra que não se reivindica
uma solução, senão apenas uma forma de se continuar enganando e utilizando a
massa como manobra política de interesses privados e escusos.
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