quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O Drama de Angélica



Ouve meu cântico, quase sem ritmo, que é a voz de um tísico magro esquelético. Poesia épica, em forma esdrúxula, feita sem métrica com rima rápida.

Amei Angélica, mulher anêmica, de cores pálidas e gestos tímidos. Era maligna e tinha ímpetos de fazer cócegas no meu esôfago.

Em noite frígida, fomos ao Lírico ouvir o músico, pianista célebre. Soprava o zéfiro, ventinho úmido, então Angélica ficou asmática.

Fomos ao médico, de muita clínica, com muita prática e preço módico. Depois do inquérito, descobre o clínico o mal atávico: mal sifilítico.

Mandou-me célere comprar noz vômica e ácido cítrico para o seu fígado. O farmacêutico, mocinho estúpido, errou na fórmula - fez despropósito. Não tendo escrúpulo, deu-me sem rótulo ácido fênico e ácido prússico.

Corri mui lépido mais de um quilômetro num bonde elétrico de força múltipla. O dia cálido deixou-me tépido. Achei Angélica já toda trêmula.

Da terapêutica dose alopática lhe dei uma xícara, de ferro ágate. Tomou no fôlego, triste e bucólica, esta estrambólica droga fatídica. Caiu no esôfago, deixou-a lívida, dando-lhe cólica e morte trágica.

O pai de Angélica, chefe do tráfego, homem carnívoro, ficou perplexo. Por ser estrábico, usava óculos: um vidro côncavo, outro convexo.

Morreu Angélica de um modo lúgubre, moléstia crônica levou-a ao túmulo. Foi feita a autópsia, todos os médicos foram unânimes no diagnóstico.

Fiz-lhe um sarcófago, assaz artístico, todo de mármore, da cor do ébano. E sobre o túmulo uma estatística, coisa metódica, como Os Lusíadas.

E numa lápide, paralelepípedo, pus esse dístico, terno e simbólico:

"Cá jaz Angélica,
moça hiperbólica
beleza helênica,
morreu de cólica!".










Música de Alvarenga e Ranchinho.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Sr. Policial

Me explique você, que é policial militar, que é um protetor do povo, do cidadão de bem, por que bater em manifestante que reivindica direitos? 


Por acaso, quando bombeiros reivindicam, quando policiais civis reivindicam, quando vocês próprios reivindicam melhores salários e condições dignas de trabalho, estão ali para fazer baderna, ou para exigir o cumprimento de uma obrigação? 


Qual é a lógica de descer o cacete em professor, em gente pobre sem teto, em gente que quer terra improdutiva pra plantar, sendo que eles estão tão fudidos na vida quanto tu, que ganha pouco e é extremamente desvalorizado pelo Estado?


É apenas uma forma de revidar esse descaso servindo cegamente ao Estado? Ou é uma nova modalidade de escravidão?


Quando eu vejo um brigadiano batendo num professor, num pobre, num ocupante, eu vejo duas pessoas mal pagas, desvalorizadas, que brigam e choram pela mesma coisa. Vejo um apanhar como marginal, e outro batendo com sangue nos olhos. Uma raiva que nada tem a ver com o espancado. Vejo que um defende seus interesses, os interesses de uma classe, enquanto o outro defende os interesses daqueles que o fodem sem pestanejar.


A Constituição defende o policial que se recusar a cumprir uma ordem de caráter desumano. Seja um respeitador da Constituição, Sr. Policial, não um mero fantoche do Estado repressor ou do seu superior manipulado.


Sem manifestações, sem democracia.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

SOPA e os Paradoxos da Sociedade de Mercado




Usarei aqui o termo Sociedade de Mercado porque é um conceito mais utilizado pelos “imparciais” que a denominação Capitalismo - que agora é tido como um conceito ideológico de esquerda, apesar de significar exatamente a mesma coisa que Sociedade de Mercado.

A Sociedade de Mercado, ou seja, o sistema político-econômico vigente no mundo ocidental criou algo extremamente paradoxal na nossa sociedade: a liberdade irrestrita e a necessidade de regulamentação dessa liberdade, a flexibilização da propriedade privada e a defesa da propriedade privada.

O sistema de política liberal pressupõe a liberdade dos indivíduos inseridos em sociedade livre e democrática. Essa sociedade deve ter, ao contrário das ditas ditaduras de esquerda ou de extrema direita, a liberdade de expressão, de manifestação livre. Até nossa Constituição Federal protege isso.

Ocorre, entretanto, que essa liberdade acabou por criar indivíduos críticos e que detém um forte aparato erudito para criticar justamente essa sociedade de mercado. Esses críticos são vistos, agora, como inimigos da ideia de mercado livre, porquanto não resignados pelo sistema proposto. São como Yoani Sánchez, só que com ideias inversas.

E como se formou esse paradoxo? O sistema de mercado livre, com intervenção do Estado na economia, ou capitalismo, caso algum saudosista ainda queira denominar assim (eu prefiro capitalismo), nada mais é do que uma ideologia. Sim, é uma ideologia, na medida em que estão dentro do conceito ideias de construção econômica, jurídica e política de uma sociedade. Dessa “ideologia” de mercado intervencionista, ou até mesmo anarco-capitalista, surgiram muitos teóricos, em sua maioria economistas, como John Maynard Keynes, Ludwig von Mises, Friedrich Hayek, Liebman, etc.

Essa ideologia de mercado, conjunto de ideias pragmáticas e organizadas para serem exercidas na política econômica e na sociedade, é amplamente divulgada em nossa grande mídia, ao passo que temos, hodiernamente, centenas de propagandas de produtos criados em benefício do consumo, fruto do livre mercado. Além disso, muitos teóricos dessa ideologia, que utilizam a mídia para repisar os argumentos desse modelo.

Mídia "imparcial".
Portanto, a mídia “gorda” é, em última instância, o folhetim ideológico dos grandes interesses econômicos, pois não haveria sentido em ter-se uma sociedade de mercado sem consumidores, ou gente ideologizando cabeças sobre a certeza de sucesso do sistema vigente.


Essa mídia gorda e ideologicamente neoliberal, diuturnamente nos bombardeia com um sistema de ideias voltadas aos interesses dos grandes possuidores, ou seja, empresários de ramos influentes.

A grande mídia é, pois, para a direita neoliberal o que a esquerda é para os militantes, sindicalistas e trabalhadores politizados.

Nesse comenos, erigiu-se algo que, até então, seria inofensivo aos grandes interesses: a internet! Um grande sistema de computadores interligados que seria a cara da globalização, sem, contudo, por em risco a mídia tradicional. É a união entre povos distintos, a troca de culturas por meio virtual. Sem falar na alta popularidade, que facilita a propagação de produtos e ideias. Com a conexão dos povos por um sistema tecnológico, facilmente se chegaria a uma integração dos interesses do mercado em se comunicar com outras nações, promovendo a chamada “globalização”. De mercado, é claro.

Acontece que essa globalização perdeu os rumos esperados. A liberdade social que o liberalismo criou acabou voltando-se contra ele próprio, ao ponto de o mercado, através da política, ver-se obrigado a fazer uma limitação a essa liberdade.

Eis que, então, surge o projeto de lei norte americano SOPA (Stop Online Piracy Act), que visa à proibição da “pirataria” on-line. Essa pirataria consiste em ofensa à propriedade intelectual privada de autores sobre suas obras. Com o projeto aprovado, a internet perde metade de sua utilidade, e passa a ser vigiada.

Esse é o paradoxo. O próprio sistema de mercado e de consumo criou a tal “pirataria”, que nada mais é do que a promoção dos autores às mais longínquas audiências do mundo, sistema esse que é encabeçado pela própria globalização. Como globalizar informações sem que elas firam direitos de propriedade? As pessoas querem conhecer aquilo que irão consumir. E, de fato, a maioria das pessoas que “baixam” coisas da internet acaba por se apaixonar pelas coisas que sequer teriam conhecimento, não fosse a pirataria. Aquilo que não agrada, apesar de correr o mundo, não será consumido.

Dentro dessa nova realidade da pirataria, há os que se adaptaram, transformando aquilo que lhes onerava em algo extremamente rentável. Mas há também aqueles que não se adaptaram a essa nova realidade, e brigam para voltar à época em que tudo era restrito e controlado.

Esse paradoxo do mercado privado mostrou aquilo que a própria sociedade é atualmente. Criou-se, por esse excesso de liberdade e essa ferramenta de compartilhamento que é a internet, um sistema novo, além das fronteiras do grande capital, dos interesses privados. Em contraponto dos pressupostos liberais, querem que o Estado aja como Imperador para barrar as sangrias dos cofres privados. Ou seja, quando a coisa começa a apertar, eles querem um Estado atuante e repressor, algo próximo das regulamentações do Estado cubano.

Além da proibição de sites de compartilhamento de músicas e obras que não tenham direitos sobre a propriedade alheia, existe a sanção aos grupos econômicos de financiamento que contribuem com esses sites piratas. E o pior, qualquer página da internet tida como “suspeita” será derrubada, sem prévia ação judicial e aviso, promovendo uma restrição, inclusive, da crítica a qualquer outra maneira de ver o sistema de mercado que não seja do interesse do próprio mercado.

É de se ressaltar que a internet nos EUA estará livre disso, pois a lei se aplica somente aos outros países.

Creio que está surgindo uma proposta de sanção às liberdades propostas pelo próprio sistema de mercado, que é regida pelos interesses dos EUA, a grande potência econômica mundial. Terão sucesso nessa empreitada? Ou as manifestações coletivas na internet contra esse sistema conseguirão derrubar e vetar esse projeto?


Pois é, mercado, pariste um filho rebelde. Agora aguenta!

O Brado Retumbante de Aécio na Globo


Qualquer semelhança do Presidente fictício de “O Brado Retumbante” com Aécio Neves é mera coincidência. Ou não.

No 4° capítulo da série, a “Primeira Dama” critica o livro didático que estaria promovendo a deseducação dos alunos. Ora, essa polêmica idiota levantada pela PIG sobre o livro do MEC já deveria ter sido esquecida, tendo em vista que se tratava de uma total ignorância do que realmente tinha no livro didático da vida real e nada teve a ver com corrupção.
Ficou claro na série que a autora fictícia do livro didático estaria em conluio com o Ministro da Educação, enriquecendo com o dinheiro público. O que eles estão querendo dizer? Eles tentaram explicar ao povo desinformado o que aconteceu nesse caso real, sem que isso correspondesse à realidade dos fatos, que estão bem longe desses da ficção.


Além disso, a Primeira Dama ainda fala das ideologias mortas que a autora do livro estaria propagando para as crianças. Falar certas coisas contra a mídia gorda e o grande poder do capital, realmente, assusta. Bem que eles podia falar do Occupy Wall Street, mostrando também algumas trapalhadas da economia mundial.

Trata-se de uma descarada obra de manipulação das pessoas menos interessadas por política. E talvez dê certo, pois é quase certa a candidatura de Aécio Neves para presidência em 2014. Virá como o novo "Vassourinha", o "Caçador de Marajás", o neto de Tancredo Neves, o homem que vai moralizar a política brasileira.

E outra, que trama meio idiota, pois qual presidente que viajaria com o vice no mesmo helicóptero, ou avião, ou qualquer outro meio de transporte?

Acompanharei a série, para continuar captando essas e outras "semelhanças". Com certeza essa minissérie ainda terá muitas outras manipulações. Vejamos até onde vai a cara de pau da Rede Bobo.




Aécio Neves, futuro candidato à presidência pelo PSDB
Paulo Alberto Ventura, Presidente Fictício



sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

E agora, o que eu vou fazer se te amo?


Eu gosto de ver como algumas músicas se parecem nas letras. Mas gosto mais ainda de transformar duas ou mais letras que se parecem em uma só canção, como fiz em "Francis e Cristina" e "A História do Menino Jesus". É o que eu fiz nessa, juntei "N", do Nando Reis, com "Eu te amo", do Chico Buarque.











E agora, o que eu vou fazer?
Se já perdemos a noção da hora,
Se juntos já jogamos tudo fora,
Se os seus lábios ainda estão molhando os lábios meus
E as lágrimas não secaram com o sol que fez,
Me conta agora como hei de partir?


E agora como posso te esquecer?
Se ao te conhecer dei pra sonhar, fiz tantos desvarios,
Rompi com o mundo, queimei meus navios,
Se o teu cheiro ainda está no travesseiro
E o teu cabelo está enrolado no meu peito,
Me diz pra onde é que inda posso ir?


E agora, como eu passo sem te ver?

Se o seu nome está gravado no meu braço como um selo,
Nossos nomes que tem o "N" como um elo,

Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas,
Diz com que pernas eu devo seguir?


E agora como posso te perder?
Se entornaste a nossa sorte pelo chão,
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu,
Se o teu corpo ainda guarda o meu prazer
E o meu corpo está moldado com o teu?
Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas...


Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu?


Como, se nos amamos feito dois pagãos,
Teus seios ainda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair?


Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Quando o Excesso de Leitura se Torna Prejudicial - A verdadeira Educação


O miolo do conhecimento



Estou inaugurando um tipo de post que há tempos quero ter no meu blog: descrever a etimologia de uma palavra e seguir falando de algo relacionado à palavra.

As palavras chave que inauguram este post é sedução e educação.

Sedução, etimologicamente, provém do latim seduco (se + duco), e significa separação, afastamento, divisão, partilha. É, portanto, também etimologicamente, antônima de duco (ducere), que significa, em latim, caminho, conduzir, comandar. Uma palavra que contém o radical latino duco é “educação” (E-ducere). Portanto, em última análise, sedução e educação são palavras antônimas, e se relacionam mais do que nós imaginamos. Seguir um caminho é se educar, desviar desse caminho é seduzir-se.

Ao que interessa, importa dizer que o excesso de educação (no sentido de caminho a seguir) é, outrossim, uma forma de sedução, ou seja, apartar-se do caminho certo.

Somos sempre seduzidos, seja por algo ou por alguém. Indiscutivelmente, vamos nos seduzir e nos desviar de um caminho, para o bem ou para o mal.

Tratando de educação, o hábito da leitura é um dos mais saudáveis que podemos ter com nosso corpo, junto com algo aeróbico e uma boa alimentação. A liberdade do homem é indissociável do conhecimento. E o conhecimento, desde a escrita, está nos livros. Aquele que lê se abre a um novo mundo, criado por outro homem, por outro cérebro. A criatividade dos autores nos leva a lugares completamente novos, imaginários ou muito reais. Uma mente aberta pela leitura nunca será escravizada por nenhuma outra coisa… a não ser a própria leitura.

Pois é, a leitura escraviza também. O homem acredita que, por estar lendo excessivamente, está tornando-se livre, por adquirir conhecimento, sabedoria, por estar se tornando um erudito, um culto. Mas acaba olvidando-se do fato de que busca conhecimento apenas para se tornar algo além de um macaco. E lendo exaustivamente, apenas suga de outros espíritos aquilo que não pôde extrair do seu próprio íntimo cinzento.

Todo homem é seduzido por algo. E o erudito, sendo seduzido por um tipo de literatura ou autor, torna-se escravo de outros cérebros, acreditando que aqueles pensamentos absorvidos são seus, condizem ao seu pensamento, não o de outras pessoas, que têm experiências diversas das suas e, muitas vezes, uma vida totalmente alheia à sua época.

Há um grande risco no excesso de leitura, assim como no excesso de qualquer coisa (até de sexo!). Passa-se a acreditar que o pensamento próprio nasceu consigo, quando deveras surgiu de uma tonelada do espírito próprio de outros homens. Como diria Arthur Schopenhauer, "a peruca é o símbolo mais apropriado para o erudito puro; trata-se de homens que adornam a cabeça com uma rica massa de cabelos alheios porque carecem de cabelos próprios”.

Portanto, a leitura é o melhor dos hábitos, mas deve ser utilizada com moderação, para que o espírito crítico do próprio leitor não seja contaminado pela sedução de pensamentos alheios. Ninguém deve tomar para si o pensamento de outrem, apenas deve embeber-se de suplementos ao seu próprio raciocínio, sob pena de se tornar servo da sedução de um axioma alheio ao seu.

A importância das obras escritas por pensadores deve ser levada em conta apenas como título de início ou acessório de um pensamento próprio, pois o verdadeiro conhecimento e sabedoria estão no pensamento próprio, naquilo que o homem deve ter por si deduzido.

Tudo que se pensa na hora é válido, devendo ser filtrado e descartado aquilo que veio de outras cabeças. A informação nova, a crítica surgida de um fato atual, deve ser encubada, ponderada, e, só em último recurso, suplementada com pensamentos de outros homens.

Assim, o caminho - que pode ser também chamado de sabedoria - não será seduzido pelo pensamento estranho, e a educação – que é, para mim, o rumo trilhado pelo próprio homem, com suas idiossincrasias e atualidades – será pura e construtora de uma nova concepção, tal qual foram para os pensadores originários, trazendo a construção de algo novo, diferente de qualquer outra coisa escrita.


Pense bem, é muito melhor falar besteira por pensamento próprio que só genialidades entre aspas.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O Homem que Escrevia no Espírito (Parte 2)



Por Rafael Rivas


Continuação...


Certa feita, entretanto, quando estava em uma recepção em seu flat - dada em sua homenagem por ocasião do lançamento de um DVD, no qual Vinícius demonstrava seus dotes linguísticos para uma plateia de mulheres que se derretiam por ele no palco de um teatro municipal -, ouviu alguém dizendo não se impressionar com tais dons poéticos. Era uma voz feminina. Ora, como assim?, pensou o pretensioso Vinícius, tentando buscar com os olhos dentre todas aquelas vozes a que falara tal absurdo. Quem profere tais contrassensos?, bradava o efusivo e loquaz poeta a acotovelar-se por entre os convivas, procurando o falso testemunho. Culminou em uma rapariga, com aproximadamente 25 anos de idade, mulata como canela, com o rosto iluminado pela luz que adentrava à sala, inteiramente nua dentro de um sumário vestido verde escuro plissado nas saias e estreito dos seios à cintura, com um corpo nas medidas de uma porta-bandeira, cheia de ziriguidum até a ponta dos saltos.

Quando olhou toda aquela morena se calou de pronto. Ela, tímida, olhando envergonhada por ter pensado alto demais, deixou escapar um olhar de curiosidade a ele, que fisgara e, aos olhares mudos de todos os presentes, subitamente a pegou pela cintura com a mão esquerda, retirou do pescoço os cabelos com a mão direita, aproximou os lábios de sua orelha e disse: és a mulher mais linda que já vi até hoje na minha vida. Não tá funcionando, disse ela revirando os olhos para cima, referindo-se aos encantos que não cria. Ele, assustado e ainda não entendendo que ela falava do suposto efeito das suas frases, afastou o rosto, olhou-a nos olhos e disse: me dá teu nome! Ela deu uma risada cínica e, olhando com desdém ao poeta, disse impetuosamente: se o seu desempenho na cama for tão morno quanto sua voz e pegada, acho que esse DVD não passa de uma farsa. Lançou tais palavras no ar, virou-se e saiu, deixando exalar por entre os boquiabertos convivas seu perfume de mulata. Antes de ela sair inteira pela porta, ele ainda exclamou baixinho: apenas o nome… era tarde.


Como continuar respirando sem ter no ar o cheiro daquele pescoço. Como beijar outros lábios que não aqueles. A mulata calou o trovador, era o que todos diziam. Quem dera ele rasurar aquelas palavras, rasgar aquela página mal rabiscada. Nem seu nome ela disse ao ser interpelada pelo então poeta. Apenas se utilizou de toda sua beleza para abespinhar o literato anímico. Beleza essa que ficaria incrustada na mente de Vinícius por meses, o fazendo deixar de fazer o que fazia, de traduzir em palavras sentimentos improvisados, de encantar e ser falado. Ele, que era o tradutor da alma feminina, não tinha mais nada. Sequer tinha vontade de olhar para outras mulheres. Deu, naquela noite, seu canto do cisne.


Tornou-se um ébrio habitual. Só acordava em dias pares. Ia de bar em bar a procura daquela morena sambando em algum pagode. Bebia cerveja até cair ou ser expulso pelos donos dos botecos. Já nem falava mais, por não sentir prazer ao ouvir a própria voz, vez que apenas naqueles ouvidos as palavras fariam sentido. Queria reescrever naquelas orelhas as palavras certas, que a faria dele. Chegava em seu apartamento, acendia um cigarro, tomava um uísque e pensava na negra. De tanto tempo sem falar, esquecera até mesmo o som de sua própria voz. Sequer seus pensamentos tinham sua voz, que só pensavam com a voz dela. Aquelas palavras ecoando em seu íntimo, não vejo nada demais, não tá funcionando, se o seu desempenho na cama for tão morno quanto sua voz e pegada, acho que esse DVD não passa de uma farsa... Era o que ele tinha dela, além daqueles olhos descrentes gravados na sua retina, o calor daquele corpo impregnado em suas mãos. Tudo era ela, e nada ele tinha.

Já sucumbido ao fracasso, despido de amor próprio, esquecido por aquelas mulheres que tanto se encantaram com suas palavras, lembrava somente da que não lhe dera ouvidos, da que se fizera de surda. Ou não sentia igual às outras? Lembrou-se, então, de sua ex-noiva, que também não lhe dava bola. Seria ela da mesma forma, recatada, negligente, com um quê de pachorrenta? Seria ela tímida demais, desafeita a erotismos e poesias, insegura de si, ou muito cheia de si?

Acabrunhado com tais pensamentos, caminhando de chinelos e bermuda sob uma chuva rala que encobria de leve o sol nas areias da praia, uma cena interrompeu abruptamente seus pensamentos de voz feminina. Era ela. Morena, salgada, recém-saída do mar, arrepiada pelo súbito chuvisco que precipitava, balançando seu corpo firme, linda com um branco vestido de saída-de-praia arrastão, deixando transparecer nas lacunas aquela morenozidade toda. Suas coxas repletas de grãos de areia exaltavam tudo que havia de beleza na terra brasileira. Vinícius estremeceu e aparafusou-se na areia. Eu quero ela, pensou com voz grossa e masculina, sua própria voz, do poeta, de trovador, do Vinícius que sempre se conhecera. Recobrada a voz e os movimentos, ganhou forças para advogar sua causa, propor a ela um drink, um dancing, um pagode talvez, aprenderia a dançar se ela pedisse. Caminhou até o quiosque ao qual ela tinha se sentado, sentou-se ao seu lado, pediu uma água-de-coco, olhou para ela e disse: tu me mataste! Ela virou-se com vagar, um pouco assustada pela voz da vítima que se pronunciava, colocou a mão esquerda na própria cintura, olhou bem para o barbudo ao seu lado e disse: como é que é?

Ele então expôs suas razões, disse, desprovido de qualquer afeição que tivesse por si mesmo, tudo que lhe acontecera depois daquele encontro repentino na recepção do flat, daquelas duras palavras que ela proferiu impensadamente - ou de propósito -, do tanto de tempo que a procurava pelos bares, bebendo imoderadamente, pelas rodas de samba e pagode, a ser expulso pelos donos de boteco, a esquecer de sua própria voz em pensamento, a pensar somente com a voz dela. Disse tudo, absolutamente tudo.

O salão estava cheio, iniciou ela. Pensava, realmente, que nada do que você poderia dizer me faria pensar ao contrário do que já acreditava, que você não passava de um farsante. Mas ao me pegar pela cintura daquele jeito, cravar os dedos na minha carne, dizer que eu era dentre todas a mais linda mulher que teus olhos já viram, me exigir a graça ao pé da orelha e me olhar como se eu fosse a única mulher do mundo, percebi que estive errada. Saí do salão acreditando que você me perseguiria para tirar satisfações, mostrar que é homem, pra que então pudéssemos conversar a sós e eu pudesse lhe fazer jus às palavras. Você não veio, pensei que tinha me esquecido, que você não tinha sentido meus olhos a te chamar, ou que de fato não passavam de mentiras as suas palavras. Mulher de malandro eu não sou! Pensei que não conhecia tão bem as mulheres, apesar de saber bem como rendê-las e lhes fazer abrir as pernas. Fui forte às suas palavras, dominei minhas coxas, engoli o gozo, contive meu ímpeto, aguardei por exclusividade. Hoje você está aqui, de joelhos aos meus pés, dizendo que me procurou nos bares, nas rodas de samba e nos pagodes, fora expulso pelos donos de boteco, esqueceu-se da própria voz e sequer pensava com outra senão a minha voz. Isso tudo foi maior que qualquer poesia que o maior poeta do mundo poderia dizer ou escrever. Hoje sou a mulher mais desejada pelo poeta mais sem poesia do mundo, pelo homem mais sem dignidade do país, pelo rato mais preso à ratoeira que o dono desse quiosque já viu. Hoje eu te dou a honra de saber meu nome, agora que você não mais exige, mas suplica. Sou Tereza, gosto de flores sem datas certas, de ligações inesperadas, de elogios ao cabelo e aos vestidos. Tu é meu e eu sou tua, a partir de hoje e para sempre.

Selou-se o pacto com um beijo, porque um pacto selado por lábios nunca será descumprido.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O Homem que Escrevia no Espírito (Parte 1)


Por Rafael Rivas



Vinícius era um homem apaixonado. Gostava de relacionamentos longos, conhecer e aprender de sua amada. Observava com afinco os gestos, a postura, a maneira de andar. Esforçava-se para se apaixonar sempre pela mesma mulher. Resignava-se fácil, não gostava de tolices.

Estava namorando há sete anos a mulher que lhe rendeu um noivado. Dedicava-se como se aquela fosse a última, a beijava como se fosse a única. Romântico que era, dava flores inesperadas, surpreendia com presentes fora de data, comentava os cortes de cabelo – ainda que fossem apenas nas pontas -, elogiava constantemente as roupas, sapatos, ligava para dizer um eu te amo, mandava mensagens agradecendo pela oportunidade de ser feliz ao lado dela. Quando ia trabalhar, deixava no quarto dela poesias de amor e sexo que improvisava em post-its, e partia vendo ela agarrada aos lençóis, como se fizesse parte de uma pintura, na qual a cama era a moldura.

Entretanto, ela sempre foi pouco habituada aquele amor todo. Desdenhava no início, mas veio a se acostumar com o noivo meloso com passar dos anos. Achava brega, antiquado, um tanto obsceno. Não era dada a palavras eróticas. Tinha personalidade recatada, negligente, um quê de pachorrenta.

Tal espírito desidioso da namorada acabou por aplacar esse ímpeto poético no jovem Vina. Já perdera o tino para improvisos, não escrevia mais nada. Ele foi se desapaixonando aos poucos, mas não só por ela, por si mesmo, pela sua atitude servil. Do noivado sobrou apenas amizade, ou seja, amor sem sexo. E de amizade nenhum homem vive por muito tempo. Sentia cãibras no seu espírito criativo, havia adormecido nele aquele tino para a arte. Vina queria mais, queria se reapaixonar, só que por outra mulher, por si, pela vida. Sentir novamente aquele frio na barriga, se interessar pelos gestos, pelo corpo de outra mulher, voltar às poesias de amor e sexo. Rompeu o noivado estanque e partiu rumo à vida.

Foi então que ele conheceu Carla… e Camila e Joana e Bárbara e Amanda e Vanessa… Vinícius apaixonou-se não só uma vez, mas várias, diversas, por todas, umas diferentes das outras, suas peculiaridades, suas curvas, minúcias, a maneira de andar e quedarem-se sentadas. E nunca estivera tão inspirado a fazer poesias. Não de escrevê-las em post-its ou cartas, mas dizê-las às amadas, sussurrar no pé d’ouvido, em letras garrafais, caligrafias virtuais, tons retumbantes. Sentia o fundo d’alma delas estremecer aos percucientes verbos empregados em suas prosas, às exclamações, às rimas, cada estrofe um gozo. Valia-se de palavras de baixo calão, vulgares, chulas, dignas do funk mais bagaceiro, unidas a palavras rebuscadas, aprimoradas, requintadas, aveludadas por sua voz macia e firme, em literatura pura e métrica. Fazia uma montanha russa de emoções naquelas orelhas atentas. De fato, as palavras polidas eram as que mais faziam efeito, pois elas quase não entendiam, não fosse o contexto.

Passou a deixar de lado as flores e as mensagens e as ligações e os comentários sobre os cabelos e os vestidos, pois elas o procuravam apenas para que ele falasse aos seus ouvidos as palavras mágicas. Enquanto ele se deliciava em seus corpos, beijando as coxas, as nádegas, as costas, declamava seus famosos versos e prosas, sentindo nos pelos a repercussão das palavras. Deixou papel e caneta, tudo estava em sua cabeça, e era gravado naqueles corpos desde o espírito que ele fazia seu livro. Cada orelha uma página em branco, esperando ser preenchida com aquela retórica persuasiva que lhe vinha de súbito, no improviso. Cada palavra entrava n’alma e nunca mais saía, provocando calafrios mesmo depois de horas, só de lembrança vaga.

E cada vez mais ouvintes lhe procuravam; senhoras, acadêmicas, enfermeiras, putas pagavam para ouvir dele as palavras mais belas e sórdidas. Tornou-se famoso na boemia da cidade, fazendo a diversão dos ouvintes atentos nos bares. Logo ficou conhecido em toda capital, passando a dar entrevistas a jornais e saindo de quando em vez em colunas de suplementos literários. Em um ano já fazia apresentações em programas televisivos, ia a talk-shows, escrevia no espírito das apresentadoras suas poesias. 

Aquela vida pretérita do Vinícius estava tão longe quanto perto o desfecho do seu livro. Nem se lembrava da noiva, que tanto lhe sufocara o espírito criativo. Tinha tantas admiradoras que sequer lembrava-se da mulher da véspera.

Continua em O Homem que Escrevia no Espírito (Parte 2)

sábado, 5 de novembro de 2011

Quando o Virtual se Tornou Real



Por Rafael Rivas

Estava entrando na festa quando a vi, também entrando. Me assustei. Perguntei para mim: será ela? Na verdade, nem sei bem se a vi ou se pensei que via. Minha lembrança a reconhecia, mas meus instintos, meu faro e meu tato ainda não. Olhei de longe, em meio a identidades e comandas, chamados e revistas íntimas, fumaça e New Order rolando no fundo, aqueles negros cabelos cumpridos, o corpo vestindo preto e rapidamente o rosto, que até então só poderia lembrar pelas fotos do Facebook. Ela era irmã de um ex-colega do tempo do primeiro grau, um ano mais nova que nós. Tanto tempo... Será ela?, ecoava no meu pensamento. Tinha estabelecido com ela um superficial contato virtual, pelas redes sociais, dada a proximidade pretérita.

Algumas Devassas depois, já embalado ao som de Boys don’t cry, vi ela passar novamente. É ela!, pensei. Tentei achá-la novamente por entre aquele amontoado de gente. Não deu. Esperei por outro momento. O lugar era pequeno, haveria de encontrá-la novamente.

"Say you, say me", meu álibi tinha ido ao banheiro e, enquanto esperava, vi ela com seu vestido preto e suas amigas entrando no toalete feminino. Pensei: mando ele esperar se voltar antes, mas tiro a dúvida para não perder a noite insone. Raciocinei algumas palavras prontas para dizer caso ela passasse sem me ver. Pegaria ela pelo braço e perguntaria seu nome, o que me daria a deixa de saber se era realmente quem eu imaginava. Ela saiu do banheiro. E foi mais rápida. Veio em minha direção, com olhares de quem já me reconhecera e me deu oi. Três beijos, um olhar apurado, algumas palavras ao pé d’ouvido por causa da música oitentista alta e um “não vai embora”. Confesso que não sei se interpretei bem aquele “não vai embora” ao som de Lionel Richie.

E o pior, teria ela gostado do que viu? Eu teria correspondido ao que ela tinha imaginado pelas fotos do meu perfil do Facebook? Estava mais gordo que nas fotos, diferente do que se lembrava do tempo de escola?

A dúvida pairou e ficou no ar, como um pulo do Dadá Maravilha para cabecear um chuveirinho na entrada da área. Dormirei com a dúvida. Talvez para sempre, pois ela continua off-line.

Que será que ela viu ao me ver? Que será que eu fui para ela naquela noite, ao som dos anos oitenta, numa festa já quase no fim?

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

O Primeiro Imperativo Kantiano


(Este post versa sobre o “primeiro imperativo kantiano”. Já havia estudado, mas ficou muito melhor ilustrado pela explicação do Dr. George Marmelstein Lima, Juiz Federal, que fez ao seu filho mais novo. Segue abaixo o texto retirado do blog do Magistrado, http://direitosfundamentais.net).




Explicando Kant para meu filho de 3 anos


Copiado em Julho 10, 2009 de George Marmelstein Lima.
  


Nesse clima de férias, estava eu a tomar banho de piscina com meus filhos, quando o mais novo perguntou se podia fazer xixi. Respondi que na piscina não, pois era errado. Na curiosidade típica das crianças, ele perguntou por que fazer xixi na piscina era errado. A resposta que dei foi relativamente mais simples do que a que vou formular agora. De qualquer modo, tenho certeza de que ele também compreenderia, pois é bastante esperto. É uma explicação bem básica do primeiro imperativo categórico kantiano (”age de tal modo que tu possas querer que a tua ação se torne uma lei universal de conduta“). Tal imperativo funciona como uma espécie de roteiro mental para fundamentar subjetivamente as questões morais, desde as mais simples até as mais complexas, partindo do pressuposto de que quem agirá adotará um comportamento racional e sincero.

Para saber se um ato (ou uma máxima, como diria Kant) é moralmente certo ou errado, é preciso seguir quatro passos.


1º Passo – Formulação do Princípio de Ação (Máxima)


O primeiro passo é estabelecer a máxima que será avaliada. Geralmente, é formulada por meio de verbos (matar, mentir, descumprir promessas, suicidar-se etc.). No nosso caso, a máxima é: fazer xixi na piscina.


2º Passo – Especular sobre a Transformação de Tal Princípio de Ação em Lei Universal de Conduta


O passo seguinte é cogitar em uma possível universalização da máxima. Universalização, nesse sentido, significa imaginar uma norma que obrigasse todo mundo a agir da mesma forma naquela situação. A idéia é, portanto, transformar a máxima em uma lei universal. No nosso caso, a lei universal seria: todos deverão fazer xixi na piscina.


3º Passo – Verificar as Consequências da Referida Universalização


No terceiro passo, será analisado o que ocorreria se a referida lei universal fosse adotada como padrão na natureza. Em outras palavras: o que aconteceria se todos agissem segundo aquela máxima naquelas circunstâncias?

No nosso caso, basta pensar no que ocorreria se todos que tomassem banho de piscina fizessem xixi na água sempre que tivessem vontade.


4º Passo – Saber se o Agente Moral Aceitaria (Desejaria) as Consequências de uma tal Lei Universal



No último passo, o agente moral deverá verificar se aceitaria agir segundo a máxima mesmo sabendo das consequências que ela acarretaria se fosse transformada em uma lei universal da natureza, perguntando a si mesmo: “Ficaria eu satisfeito de ver a minha máxima se transformar em lei universal a ser seguida não apenas por mim, mas por todas as outras pessoas racionais?” Se ele responder afirmativamente, então a máxima será moralmente correta. Se ele não aceitar tal lei universal, então a máxima será imoral.

No caso ora analisado, a máxima “fazer xixi na piscina” não poderia ser transformada em uma lei universal, pois ninguém desejaria tomar banho numa piscina cheia de xixi, que é justamente o que aconteceria se todo mundo urinasse na piscina. Só uma pessoa irracional ou pouco sincera ou muito nojenta preferiria tomar banho numa piscina suja ao invés de tomar banho numa piscina limpinha.

Portanto, aquele que faz xixi na piscina age em contradição consigo mesmo, pois pratica uma ação mesmo não desejando que ela se torne uma lei universal, numa clara violação do primeiro imperativo categórico. Os sujeitos moralmente evoluídos deveriam ficar com dor na consciência ao urinarem na piscina, pois o seu sentimento de dever moral estará sendo pisoteado pela sua própria conduta.

E não importa se o agente moral vai ser descoberto ou não. A sanção moral, para Kant, é subjetiva. No caso do xixi na piscina, dificilmente alguém perceberá que o agente moral está ou não se aliviando debaixo d’água. Mesmo assim, será incondicionalmente imoral realizar tal conduta, pois ela viola o imperativo categórico, que é categórico justamente porque não admite desculpas esfarrapadas do tipo “não deu tempo“, “é só um pouquinho“, “todo mundo faz” etc. Não tem conversa fiada: se você não deseja que os outros façam, então você tem o dever moral de também não fazer e ponto final.

Eis uma resposta kantiana para a pergunta do meu filho. Como se vê, o primeiro imperativo categórico é uma formulação alternativa e mais sofisticada da “regra de ouro” na sua versão positiva: faça aos outros aquilo que você gostaria que os outros lhe fizessem. E foi justamente essa explicação mais simples que dei a meu filho. Perguntei-lhe: “você gostaria de tomar banho numa banheira de xixi?” Ele olhou com uma cara de nojo e respondeu que não.


Sobre isso, Kant certamente diria:


“Não preciso, pois, de perspicácia de muito largo alcance para saber o que hei de fazer para que o meu querer seja moralmente bom. Inexperiente a respeito do curso das coisas do mundo, incapaz de prevenção em face dos acontecimentos que nele se venham a dar, basta que eu pergunte a mim mesmo: – podes tu querer também que a tua máxima se converta em lei universal? Se não podes, então deves rejeitá-la” (IK, FMC, p. 35/36).

A propósito, no final do dia, a cor da piscina estava bastante “estranha”, demonstrando que o primeiro imperativo categórico não é tão eficaz assim. Acho que nem todo mundo vive no estágio moral “pós-convencional” de que tratou Kohlberg.