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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Sinal da Cruz

Sabendo que a polícia está aquartelada, José espera sozinho na parada escura, sob o frio intenso da noite, com um temor tenso de exício na espinha. José sente um calafrio, se benze e faz o sinal pro seu ônibus que tá chegando parar. Entra e percebe a preocupação compartilhada pelos passageiros no momento em que embarca. Todos o acompanham sentar no único lugar vago, ao lado do cobrador. Qualquer um é um suspeito.

A longa jornada segue como todos os dias. É comum o burburinho das pessoas nesse horário, o descarrego exausto na alegria do fim de um dia de trabalho. Porém, hoje José repara que paira um silêncio absoluto, quebrado apenas algumas vezes pelo som da frenagem ou o sinal solicitando o desembarque. O medo se acumula nos músculos cansados dos corpos. Os comentários, relatos e as notícias sobre assaltos a ônibus, alguns com tiros e gente morta, se espalharam nas últimas semanas por todo lado.

Cada sinal que alguém aperta indicando que vai descer é um pulo de susto nos mais atentos. José olha para o lado direito, vê passar fora da janela uma igreja e faz o sinal da cruz ao mesmo tempo em que vê pelo reflexo a arma em punho do passageiro de trás que levanta anunciando o assalto e causa em José uma reação espontânea: ao levantar a mão ainda em prece ele bate na arma do assaltante, disparando acidentalmente um tiro no seu próprio peito. Caído ao chão, no átimo de vida que se extingue em um amém, José olha para o teto do ônibus e pergunta: por quê?

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O Drama de Angélica



Ouve meu cântico, quase sem ritmo, que é a voz de um tísico magro esquelético. Poesia épica, em forma esdrúxula, feita sem métrica com rima rápida.

Amei Angélica, mulher anêmica, de cores pálidas e gestos tímidos. Era maligna e tinha ímpetos de fazer cócegas no meu esôfago.

Em noite frígida, fomos ao Lírico ouvir o músico, pianista célebre. Soprava o zéfiro, ventinho úmido, então Angélica ficou asmática.

Fomos ao médico, de muita clínica, com muita prática e preço módico. Depois do inquérito, descobre o clínico o mal atávico: mal sifilítico.

Mandou-me célere comprar noz vômica e ácido cítrico para o seu fígado. O farmacêutico, mocinho estúpido, errou na fórmula - fez despropósito. Não tendo escrúpulo, deu-me sem rótulo ácido fênico e ácido prússico.

Corri mui lépido mais de um quilômetro num bonde elétrico de força múltipla. O dia cálido deixou-me tépido. Achei Angélica já toda trêmula.

Da terapêutica dose alopática lhe dei uma xícara, de ferro ágate. Tomou no fôlego, triste e bucólica, esta estrambólica droga fatídica. Caiu no esôfago, deixou-a lívida, dando-lhe cólica e morte trágica.

O pai de Angélica, chefe do tráfego, homem carnívoro, ficou perplexo. Por ser estrábico, usava óculos: um vidro côncavo, outro convexo.

Morreu Angélica de um modo lúgubre, moléstia crônica levou-a ao túmulo. Foi feita a autópsia, todos os médicos foram unânimes no diagnóstico.

Fiz-lhe um sarcófago, assaz artístico, todo de mármore, da cor do ébano. E sobre o túmulo uma estatística, coisa metódica, como Os Lusíadas.

E numa lápide, paralelepípedo, pus esse dístico, terno e simbólico:

"Cá jaz Angélica,
moça hiperbólica
beleza helênica,
morreu de cólica!".










Música de Alvarenga e Ranchinho.