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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

SOPA e os Paradoxos da Sociedade de Mercado




Usarei aqui o termo Sociedade de Mercado porque é um conceito mais utilizado pelos “imparciais” que a denominação Capitalismo - que agora é tido como um conceito ideológico de esquerda, apesar de significar exatamente a mesma coisa que Sociedade de Mercado.

A Sociedade de Mercado, ou seja, o sistema político-econômico vigente no mundo ocidental criou algo extremamente paradoxal na nossa sociedade: a liberdade irrestrita e a necessidade de regulamentação dessa liberdade, a flexibilização da propriedade privada e a defesa da propriedade privada.

O sistema de política liberal pressupõe a liberdade dos indivíduos inseridos em sociedade livre e democrática. Essa sociedade deve ter, ao contrário das ditas ditaduras de esquerda ou de extrema direita, a liberdade de expressão, de manifestação livre. Até nossa Constituição Federal protege isso.

Ocorre, entretanto, que essa liberdade acabou por criar indivíduos críticos e que detém um forte aparato erudito para criticar justamente essa sociedade de mercado. Esses críticos são vistos, agora, como inimigos da ideia de mercado livre, porquanto não resignados pelo sistema proposto. São como Yoani Sánchez, só que com ideias inversas.

E como se formou esse paradoxo? O sistema de mercado livre, com intervenção do Estado na economia, ou capitalismo, caso algum saudosista ainda queira denominar assim (eu prefiro capitalismo), nada mais é do que uma ideologia. Sim, é uma ideologia, na medida em que estão dentro do conceito ideias de construção econômica, jurídica e política de uma sociedade. Dessa “ideologia” de mercado intervencionista, ou até mesmo anarco-capitalista, surgiram muitos teóricos, em sua maioria economistas, como John Maynard Keynes, Ludwig von Mises, Friedrich Hayek, Liebman, etc.

Essa ideologia de mercado, conjunto de ideias pragmáticas e organizadas para serem exercidas na política econômica e na sociedade, é amplamente divulgada em nossa grande mídia, ao passo que temos, hodiernamente, centenas de propagandas de produtos criados em benefício do consumo, fruto do livre mercado. Além disso, muitos teóricos dessa ideologia, que utilizam a mídia para repisar os argumentos desse modelo.

Mídia "imparcial".
Portanto, a mídia “gorda” é, em última instância, o folhetim ideológico dos grandes interesses econômicos, pois não haveria sentido em ter-se uma sociedade de mercado sem consumidores, ou gente ideologizando cabeças sobre a certeza de sucesso do sistema vigente.


Essa mídia gorda e ideologicamente neoliberal, diuturnamente nos bombardeia com um sistema de ideias voltadas aos interesses dos grandes possuidores, ou seja, empresários de ramos influentes.

A grande mídia é, pois, para a direita neoliberal o que a esquerda é para os militantes, sindicalistas e trabalhadores politizados.

Nesse comenos, erigiu-se algo que, até então, seria inofensivo aos grandes interesses: a internet! Um grande sistema de computadores interligados que seria a cara da globalização, sem, contudo, por em risco a mídia tradicional. É a união entre povos distintos, a troca de culturas por meio virtual. Sem falar na alta popularidade, que facilita a propagação de produtos e ideias. Com a conexão dos povos por um sistema tecnológico, facilmente se chegaria a uma integração dos interesses do mercado em se comunicar com outras nações, promovendo a chamada “globalização”. De mercado, é claro.

Acontece que essa globalização perdeu os rumos esperados. A liberdade social que o liberalismo criou acabou voltando-se contra ele próprio, ao ponto de o mercado, através da política, ver-se obrigado a fazer uma limitação a essa liberdade.

Eis que, então, surge o projeto de lei norte americano SOPA (Stop Online Piracy Act), que visa à proibição da “pirataria” on-line. Essa pirataria consiste em ofensa à propriedade intelectual privada de autores sobre suas obras. Com o projeto aprovado, a internet perde metade de sua utilidade, e passa a ser vigiada.

Esse é o paradoxo. O próprio sistema de mercado e de consumo criou a tal “pirataria”, que nada mais é do que a promoção dos autores às mais longínquas audiências do mundo, sistema esse que é encabeçado pela própria globalização. Como globalizar informações sem que elas firam direitos de propriedade? As pessoas querem conhecer aquilo que irão consumir. E, de fato, a maioria das pessoas que “baixam” coisas da internet acaba por se apaixonar pelas coisas que sequer teriam conhecimento, não fosse a pirataria. Aquilo que não agrada, apesar de correr o mundo, não será consumido.

Dentro dessa nova realidade da pirataria, há os que se adaptaram, transformando aquilo que lhes onerava em algo extremamente rentável. Mas há também aqueles que não se adaptaram a essa nova realidade, e brigam para voltar à época em que tudo era restrito e controlado.

Esse paradoxo do mercado privado mostrou aquilo que a própria sociedade é atualmente. Criou-se, por esse excesso de liberdade e essa ferramenta de compartilhamento que é a internet, um sistema novo, além das fronteiras do grande capital, dos interesses privados. Em contraponto dos pressupostos liberais, querem que o Estado aja como Imperador para barrar as sangrias dos cofres privados. Ou seja, quando a coisa começa a apertar, eles querem um Estado atuante e repressor, algo próximo das regulamentações do Estado cubano.

Além da proibição de sites de compartilhamento de músicas e obras que não tenham direitos sobre a propriedade alheia, existe a sanção aos grupos econômicos de financiamento que contribuem com esses sites piratas. E o pior, qualquer página da internet tida como “suspeita” será derrubada, sem prévia ação judicial e aviso, promovendo uma restrição, inclusive, da crítica a qualquer outra maneira de ver o sistema de mercado que não seja do interesse do próprio mercado.

É de se ressaltar que a internet nos EUA estará livre disso, pois a lei se aplica somente aos outros países.

Creio que está surgindo uma proposta de sanção às liberdades propostas pelo próprio sistema de mercado, que é regida pelos interesses dos EUA, a grande potência econômica mundial. Terão sucesso nessa empreitada? Ou as manifestações coletivas na internet contra esse sistema conseguirão derrubar e vetar esse projeto?


Pois é, mercado, pariste um filho rebelde. Agora aguenta!

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Teatro Mágico, A Sociedade do Espetáculo e Revoluções Feitas pelas Redes Sociais


Juntando dois posts que fiz sobre os mesmos assuntos.

Trupe do Teatro Mágico


- Teatro Mágico e Sociedade do Espetáculo


A trupe Teatro Mágico, comandada por Fernando Anitelli, é uma das poucas coisas que eu consigo escutar atualmente com certo prazer. Casualmente li uma matéria falando deles na revista Caros Amigos. Depois assisti o clipe “Amanhã... Será?”, que se tornou viral na rede, sem, contudo, ligar a matéria lida ao vídeo visto. Quando juntei um com o outro, pude perceber o porquê de tamanho elogio do escritor daquela matéria.

Realmente, não só a voz, as vestimentas, as maquiagens, os instrumentos bem executados e as belas melodias me chamaram a atenção. O que mais me impressionou, em tempos de “Meteoro da Paixão”, foram as letras da trupe. De conteúdo completamente crítico e inteligente, as músicas conseguem fazer pensar, coisa muito rara na música mundial de hoje em dia.

Particularmente, são poucas coisas que eu ouço que têm menos de 20 anos. A maioria já tem mais de 40. Ainda que tenha apenas 23 anos, considero que vivo no maior declínio da música e das artes em geral.

De música atual, tenho escutado muito o Gotan Project, que traz uma pegada de tango com ritmo eletrônico. É bem bacana. Além disso, Reggae, muito Chico Buarque e samba, além de Blues, meu estilo favorito. Escutar samba e blues de qualidade com menos de 20 anos é quase impossível.

Fernando Anitelli
Mas o Teatro Mágico me fez repensar esse declínio na música - principalmente a nacional -, assim como também sobre a importância das redes sociais para o mundo atual. A TM conseguiu atingir um público imenso, mesmo que por detrás do mainstream, sem rádios e sem televisão. Alcançaram um público imenso e conquistaram minha audição, tanto pelas questões visuais – que, diga-se de passagem, são ducaralho -, quanto pelos outros atributos, pois sempre fui da opinião que música só se escuta. Teatro Mágico não faz música, faz arte!


Mas, a bem da verdade, eles só ganharam mesmo minha atenção depois que vi o nome do novo disco, “A Sociedade do Espetáculo”. Ver uma banda atual fazer política e ter um sucesso desses é no mínimo interessante, ainda mais usando no título o nome de um livro de um autor marxista.

Até Che Guevara eles citam: “endurecendo ternamente” (Amanhã… Será) – “Hay que endurecerte, pero sin perder la ternura jamás” (Che Guevara).

A Sociedade do Espetáculo é uma obra escrita, de autoria de Guy Debord (1931-1994). Debord era um bom intérprete de Karl Marx, e conseguiu traduzir muito bem as ideias do livro “O Capital”.

Conheci Debord de minhas andanças pelas literaturas de esquerda. Confesso que não li todo “A Sociedade do Espetáculo”, mas dei umas boas passadas pelas suas páginas.

A trupe ainda se inspira num dos melhores romancistas que eu já li, Hermann Hesse, escritor alemão, que retrata no livro “O Lobo da Estepe” as diversas personagens que temos de adotar no nosso quotidiano.

Com grande maestria, Teatro Mágico faz o mesmo, traduzindo a pós-modernidade à poesia da nova geração, os descendentes do capitalismo, das Ditaduras e das diferenças sociais.


- Breve histórico das manifestações culturais


As manifestações culturais costumam dizer muito sobre o que se passa em sua contemporaneidade, sobretudo a música. O Blues falava de escravidão, da tristeza do negro escravizado e, paralelamente, no Brasil, o samba faz também essas e outras críticas; o rock sobre as mazelas dos sistemas, sempre sendo transgressor da ordem; o rock and roll clássico/psicodélico sobre a experimentação das drogas sintéticas e contra as guerras, pelo discurso do “Paz e Amor”; o Reggae sobre o ufanismo da religião Rastafári e sua bela ideologia, assim como a música gospel dos EUA da época; e o movimento Punk, que era o mais revolucionário, mais anarquista e menos favorável qualquer coisa que fosse estatal.


- Da Atualidade


Nesse contexto, com o nosso Zeitgeist (espírito do tempo), a banda Teatro Mágico captura, em sua música “Amanhã… será?”, o espírito das manifestações revolucionárias que aconteceram no mundo recentemente. Já com um discurso bem crítico sobre o status quo, a banda - também com sua manifestação corporal, vez que se trajam como palhaços, com as expressões pintadas na face -, incorpora essa alma contestadora que remonta às antigas manifestações culturais revolucionárias de todas as épocas. (Revolucionárias no sentido de ser o contraponto ao conservadorismo, no sentido de mudar o que está no presente, buscando uma melhora social, como acontece nas manifestações contra os regimes totalitários do nosso século).

Creio que, se continuar nesse nível, a trupe poderá se tornar a grande revelação da década, pois conseguiram transcrever o que está acontecendo no mundo com uma linguagem e musicalidade bem jovem e atual, com letras bem construídas e maduras. Até porque eles proliferam sua arte pela internet, reduto dos novos pensadores.


- As Manifestações Cibernéticas



Dessa forma, a banda nos remete a outra manifestação bem atual. Diversas manifestações aconteceram no mundo nesse ano. Elas iniciaram de uma forma bem peculiar: pelas redes sociais. As redes sociais, antes usadas apenas para fazer amigos, fazer publicidade e mostrar as maiores babaquices da mente humana, ganharam outra finalidade: propagar uma ideia inteligente a muitas pessoas.

Revoluções do Egito
“Todo bit, byte e tera/será força bruta navegar/será nossa herança em terra!” (Amanhã... Será?).

As redes sociais deixaram de ser inocentes. Passaram a proceder diversas revoluções pelo mundo. Não sei onde especificamente tudo se iniciou, mas muitas coisas mudaram depois que jovens, que antes não tinham acesso às redes, passaram a utilizar a internet para mudar seu país. Isso se deu muito pela troca de informações e de reivindicações, comuns a todos os jovens que, entretanto, não podiam partilhar suas ideias nos meios tradicionais.

“O post é a voz que vos libertará/Descendentes tantos insurgirão/A arma, o réu, o véu cairá” (Amanhã... Será?).

Revoluções na Líbia
Há alguns anos uma blogueira já ganhava fama por conseguir burlar o sistema cubano de controle da internet e falar mal do gobierno de Cuba.

Agora, jovens derrubam governos totalitários no oriente, protestam a favor de minorias na Inglaterra e marcam encontros para protestar contra políticas neoliberais na Grécia.

“O sol reclama no Oriente/Brada a lua que ilumina/Rebelando orações e mentes” (Amanhã... Será?).

Ninguém pensava que a internet pudesse atingir objetivos dessa natureza. Mas os jovens, sempre descontentes com os problemas sociais e com o status quo, mostraram que podem muito mais que divulgar coisas comezinhas e idiotas; mostraram que a internet pode ser muito mais do que a publicidade comercial busca.

Interação entre pessoas pelas redes sociais

Facebook, Orkut, Twitter e outras redes têm o poder de organizar manifestos, ideias em prol de uma sociedade mais equânime e justa.

Captando isso, a banda Teatro Mágico entra para os livros de história como a poesia que sintetizou bem essa evolução, mesmo com um discurso já antigo.


Um bom exemplo de luta antiga que eles abordam é a música Canção da Terra, que versa sobre as questões de reformas agrárias e os sem-terras, marginalizados pela grande mídia e pelos defensores da propriedade privada. Belíssimas frases foram criadas, tais como: “No princípio o verbo se fez fogo. Nem Atlas tinha o globo. Mas tinha nome o lugar. Era terra, terra. E fez o criador a natureza; fez os campos e flores, fez o mar; fez, por fim, então, a rebeldia, que nos dá a garantia, que nos leva a lutar, pela terra, terra”.

Também preciosidades como: “Ser e ter o sonho por inteiro; ser sem-terra, ser guerreiro, com a missão de semear à terra. Mas, apesar de tudo isso, o latifúndio é feito inço, que precisa acabar, romper as cercas da ignorância, que produz intolerância. Terra é de quem plantar à terra, terra”.


Pretendo ver a trupe ao vivo, pois gostei nos vídeos do espetáculo que se faz no palco.

E espero continuar ouvindo a voz rouca de Anitelli cantando as belas coisas que compõe, assim como espero continuar vendo a juventude fazendo revoluções e se rebelando contra as coisas erradas.

Se as revoluções sociais feitas pelas mídias sociais e a música brasileira ainda têm jeito, creio que everything is gonna be alright.

Só faltamos nós, aqui do ocidente, sairmos de nossa zona de conforto, com nossos iPods, iPads e iPhones, fazendo a “comunidade viva insurrecer o valor da paz, endurecendo ternamente”. Amanhecerá e, amanhã, será!



sexta-feira, 24 de junho de 2011

A HISTÓRIA DAS COISAS

Bom, é a primeira – e talvez a única – vez que falarei bem da sustentabilidade em meu blog. Não que eu seja um consumista destrambelhado, muito longe disso. Mas não acredito nessa historinha sustentabilidade que a mídia propaga por aí. Serve mais para vender uma falsa imagem do que para proteger e preservar alguma coisa. Mas hoje é por uma boa causa!

Apresento aqui um dos melhores documentários sobre as consequências do capitalismo que eu já tive a oportunidade de ver.

Muitos males são causados pelo consumismo, mormente de produtos que são ostensivamente divulgados nos meios de comunicação em massa.

“A História das Coisas” (The Story of Stuff), de Annie Leonard, nos mostra todo processo de produção em coisas que compramos normalmente.

Nos mostra também que, vivendo em uma imensa euforia e utopia consumista, o homem não percebe o mal que faz à natureza e à sociedade. Destroem ecossistemas, habitats de animais em extinção, poluem rios, desmatam. Tudo em nome do que? De bens? De coisas?

Fala-se muito em sustentabilidade, mas pouco se faz efetivamente para modificar alguma coisa. No máximo, o prefixo “eco” serve como sofisma de empreendimentos imobiliários inescrupulosos.

O documentário já visto por 1.339,611 (versão dublada em português) de pessoas e tráz à baila todo nosso sistema de produção e consumo exagerado, de hábitos consumeristas irresponsáveis.

Não vou me estender muito, pois o documentário já diz tudo.

Fica a dica: antes de consumir, lembre-se onde vai parar seu produto,  descartável ou não, assim como seu esgoto.

Não seja enganado pela “seta dourada”. Faça sua parte. Concentre-se no que faz bem à vida. Ou pelo menos consuma sabendo da merda que acontece.



sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Eleições 2010 - Parte II - Por que existe a corrupção? – Brasil Democracia

Primeiramente, temos de lembrar, agora em época de eleições, como são feitas as campanhas eleitorais dos candidatos para deputado, senador ou presidente. O financiamento das milionárias campanhas provém de doações. Essas doações são feitas por pessoas afiliadas ao partido, pessoas que simpatizam com a proposta, mas, principalmente – e em maior quantidade -, por instituições privadas. Isso mesmo, empresas privadas como bancos, empresas de pavimentação asfáltica, grandes redes de supermercado, etc. E por que essas bondosas empresas fazem isso? Para ajudar a consolidar a democracia no país... putz! É para receber as “gratificações” pela doação da gratidão pelo eleito. Pense bem, quanto é preciso para divulgar em outdoors, panfletos, camisetas, bonés, carros de som, filmagens para o programa eleitoral, jingles, showmícios, viagens dos candidatos e outros artifícios do marketing político? Milhões de reais por partido, que, na sua maioria, escondem a origem desse dinheiro. A cada eleição são lavados milhões de reais, além dos interesses comprados pelas empresas.

Não gosto de citar números, nomes e datas, mas um bom exemplo dessa maracutaia toda é a empresa Cequipel, que em 2006 foi a maior doadora da campanha do ex-governador e candidato a Senador Roberto Requião, do PMDB. Foram R$ 645 mil. Misteriosamente a empresa, nos anos que se seguiram ao “investimento”, obteve um retorno bem maior ao vencer licitações. Em 2007, a Cequipel, Indústria e Comércio de Móveis, recebeu R$ 21 milhões em troca da compra de móveis para escritórios, quadros escolares e criou polêmica quando recebeu uma grana preta para a compra de televisores de 29 polegadas de tela plana. As crianças precisavam mais de TV que de merenda e material escolar, daí a polêmica.

Portanto, vemos a origem do mal corrupção no cargo público. Vemos de onde sai tanta falcatrua, lavagem de dinheiro e facilitação em licitações, o que é grave ilícito. Para quem não sabe, licitação é a concessão que o governo (governador ou prefeito), dá a alguma empresa para fornecer material necessário em alguma obra, ou na compra de materiais necessários, como pavimentação, construção, exploração, empreitadas, compra de armas para polícia, livros para escolas, entre outros. O certo seria escolher a que cobra mais barato para a obra, ou para a compra de um bem. Mas na prática não é bem assim que isso que acontece. Como vimos, uma empresa financia um candidato que, se eleito, dá uma mãozinha para essa empresa lucrar em cima de obras públicas, às vezes construindo com material de péssima qualidade, barateando o custo e aumentando o lucro (a cara do capitalismo). Vemos também que alguns políticos, de tão caras-de-pau, dão preferência a sua própria empresa. A Constituição brasileira proíbe que pessoas que exercem mantado sejam presidentes, donos ou administradores de empresas. Mas não fala nada de que parentes, cônjuges, e empresas na qual eles mesmos possam ser sócios, desde que não em cargo de liderança. Ou seja, os nossos eleitos podem ser sócios das empresas que eles mesmos facilitarão na hora da licitação. Isso se chama “puxar o assado para sua brasa”.

Então, cumpre ao eleitor, no quinhão de responsabilidade que lhe cabe, saber as financiadoras das campanhas dos eleitos. Prestar atenção à prestação de contas. E óbvio, investigar se esse candidato não é “ficha suja”. É assim que se exerce a cidadania, é assim que se faz uma democracia mais limpa, e não uma aristocracia velada, um Estado manipulado pelos grandes empresários.

Vi esses dias o filme Syriana, sobre a indústria do petróleo. Syriana é o termo pelo qual é conhecida a nova partilha política realizada pelos ganhadores da 2ª Guerra Mundial nos territórios e populações situados sobre os lençóis de petróleo do Oriente Médio. Ou seja, a coisa é muito maior do que pensávamos.

Estrelam atores como George Clooney, Matt Damon, e o diretor Stephen Gagham. O filme se originou de um livro de Robert Baer. Mostra a corrupção do petróleo nos EUA. Em um determinado momento, um promotor, que investiga a fusão de duas grandes empresas extratoras de petróleo em uma única e gigante, conversa com um sócio de uma empresa. Acontece um dos mais esclarecedores diálogos que já vi. O empresário fala que a corrupção é impressindível para o capitalismo. Sem a corrupção o sistema não tem como se mover. Sem burlar uma lei, as indústrias não podem crescer. Na situação ilustrada pelo filme, se criaria um monopólio, o que é proibido pela legislação americana (a nossa, inclusive, versa sobre monopólios também). Então, se fez um meche aqui, outro ali; matou-se um aqui, outro atentado ali; se criou uma guerra aqui, um tratado ali; uma teia de mentiras acobertando uma série de interesses... Assim se criou uma das maiores empresas de extração de petróleo do mundo. E nós nunca vamos saber de nada, pois temos a televisão, que é muito mais interessante.

OLHE EM VOLTA, VOCÊ ESTÁ SENDO ENGANADO!!!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Eleições 2010 - Quem vai ganhar o Oscar de melhor coadjuvante de Lula?

Prometi para mim mesmo que não iria falar dessas eleições no meu blog... não consegui! Mas prometo, serei breve e só criticarei àquilo que está muito na cara e que me incomoda muito.


Primeiramente, vou criticar o grande teatro que se instalou na televisão brasileira, mais intensamente no horário político gratuito (pois não são só os candidatos que concorrem ao prêmio). Não importa em quem vamos votar, o eleito será um ator, com certeza. Sim, um ator, que ganhará o Oscar de melhor ator coadjuvante de Lula, “O cara”. O marketing tomou conta da democracia. Hoje só importa o jingle mais pegajoso, a foto mais perto do Lula (nas piores montagens), e a melhor maneira de se prometer a mesma coisa. Plásticas, maquiagem, roupas elegantes, tudo isso faz parte do circo que se armou. Tudo para enganar, falsificar a própria imagem para a de uma pessoa de reputação ilibada. Até falsificação em curriculum lattes se fez! Que vergonha, Dilma não passa de uma graduada, e não doutorada, como constava no seu lattes anterior. Que ridículo Dilma, a maioria dos brasileiros são felizes por ter terminado, a muito custo, o fundamental – e foram esses que elegeram Lula. Não é quem lê o jornal que coloca o presidente “lá”, mas sim quem limpa a bunda com ele! Não há com que se envergonhar, mentir, aumentar.

Só para lembrar, Dilma esteve envolvida no sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, em 4 de setembro de 1969, no Rio de Janeiro, pois era também uma ativista política naquela época. Não poderia deixar de ser, ela era da UFRGS. Mas isso também não é motivo para se depreciar. Digo que até deveria ser uma das plataformas de campanha. Estavam envolvidos também o Zé Dirceu, Onofre Pinto, Fernando Gabeira, e tantos outros conhecidos da política tupiniquim. Poucos sabem, mas Nelson Mandela era líder rebelde, matou centenas de inocentes em atos de terrorismo contra o governo da África do Sul, bem como participou de sequestros e sabotagens como forma de pressionar o então governo opressor. Era um Che sul-africano contra o apartheid. Isso faz parte da história, luta de classes, do oprimido contra o opressor. Isso tem de ser divulgado, pois “Madiba” conseguiu ser libertado de sua prisão perpétua e se tornou presidente e ícone da luta pelos direitos humanos, tanto que ganhou Nobel da Paz, em 1993. Lembro também o santo Gandhi, que lutou, mas como satiagraha, com a não-violência, conseguindo expulsar, depois de muitos companheiros mortos pelos soldados da rainha, a grã Bretanha, então colonizadora da Índia. Vale recordar que esse nunca ganhou prêmio algum, mesmo nunca matando nem deixado que guerras injustas permaneçam, como nosso último premiado pelo Nobel da Paz (a saber, presidente Obama).

(Esclarecendo, sou a favor da luta armada em tempos de exceções, pois é só dessa forma que será feita a revolução, e satiagraha não se repetirá. Se não, continuaremos nesse mundo de ilusões que vivemos na nossa “classe média”, confortáveis e com o cu na mão)
Lembro também que Dilma, assim como Serra e Plínio de Arruda Sampaio, nasceu em berço esplêndido. Creio que desses, Plínio fosse o mais abastado. Mas também acredito que somente esses são os legitimados para por em prática o socialismo. Somente os que nascem em classe média é que podem ter uma visão menos apaixonada, e, portanto, mais racional dos problemas sociais. Eles não tiveram a dificuldade do pobre, mas buscaram sabê-la, mesmo tendo uma vida boa (assim com Sidarta, o Buda). Eu, por exemplo, como dizem meus amigos, sou um socialista de Rolex. Não que eu tenha um, óbvio, mas dizem por eu não ser um “mulambo” que pede esmolas, e por isso não posso ser uma pessoa preocupada com a questão social do mundo. Um argumento vazio. Não posso defender a causa homossexual por não ser gay? Nem defender a erradicação do analfabetismo por saber ler e escrever? Tampouco posso me revoltar com o preconceito racial, já que sou branco, não é?

Um desses meus amigos (um dos melhores), ou melhor, inimigo íntimo de acirrados debates, disse, certa feita, que o Mc Donald's, no chamado “Dia do Câncer”, contribui mais para a sociedade do que o Greenpeace, o qual sou afiliado. Claro, que ele deve desconhecer que a carne usada para confeccionar os deliciosos hambúrgueres do Mc é proveniente da Amazônia, aquele quintal norte americano que esta sendo desmatado, queimado e ceifado do mapa brasileiro para criação de gado de corte. Mas isso ninguém gosta de saber. Então, paradoxalmente, eles ajudam o tratamento de doenças que eles mesmos ajudam a causar. Ironia ianque.

Continuando, acredito que o pobre, aquele que não teve condições a uma educação digna, não tem suporte para estabelecer uma revolta com os parâmetros intelectuais de uma pessoa que pôde estudar em colégios melhores. Eu, inclusive, estudei em escola particular até a 6ª série. Não tive melhor ensino na escola pública na 7ª série - até porque comecei a descobrir a malandragem da vida. Só para constar, sou de classe-média-média, mas tive um grande exemplo da guerra contra o autoritarismo dentro de casa, o meu avô. Meu avô participou de tantos manifestos quanto os presidenciáveis que citei. Foi preso, pressionado psicologicamente, expulso do exército, anistiado... foi um espírito rebelde de sua época, em que haviam os dominadores, os dominados condescendentes e esses que lutavam contra o status quo. Por isso posso dizer que sou legitimado a falar dos problemas sociais, pois tive exemplos e não tive a preguiça de me deixar iludir com esse panis et circus que a mídia propaga. Não só quero falar e criticar, como pretendo servir nesse sentido, assim que formado e togado como magistrado, pois creio que terei melhor visibilidade e ouvidos quando tiver uma posição social mais relevante. Mas, ainda sem ser juiz, tento subverter a mente preguiçosa de alguns amigos, mostrando que o mundo não é uma Disneylândia, e que um modelo de sociedade baseada no capitalismo neoliberal não é a melhor maneira de se viver. E é aí que eu entro com outra crítica ao tema central da postagem.

Plínio é um anti-herói, é o anticandidato dessa eleição. É o cara que vai mostrar, mesmo não tendo chances de se tornar presidente, que há outra solução além da que o Lula profetizou. Ele está aí para dizer que existe outra maneira de se ter uma sociedade equânime e justa. Tenta explicar em seu plano os assuntos que ninguém quer tocar. Darei um exemplo, próximo de nós gaúchos: a educação é o instituto mais perigoso para um governo de dominantes. E por quê? Um governo dura 4 anos, e nós eleitores não temos uma memória muito boa, então, mesmo que seja reeleito um candidato, a educação sempre é deixada de lado. Um governo de 4 anos corresponde a um aluno que entra na 1ª série e chega a 4ª do fundamental, ou um que sai da 8ª do fundamental e conclui com o 3º ano do ensino médio. Aquele não tem idade para votar, tampouco se preocupa com política, acha coisa chata de adulto; esse está na adolescência efervescente, e acha que todos os políticos são ladrões, não conhece nenhum, tem idade para votar, mas, como é facultativo, não perde tempo indo às urnas. E é claro, está muito mais preocupado com a namoradinha, o líder do BBB, a mocinha da novela, o artista da moda e a roupa que todos estão usando. Ou seja, não passa de um estereótipo pré-programado. Então, por essa razão, o professor continua mal pago, as escolas públicas continuam sucateadas, os alunos continuam mal tratados e feitos de idiotas, com matérias ultrapassadas e que não acrescentam em nada a visão crítica que se deveria criar, e as faculdades públicas continuam habitadas somente por filhinhos de papai que tem grana para pagar um cursinho. Alguns professores, os menos frustrados, conseguem passar algo para os alunos, os quais eu tive poucos na minha época de escola. É uma estratégia política. Eles fazem asfalto, obras de viação, criam estímulos para empresas prosperarem e contratarem mão de obra e empregos (aquela que não possa ser substituída por máquinas), colocam polícia na rua - que dá impressão de segurança (mas continuam pagando uma miséria pelo risco que eles correm) -, anunciam grandes descobertas, como o pré-sal (o futuro vazamento de petróleo, como o dos EUA) e as usinas elétricas (futuros acidentes como Chernobyl), e etc, coisas que são visíveis e fáceis de manipular, coisas que são imediatas e dão impressão de produção. Mas aquilo que vai fazer o povão começar a pensar, aquilo que vai fazer o povão sair da frente do Big Brother e ir reivindicar, aquilo que vai criar uma sociedade mais consciente de seu espaço no mundo e as consequências que isso gera, nisso eles nunca vão investir. Na minha época de escola pública faltavam professores (e algumas matérias eu não tive por essas faltas), outras foram abolidas da grade curricular, como a Geografia no 3º ano. Algumas matérias estão fadadas a extinção, visto que o estímulo que leva alguns corajosos a se arriscarem nela é cada vez menor. Quanto pode ganhar um filósofo, um historiador, um filólogo? Na maioria são todos muito mal pagos pela importância que têm. Isso tudo foi feito para que eu e você se acostumasse com tudo que é empurrado goela a baixa. Mas, por uma infelicidade do destino, eu não sou assim. Se você leu até aqui, também não é, ou não quer ser.
Nossa então governadora, ora candidata a reeleição, é uma dessas que aprova a luta pelos direitos, a livre manifestação. É só ver o que aconteceu no protesto dos professores na capital gaúcha. Pergunte aos profissionais do ensino o que eles receberam em troca do grito de indignação... PORRADA, foi isso que levaram. Claro que sempre amparados pelo jornalismo imparcial da RBS, filial da toda poderosa Globo.
Foi o embate dos mal pagos policiais da Brigada Militar, contra os mal pagos professores da rede pública. Uma briga de funcionários públicos que servem à sociedade. Isso, por mais incrível que seja, não pode ser aceitável.

(Alguns vão dizer que me contradisse em afirmar que só os abastados tinham chance de colégios melhores, então somente esses podiam criar, intelectualmente, a revolução. E que os pobres, que têm uma educação falha e parca, não teriam o suporte. Esclareço. Os pobres têm a escola pública. Se esta melhorar, então eles terão o suporte para melhorar as condições de vida da sua família, seja por votarem melhor, seja por pensarem melhor, fazendo com que se crie também um ambiente propício para a criação de um filho consciente, crítico. Explicado, portanto, a lógica de meu raciocínio.)

“Você está sendo enganado, é só olhar em volta!”, é o que está escrito em uma pichação que li esses dias no muro da Mauá, aquele que separa Porto Alegre do Cais do Porto. Esse lago que vai ser privatizado, se tornando privilégio dos sortudos compradores dos apartamentos e estabelecimentos que vão construir ao longo da orla. Vai virar uma Camboriú.

Finalizando...

Usei a desculpa da crítica às eleições para explanar outras coisas que vejo que estão erradas, mas isso faz parte do jogo.

Eu faço parte da parcela ínfima da sociedade que, perto do resto, fica menor do que a pontuação que agora usarei: . Sei que serei criticado sempre, pois o passado do socialismo não é dos melhores, apesar de o capitalismo ser tão prejudicial quanto, mas ter uma boa forma de máscara: a mídia.

O passado é uma história que ninguém quer resgatar, mesmo que nós fossemos aprender algo com isso. Mas com luta e com cerceamento de liberdades em favor do bem comum, chegaremos à equidade, à igualdade, à fraternidade e ao verdadeiro progresso: o que vem de dentro para fora.

Em outro post eu falo sobre as eleições. De verdade!