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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

E agora, o que eu vou fazer se te amo?


Eu gosto de ver como algumas músicas se parecem nas letras. Mas gosto mais ainda de transformar duas ou mais letras que se parecem em uma só canção, como fiz em "Francis e Cristina" e "A História do Menino Jesus". É o que eu fiz nessa, juntei "N", do Nando Reis, com "Eu te amo", do Chico Buarque.











E agora, o que eu vou fazer?
Se já perdemos a noção da hora,
Se juntos já jogamos tudo fora,
Se os seus lábios ainda estão molhando os lábios meus
E as lágrimas não secaram com o sol que fez,
Me conta agora como hei de partir?


E agora como posso te esquecer?
Se ao te conhecer dei pra sonhar, fiz tantos desvarios,
Rompi com o mundo, queimei meus navios,
Se o teu cheiro ainda está no travesseiro
E o teu cabelo está enrolado no meu peito,
Me diz pra onde é que inda posso ir?


E agora, como eu passo sem te ver?

Se o seu nome está gravado no meu braço como um selo,
Nossos nomes que tem o "N" como um elo,

Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas,
Diz com que pernas eu devo seguir?


E agora como posso te perder?
Se entornaste a nossa sorte pelo chão,
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu,
Se o teu corpo ainda guarda o meu prazer
E o meu corpo está moldado com o teu?
Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas...


Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu?


Como, se nos amamos feito dois pagãos,
Teus seios ainda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair?


Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

ROCK PAI POP FILHO - ZECA BALEIRO

Falei de música esses tempos. Agora, postarei um artigo do grande Zeca Baleiro, compositor bem brasileiro que, a primeira vista, tem a mesma opinião que eu (ou nós).




Segue o artigo publicado na revista ISTOÉ Independente, http://www.istoe.com.br/colunas-e-blogs/colunista/4_ZECA+BALEIRO, sem data.



ROCK PAI POP FILHO

Por Zeca Baleiro

Foi o rock que arrombou a porta e por essa picada aberta agora desfila um teatro de horrores sem estofo e a serviço de uma triste ideologia

O rock surge na década de 50, depois da Segunda Guerra, em meio à desolação do mundo e à necessidade de recriá-lo. O rock vem com a força de um furacão e mexe de forma definitiva no comportamento das pessoas e com a indústria cultural como nunca dantes visto. É transgressor, subversivo, questionador, abusado, rompe com valores estabelecidos, afronta a caretice vigente. A eclosão do rock coincide com o surgimento da televisão e é a pedra filosofal do que se conhecerá adiante como cultura pop.

Chego então aos tempos de hoje. Para constatar como a cultura pop, criada a partir do advento do rock’n’roll, foi-se diluindo, diluindo até chegar a um ponto que equivale à sua própria negação. “O que ontem era novo, hoje é antigo”, já atestava o poeta Belchior nos anos 70. Seu verso poderia ­derivar para “o que era transgressor hoje é careta”, tamanha a inversão de valores que há no mundo atualmente.

Pois o “Big Brother” e todos os sórdidos reality shows que infestam a tela da tevê, a publicidade cínica vestida de rebeldia cosmética, o circo do show biz e seu ridículo manual de atitudes, a pândega vale-tudo dos programas de humor, o rock programático e meloso das bandas emo, tudo que existe de mais acintosamente anti-rock’n’roll no mundo hoje é, por incrível que pareça, cria do rock. Foi o rock que arrombou a porta e por essa picada aberta agora desfila um teatro de horrores sem estofo e a serviço de uma triste ideologia: o benefício próprio, o enriquecimento fácil, o culto à fama mais que ao trabalho, a desmoralização de toda e qualquer virtude, o desprezo pelo passado e pela memória e o hedonismo mais perverso e sem charme de todas as eras. Se o rock lutava contra o estado de coisas do seu tempo, seus herdeiros lutam para manter as coisas como estão.

Caos x cosmo
Os místicos creem que após todo caos surge um cosmo, como os historiadores sabem que após toda idade de trevas surge uma nova era luminosa. Nunca porém o mundo ­esteve envolto nesta névoa de instantaneidade e fugacidade que a tecnologia digital nos trouxe. Em nenhuma outra ­época a ditadura do presente e a conectividade foram tão valorizadas como agora, por um motivo talvez banal: há ­ferramentas para isso. “Se há ferramentas, por que não ­usá-las?” – perguntam-se todos.

Conheço umas três ou quatro pessoas que optaram por não ter celular. Engana-se quem pensa que vivem no mato, como ermitões em busca da paz e da sabedoria perdidas. Não, são pessoas urbanas, ativas e ligadas à comunicação. Não têm celular para não perderem outra conexão, mais cara a elas: a conexão consigo próprias.

O mundo hoje é pura evasão. Não à toa, há um boom ­notável no turismo internacional. A arte aspira ser só entretenimento. E a informação transformada em espetáculo. Mesmo territórios quase sagrados, como a literatura, agora vivem no fio da navalha. Recentemente foi publicada bombástica notícia. Dois adolescentes adaptaram clássicos da literatura universal para o Twitter. Ou seja, transformaram a literatura no oposto do que ela pretende ser. O que era fruição lenta, reflexiva, prazerosa e gratuita, agora é expressa, rasa e a serviço da performance, do tipo “ganha quem ler mais!”...

O mundo futuro será alimentado de informações segundo a segundo. Eventos interativos a todo instante. Tudo dividido entre todos os mortais. Menos o dinheiro, o afeto e o respeito.