segunda-feira, 30 de maio de 2011

O Voto do Marceneiro - Desembargador José Luiz Palma Bisson


Quando alguém procura à justiça para dirimir uma lide, isso tem um preço. São gastos do Judiciário que são pagos pelo autor no momento da distribuição do processo e pelo perdedor do processo, após o término da causa. Para ajuizar uma ação, é preciso pagar um valor inicial. Por isso, pessoas sem dinheiro, pobre na acepção jurídica e real da palavra, pedem AJG, que significa Assistência Judiciária Gratuita. Sob a guarida da AJG, tanto a pessoa que busca a justiça, quanto àquela que perde a ação, podem se isentar de pagar as custas processuais. Basta pedir AJG na inicial ou na contestação (ou a qualquer momento do processo).


Acontece que alguns juízes não entendem ser assim tão simples “pedir e receber”. Alguns desses juízes, ainda mais duros pela grossa camada de burocracia cerebral e excesso de formalismo, acabam por indeferir o AJG para todos que não comprovarem documentalmente sua pobreza.

E foi justamente o que aconteceu num caso em Marília, em São Paulo. Um menino, filho de um marceneiro que morreu em um acidente de trânsito, que pedia indenização de um salário mínimo, mais danos morais pela perda do pai contra o motoqueiro que lhe matou, teve negado o seu pedido de AJG porque não provou sua condição de pobreza, ainda mais por que escolheu um Advogado particular para defendê-lo.

Pedindo reforma da decisão, o Advogado entrou com um agravo de instrumento, que é um recurso que busca retificar uma decisão interlocutória no decorrer do processo, buscando o deferimento da AJG para o menino.

Foi então que, distribuído por sorteio, o recurso cai nas mãos do Desembargador José Luiz Palma Bisson, do TJSP.

No seu voto vemos a classe e sensibilidade desse Desembargador ao tratar da condição do menino, não se limitando apenas a prover ou desprover o recurso. Como me tocou muito esse voto, emotiva e processualmente, me senti na obrigação de compartilhar isso.

Segue a decisão in verbis, a qual eu acompanho o relator:

“É o relatório. Que sorte a sua, menino, depois do azar de perder o pai e ter sido vitimado por um filho de coração duro - ou sem ele -, com o indeferimento da gratuidade que você perseguia. Um dedo de sorte apenas, é verdade, mas de sorte rara, que a loteria do distribuidor, perversa por natureza, não costuma proporcionar. Fez caber a mim, com efeito, filho de marceneiro como você, a missão de reavaliar a sua fortuna.

Aquela para mim maior, aliás, pelo meu pai - por Deus ainda vivente e trabalhador - legada, olha-me agora. É uma plaina manual feita por ele em pau-brasil, e que, aparentemente enfeitando o meu gabinete de trabalho, a rigor diuturnamente avisa quem sou, de onde vim e com que cuidado extremo, cuidado de artesão marceneiro, devo tratar as pessoas que me vêm a julgamento disfarçados de autos processuais, tantos são os que nestes veem apenas papel repetido. É uma plaina que faz lembrar, sobretudo, meus caros dias de menino, em que trabalhei com meu pai e tantos outros marceneiros como ele, derretendo cola coqueiro - que nem existe mais - num velho fogão a gravetos que nunca faltavam na oficina de marcenaria em que cresci; fogão cheiroso da queima da madeira e do pão com manteiga, ali tostado no paralelo da faina menina.

Desde esses dias, que você menino desafortunadamente não terá, eu hauri a certeza de que os marceneiros não são ricos não, de dinheiro ao menos. São os marceneiros nesta terra até hoje, menino saiba, como aquele José, pai do menino Deus, que até o julgador singular deveria saber quem é.

O seu pai, menino, desses marceneiros era. Foi atropelado na volta a pé do trabalho, o que, nesses dias em que qualquer um é motorizado, já é sinal de pobreza bastante. E se tornava para descansar em casa posta no Conjunto Habitacional Monte Castelo, no castelo somente em nome habitava, sinal de pobreza exuberante.

Claro como a luz, igualmente, é o fato de que você, menino, no pedir pensão de apenas um salário mínimo, pede não mais que para comer. Logo, para quem quer e consegue ver nas aplainadas entrelinhas da sua vida, o que você nela tem de sobra, menino, é a fome não saciada dos pobres.

Por conseguinte um deles é, e não deixa de sê-lo, saiba mais uma vez, nem por estar contando com defensor particular. O ser filho de marceneiro me ensinou inclusive a não ver nesse detalhe um sinal de riqueza do cliente; antes e ao revés a nele divisar um gesto de pureza do causídico. Tantas, deveras, foram as causas pobres que patrocinei quando advogava, em troca quase sempre de nada, ou, em certa feita, como me lembro com a boca cheia d'água, de um prato de alvas balas de coco, verba honorária em riqueza jamais superada pelo lúdico e inesquecível prazer que me proporcionou.

Ademais, onde está escrito que pobre que se preza deve procurar somente os advogados dos pobres para defendê-lo? Quiçá no livro grosso dos preconceitos...

Enfim, menino, tudo isso é para dizer que você merece sim a gratuidade, em razão da pobreza que, no seu caso, grita a plenos pulmões para quem quer e consegue ouvir.

Fica este seu agravo de instrumento então provido; mantida fica, agora com ares de definitiva, a antecipação da tutela recursal.

É como marceneiro voto.

PALMA BISSON - Relator Sorteado”.

sábado, 16 de abril de 2011

Francis e Cristina - outra homenagem minha a Chico Buarque

Francis e Cristina eram um casal de amigos meus. Francis era meu amigo de infância. Cristina era colega da faculdade e minha confidente. Eles se conheceram por mim. Mas no fim, não souberam aproveitar a oportunidade. Certa feita, soltando os monstrinhos que tinham dentro de si, um para devorar o outro, brigaram sem fim...

Na briga ele disse a ela assim:

Eu tinha alguém que comigo morava. Mas tinha um defeito que brigava, com razão ou sem razão.
Encontrei um dia uma pessoa diferente, que me tratava carinhosamente. Dizendo resolver minha questão. Mas não!

Foi assim, troquei essa pessoa que eu morava por essa criatura que eu julgava que pudesse compreender todo meu eu.
Mas no fim, fiquei na mesma coisa em que estava, porque a criatura que eu sonhava não faz aquilo que me prometeu.

Não sei se é meu destino. Não sei se é meu azar. Mas tenho que viver brigando.
Todos no mundo encontram seu par. Porque só eu vivo trocando?

Se deixo de alguém, por falta de carinho, por brigas e outras coisas mais, quem aparece no meu caminho tem sempre os defeitos iguais. 


Ela respondeu, relembrando o passado disse:

Eu lembro como se fosse hoje. Como num romance você, o homem dos meus sonhos, me apareceu no dancing. Era mais um.

Só que num relance, seus olhos me chuparam feito um zoom.

Me comia com aqueles olhos de comer fotografia. Eu disse cheese.
E de close em close fui perdendo a pose, até sorrir, feliz.

Você voltou me ofereceu um drinque. Me chamou de anjo azul.
Minha visão foi desde então foi ficando flou.
Como no cinema, você me mandava às vezes, uma rosa e um poema.
Eu, feito uma gema, fui me desmilinguindo toda ao som do blues.

Abusou do scotch, disse que meu corpo era só teu aquela noite. Eu disse please!
De xale no decote, disparei com as faces rubras e febris.

Você voltou no derradeiro show, com dez poemas e um buquê. Eu disse adeus, Já vou com os meus numa turnê.

Como amar esposa, você disse que agora só me amava como esposa, não como star.
Me amassou as rosas, me queimou as fotos, me beijou no altar.

Nunca mais romance, nunca mais cinema, nunca mais drinque no dancing, nunca mais cheese. Nunca uma espelunca. Uma rosa nunca, nunca mais feliz.


Ele, arrependido, dizia:

E eu!
Tive pra mim: agora sim eu vivia enfim o grande amor. Mentira!
Me atirei assim de trampolim fui até o fim um amador.
Passava um verão a água e pão, dava o meu quinhão pro meu grande amor. Mentira!
Eu botava a mão no fogo então com meu coração de fiador.

Fui muito fiel, comprei anel, botei no papel o grande amor. Mentira!
Reservei hotel, sarapatel e lua-de-mel em Salvador.
Fui rezar na Sé pra São José, que eu levava fé no grande amor. Mentira!
Fiz promessa até pra Oxumaré de subir a pé o Redentor.

Ela, já desesperada, suplicava:

Meu amor, pense em mim.
Você tem um jeito manso que é só seu. Me deixa louca quando me beija a boca. A minha pele toda fica arrepiada quando me beija com calma e fundo, até minh'alma se sentir beijada.
Rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos com tantos segredos lindos e indecentes.
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo e me crava os dentes.

Você me deixar maluca quando me roça a nuca e quase me machuca com a barba malfeita.
O jeito de pousar as coxas entre as minhas coxas quando se deita.
O jeito de me fazer rodeios, de me beijar os seios, me beijar o ventre e me deixar em brasa.
Desfruta agora do meu corpo como se o meu corpo fosse a sua casa.
Eu sou sua menina e você é o meu rapaz. Meu corpo é testemunha do bem que você me faz.

Ele, firme na decisão, era conciso:

Não!
Já lhe dei meu corpo, minha alegria. Já estanquei meu sangue quando fervia.
Olha a voz que me resta! Olha a veia que salta! Olha a gota que falta pro desfecho da festa!
Por favor, deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa.

Quando você chora não sei se é dos olhos para fora, não sei do que ri.
Eu não sei se você agora está fora de si, ou se é o estilo de uma grande dama.
Não sei se está mesmo aqui, quando se joga na minha cama.
Deixe em paz meu coração que ele é um pote até aqui de mágoa.
Te falei, qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d'água.

Quando você mente não sei se deveras sente o que mente para mim.
Serei eu meramente mais um personagem efêmero da sua trama sem fim?

Quando você, vestida de preto, dá-me um beijo seco, prevejo meu fim.
E a cada vez que o perdão me clama, se joga na cama, mas nem sei se estais aqui.

Eu não sei se você sabe o que fez, quando fez o meu peito querer cantar outra vez.
Quando jura, não sei por que Deus você jura, que tem coração.
Te repeti, diversas vezes, qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d'água.
E você não deixou em paz meu coração e ele hoje é um pote até aqui de mágoa.

Ela, já chorando:

Quando você me deixou pela primeira vez, meu bem, olhaste bem nos olhos meus.
Me disse pra ser feliz e passar bem. Teu olhar era de adeus.

Juro que não acreditei. Eu te estranhei.
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei. Me arrastei e te arranhei e me agarrei nos teus cabelos, no teu peito, nos teus pelos, teu pijama, nos teus pés ao pé da cama.

Sem carinho, sem coberta, no tapete atrás da porta, reclamei baixinho.
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci.
Mas depois, como era de costume, obedeci.

Agora vou maldizer o nosso lar. Sujar teu nome, te humilhar.

Ele, irredutível, afirmava:

Eu só lhe fizesse o bem. Talvez fosse um vício a mais, mas você me teria desprezo por fim.
Porém não fui tão imprudente e agora não há francamente motivo pra você me injuriar assim.

Dinheiro não lhe emprestei, favores nunca lhe fiz. Não alimentei o seu gênio ruim.
Você nada está me devendo, por isso, meu bem, não entendo, porque anda agora falando de mim?
Você levou meu sorriso no seu sorriso. Meu assunto. Levou junto ele com o que me é de direito.
Arrancou-me do peito. E tem mais, levou seu retrato, seu trapo, seu prato. Que papel!
Uma imagem de são Francisco e um bom disco de Noel.

Você matou nosso amor. De vingança, nem herança deixou.
Não levou um tostão, porque não tinha não. Mas causou perdas e danos.
Levou os meus planos; meus pobres enganos; os meus vinte anos; o meu coração.
E além de tudo, me deixou mudo, um violão.
Você faz cinema, você é assim.
Porém eu sei viver sem. E fim.

Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim. Não me valeu. Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim? O resto é seu.

Trocando em miúdos, pode guardar as sobras de tudo que chamamos de lar.
As sombras de tudo que fomos nós. As marcas de amor nos nossos lençóis.
As nossas melhores lembranças. Aquela esperança de tudo se ajeitar.

Pode esquecer aquela aliança, você pode até empenhar, ou derreter.
Mas devo dizer que não vou lhe dar o enorme prazer de me ver chorar.

Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago: meu peito tão dilacerado.
Aliás, aceite uma ajuda do seu futuro amor pro aluguel.

Mas me devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu.
Amanhã eu bato o portão sem fazer alarde e levo a carteira de identidade. Uma saideira, certa saudade.
E a leve impressão de que já vou tarde.

Ela, com raiva e decidida, então sentenciou:

Quando você me quiser rever, já vai me encontrar refeita, pode crer.
Olhos nos olhos, quero ver o que você faz. Ao sentir que sem você eu passo bem demais.
E que venho até remoçando. Me pego cantando sem mais nem por que. E tantas águas rolaram. Quantos homens me amaram bem mais e melhor que você.
Quando talvez precisar de mim, ‘cê sabe que a casa do Bonfim é sempre sua, venha sim. Seus olhos nos meus olhos, quero ver o que você diz. Quero ver como suporta me ver tão feliz.

Vou vingar a qualquer preço. Te adorando pelo avesso...

Pra mostrar que inda sou tua...

Só pra provar que inda sou tua...


Desvanescendo-sem em mágoas às lágrimas...

No outro dia, Francis veio conversar comigo. Inconsolável, conversamos:

Se ela ainda tem seu endereço, ou se lembra de você, confesso que não perguntei.
Mas se você quer mesmo saber por que que ela ficou comigo, eu digo que não sei.

Ah! As nossas noites eram feito oração na catedral. Não cuidamos do mundo um segundo sequer. Que noites de alucinação passei dentro daquela mulher. Com outros homens, ela só me diz que sempre se exibiu e até fingiu sentir prazer. Mas nunca soube antes de mim que o amor ia longe assim.

Não foi você quem quis saber?

Ando com minha cabeça já pelas tabelas. Claro que ninguém se importa com minha aflição.
Será que Cristina volta? Será que fica por lá?
Será que ela não se importa de bater na porta pra te consolar?

Noite e dia me pergunto, meu assunto é perguntar.
Esses dias, quando vi todo mundo na rua de blusa amarela, eu achei que era ela puxando o cordão.

É tanta saudade, é pra matar! Eu fico até doente!
Se eu não mato a saudade...
...É, deixa estar, saudade mata a gente.

Danço de blusa amarela, pois minha cabeça talvez faça as pazes assim.
Quando ouvi a cidade de noite batendo as panelas, eu pensei que era ela voltando prá mim.

Será que Cristina volta?
Sei lá se ela quer voltar?
Será que Cristina volta.
Será que fica por lá?

Minha cabeça de noite batendo panelas provavelmente não deixa a cidade dormir.
Quando vi um bocado de gente descendo as favelas, eu achei que era o povo que vinha pedir a cabeça de um homem que olhava as favelas.

Quando vi a galera aplaudindo de pé as tabelas, eu jurei que era ela que vinha chegando com minha cabeça já pelas tabelas.

Imagina sua cabeça rolando no Maracanã?

Cheio de saudades suas procuro nas ruas quem saiba informar. Uns sorrindo fazem pouco, outros me tomam por louco. Outros passam tão depressa que não podem me escutar

Será que Cristina volta, será que ela vai gostar?
Será que nas horas mais frias das noites vazias não pensa em voltar?
Será que vem ansiosa, será que vem devagar?

Mas, claro que ninguém se importa.

Quis saber o que é o desejo, de onde ele vem. Fui até o centro da Terra e é mais além. Procurei uma saída e amor não tem. Estou ficando louco, louco de querer bem.
Quis chegar até o limite de uma paixão. Baldear o oceano com a minha mão.
Encontrar o sal da vida e a solidão. Esgotar o apetite, todo o apetite do coracão
Mas voltou a saudade. É pra ficar, aí eu encarei de frente.

Se você ficar na saudade, é deixa estar. Saudade engole a gente.


Depois conversei com ela, que me disse assim:

Quando o Francis querer me vir, estou certa que há de vir atrás. Há de me seguir por todos, todos, todos, todos os umbrais.

E quando o seu bem querer mentir que não vai haver adeus jamais.
Há de responder com juras, juras, juras, juras imorais.


E quando ele querer sentir que o amor é coisa tão fugaz, há de me abraçar com a garra. A garra, a garra, a garra dos mortais.

E quando o seu bem querer pedir pra você ficar um pouco mais, há que te afagar com calma. A calma, a calma, a calma dos casais.


E quando o meu bem querer ouvir o meu coração bater demais, há de me rasgar com a fúria. A fúria, a fúria, a fúria assim dos animais.

E quando o seu bem querer dormir, tome conta que ele sonhe em paz, como alguém que lhe apagasse a luz, vedasse a porta e abrisse o gás.

Continua...

sábado, 9 de abril de 2011

A História do Menino Jesus

Adaptado por Rafael Rivas



Segundo contou minha mãe, quando eu era criança era um pouco dele, meu pai, uma eterna lembrança.


Tudo começou num bar. Ali, eles dois se amaram num só olhar. Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar. Eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar. Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente. E minha mãe se entregou a esse homem perdidamente.


Sem ao menos esperar ele teve de ir embora, assim de repente. Disse que deveria enfrentar tempestades, valentemente.


Na partida, deixou as seguintes palavras de despedida: “Quem me dera ficar meu amor, de uma vez. Mas escuta o que dizem as ondas do mar. Seu eu me deixo amarrar por um mês na amada de um porto, noutro porto outra amada é capaz de outro amor arranjar. Ah, a minha vida, querida, não é nenhum mar de rosas. Chora não, vou voltar”. 


Secando as lágrimas no cais, ela assim disse, pra nunca mais: “Quem me dera amarrar meu amor por quase um mês, mas escuta o que dizem as pedras do cais, marujo cortês. Volte, assim como estais. Volta sim, e segue em paz”.


Ele assim como veio partiu não se sabe pra onde, deixando minha mãe com o olhar cada dia mais longe. Ela se despediu dele, que em um barco partia, bem onde ele jurou que voltaria. E ela, encharcada em prato, jurou que esperaria.


Esperando, parada, pregada na pedra do porto, com seu único velho vestido cada dia mais curto, ela então cantarolava uma música que falava do mar, da saudade que sentia e da amargura de tanto amar:

“Tristeza, por favor, vá embora. A minha alma que chora, está vendo o meu fim. Fez do meu coração a sua moradia. Já é demais o meu penar. Quero voltar àquela vida de alegria. Quero de novo cantar”… e com voz embargada, cantarolava o refrão: “la ra rara, la ra rara, la ra rara, rara. Quero de novo cantar”.


E assim permanecia ali, a esperar, sempre no cais. Usava o mesmo vestido, pois, se ele voltasse, não iria se enganar. Aguentava bem forte, mesmo não sendo capaz. O marujo de ouro no dente, que tempestades enfrentava, e com todas as mulheres falaz.


Mais de mil luas se passaram e o tempo se escorreu. Ela pensava que o barco virara e que seu amor no mar morreu. Mas então, prenhe de esperança, lembrava-se dos dizeres. E assim seus olhos se encheram de amanheceres.


Sozinha no esquecimento, com seu espírito ao relento. Sozinha, com seu amor em mar, no porto a esperar.


Quando enfim eu nasci, minha mãe embrulhou-me num manto.  Vestiu-me como se eu fosse assim uma espécie de santo. E não sei bem se foi por ironia ou se por amor, resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor.


Na infância, sem conhecer o marujo, minha mãe contou-me, em um dia carujo, da sua valentia, dos versos que fizera pra ele, falando de mim e também do que sentia. Catava:

“Veja bem, meu bem,

Sinto te informar, que arranjei alguém pra me confortar.

Este alguém está quando você sai.

Eu só posso ter, pois sem ter você nestes braços tais.


Veja bem, amor, onde está você?

Somos no papel, mas não no viver.

Viajar sem mim, me deixar assim.

Tive que arranjar alguém pra passar os dias ruins.


Enquanto isso, navegando eu vou sem paz.

Sem ter um porto, quase morto, sem um cais

E eu nunca vou te esquecer, amor.

Mas a solidão deixa o coração neste leva-e-traz.


Veja bem além destes fatos vis.

Saiba: traições são bem mais sutis.

Se eu te troquei não foi por maldade.

Amor, veja bem, arranjei alguém chamado saudade”.


“laiá, laiá... laiá, laiá”.


Eram versos lindos, como seus olhos, já azuis pela cor do mar. Enquanto ela esperava lá, cansada de tanto amar, na pedra do porto, com aquele o olhar quase morto, a esperança escrava, ainda sorria quando uma embarcação no cais atracava.


Seu cabelo se branqueou, mas nenhum barco seu amor a devolvia. Os caranguejos lhe mordiam, sua roupa, sua tristeza, sua ilusão. Todos a chamavam de louca, a louca do cais. Mas ninguém podia arrancá-la. Do mar, não a separaram jamais.


Certo dia deixei-a sozinha, no esquecimento, com sua agonia, seu espírito, seu amor em mar. Com o sol, o velho vestido a voar, permaneceu naquele lugar, no molhe de São Bras.


Agora conto minha história, com esse nome que ainda hoje carrego comigo, quando vou de bar em bar, viro a mesa, berro, bebo e brigo. Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz, me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus.






_______________________
"Minha história" (Gesú bambino), música e letra de Lucio Della e Paola Pallotino, versão de Chico Buarque.
"El Muelle de Sán Blas", música e letra de Fernando Olvera e Álex González, banda Maná.
"Tristeza", Vininius de Moraes.
"Veja bem meu bem", Música e letra de Marcelo Camelo.
Adaptação minha, com versos e palavras que dão rima e ajustam ao contexto das músicas para expressar a ideia do texto.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O Pombo Enxadrista






Há anos eu jogo xadrez no mesmo lugar, na mesma mesa da Praça da Alfândega. Na velhice, é a única coisa que faz eu me sentir vivo, depois que perdi minha amada esposa.

Vou à tarde, sento-me na minha mesa da sorte e só saio à noite, quando começa a escurecer e aparecem os primeiros “perdidos”.

Sempre que chego já me aparece outro velho pra me desafiar.

Sempre ganho. Nem lembro das vezes que perdi, de tão raras. Sou um bom enxadrista, modéstia parte.

Dia desses, porém, cheguei e vi que minha mesa da sorte estava tomada de cocô de pombo. Aquela praça é cheia deles. Mal se podia ver as 64 casas, pois estavam todas brancas de merda de pombo. Situação desagradável.

Não quis limpar. Decidi-me a não jogar nesse dia.

Foi então que um velho, do outro lado da ruela, me chamou para jogar no tabuleiro da mesa dele. 

Sentei e joguei. 

Perdi todas as partidas...

Maldito pombo!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

No cais de São Brás

No Cais de São Brás




Ela despediu-se de seu amor, que em um barco partia
No cais de São Brás, onde ele jurou que voltaria
E encharcada em prato ela jurou que esperaria


Mais de mil luas se passaram
E ela estava sempre no cais... esperando


Muitas tardes se passaram
Passaram-se em seu cabelo e seus lábios


Vestia o mesmo vestido, pois se ele voltasse não iria se enganar
Os caranguejos a mordiam, sua roupa, sua tristeza e sua ilusão


E o tempo se escorreu, e seus olhos se encheram de amanheceres
Pelo mar se apaixonou e seu corpo se enraizou no cais.


Sozinha no esquecimento, com seu espírito
Sozinha, com seu amor em mar, no cais de São Brás


Seu cabelo se branqueou, mas nenhum barco seu amor a devolvia
E todos a chamavam de louca, a louca do cais de São Brás


Em uma tarde tentaram levá-la a um manicômio
Mas ninguém podia arrancá-la
Do mar jamais a separaram


Sozinha no esquecimento, com seu espírito
Sozinha, com seu amor em mar, no cais de São Brás
Quedou-se sozinha até o fim
Com o sol e com o mar, ficou nesse lugar
Sozinha no cais de São Brás




Tradução meia-boca feita por mim para música “El Muelle de Sá Blás”, de Monchy e Alexandra, interpretada por Maná.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Cuba

Cuba divide opiniões. Porém, essas opiniões são incrustadas de ideologia, seja de esquerda, seja de direita, mesmo que quase todas essas pessoas que discutem nunca tenham ido a Cuba. Muito se discute sobre a maneira como vivem os cubanos; a repressão e a ditadura exercida pelo Estado ao povo; falta liberdade de opinião e imprensa. Porém, compre-nos perguntar a nós mesmos, em nosso mais íntimo posicionamento, seja conservador, seja reacionário, seja revolucionário, algumas questões: nosso modelo político e de Estado é melhor que o de Cuba?, nossa imprensa livre não é, análoga a essa “ditadura”, escrava de interesses privados, esses causadores de diferenças sociais gritantes?, nossa educação, saúde e consciência política são melhores aqui e nos países liberais do que lá em Cuba?

Só responderei a mim mesmo, essas questões e outras questões, quando ver as respostas com meus próprios olhos. Mas até lá, continuarei buscando uma verdade mais próxima da realidade. Leio artigos de esquerda à direita (entenderam o trocadilho?), e esse me chamou muito a atenção. Foi publicado em uma das revistas que mais sacia meu espírito de justiça. Segue abaixo.

Artigo de Fidel Castro escrito em 30/09/2010 e publicado na revista Caros Amigos


A destruição do mundo está nas mãos de Obama

Por Fidel Castro

Há dois dias, assisti Vanessa Davies em seu programa Contragolpe, do canal 8, da TV venezuelana. Ela entrevistava e multiplicava suas perguntas dirigidas a Basem Tajeldine, venezuelano inteligente e honesto, cujo rosto transparecia nobreza. No momento em que liguei o aparelho de televisão, estava em debate minha opinião de que apenas Obama podia impedir a guerra.

Imediatamente, veio à memória do historiador a ideia do enorme poder que lhe era atribuído. E, com certeza, é assim. Contudo, estamos pensando em dois poderes diferentes. O poder político real nos Estados Unidos está nas mãos da poderosa oligarquia dos multimilionários, que governam não só esse país, mas também o mundo: o gigantesco poder do Clube Bilderberg descrito por Daniel Estulin, criado pelos Rockefellers e pela Comissão Trilateral.

O aparelho militar dos Estados Unidos com seus organismos de segurança é muito mais poderoso que Barack Obama, presidente dos Estados Unidos. Ele não criou esse aparelho, e também o aparelho não o criou. Foram as excepcionais circunstâncias da crise econômica e da guerra os fatores principais que levaram um descendente do setor mais discriminado dos Estados Unidos, dotado de cultura e inteligência, a assumir o cargo
que ocupa.

Em que alicerça o poder de Obama neste momento? Por que eu afirmo que a guerra ou a paz vão depender dele? Tomara que a entrevista da jornalista com o historiador sirva para ilustrar o assunto.

Vou dizer de outro jeito: a famosa mala com as chaves e o botão para lançar uma bomba nuclear surgiu devido à terrível decisão em que isso resultaria, o caráter devastador da arma, e a necessidade de não perder uma fração de minuto. Kennedy e Khruchov passaram por essa experiência e Cuba esteve a ponto de ser o primeiro alvo de um ataque em massa com tais armas.

Ainda lembro a angústia refletida nas perguntas que Kennedy indicou ao jornalista francês Jean-Daniel me fazer quando soube que viria a Cuba e se reuniria comigo. “Será que Castro sabe que estivemos à beira de uma guerra mundial?”

Desde então, decorreu já quase meio século. O mundo mudou; muito mais de 20 mil armas nucleares foram desenvolvidas e o poder destruidor delas é equivalente a quase 450 mil vezes o daquela que devastou a cidade de Hiroshima. Qualquer um tem direito de se perguntar: Para quê serve a mala nuclear?

Essa mala é algo tão simbólico quanto o bastão de comando que permanece nas mãos do presidente como pura ficção.

Ora, bem. Eu me referi não a que Obama seja poderoso ou muito poderoso; ele prefere praticar basquetebol ou proferir discursos. Além disso, foi-lhe conferido o Prêmio Nobel da Paz. Michael Moore exortou-o a que ele o ganhasse agora. Talvez nunca ninguém imaginasse, e ele ainda menos, que nesta etapa final do ano 2010, se ele acatar as instruções do Conselho de Segurança das Nações Unidas — ao qual talvez seja exortado com firmeza por um sul-coreano chamado Ban Ki-moon — será responsável pela extinção da espécie humana.

Fidel Castro Ruz é ex-presidente de Cuba.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Estatísticas do blog

Eu pensei em esperar chegar em 1000 visualizações, mas daí esperaria mais dois anos. Atualmente está em 552 visualizações. Agradeço as 102 pessoas que, como eu, tem preguiça de digitar o URL lá em cima e digitam no google e ainda clicam no "estou com sorte" (NÃO, NÃO ESTÁ!). Às 15 pessoas que digitaram o URL, ao invés de procurar no google. Agradeço ao(à) russo(a), o(a) lituano(a), e o(a) eslovaco(a) que olharam meu blog. Agradeço ao nãopoderir.com que também originou 20 visitas no meu blog. Agradeço também aos 429 brasileiros, aos 82 norte-americanos, aos 21 alemães, aos 20 dinamarqueses, aos 13 canadenses, e ao português que teve que entrar 4 vezes para entender o que eu escrevi (desculpa, não pude evitar a piada).




Só não me perguntem de onde vieram essas visitas. Eu divulguei em comunidades do Orkut, no meu perfil também, mandei para alguns amigos, coloquei o link como assinatura do meu e-mail (por isso que quando é repassado, alguém deve entrar). Talvez seja daí, vai saber!?!?



Bom, para um blog cheio de baboseiras e erros de português, até que (em dois anos) é um bom número de visitas.

Estou procurando algum parceiro que queira escrever também. Pode ser qualquer coisa, desde que preste (mais do que os meus textos, de preferência). Quem quiser entre em contato comigo pelo e-mail rafaelrivas@tj.rs.gov.br

Segue o print da tela pra não dizerem que eu to mentindo. Não é fotoshopada, mas se não acreditam, vão se foderem!


Clique para ampliar (ou não!)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Mariluz – O Último Dia de Praia (+18)


Não sei colocar censura etária, portanto, se tiver menos de 18 anos, ser virgem, ou não gostar de emoções fortes, não leia a partir daqui!




Mariluz – O Último Dia de Praia




















Após duas semanas curtindo Mariluz (município litorâneo norte riograndense, praia pequena e irrelevante para a rotação do mundo, mas incontornável depois de descoberta), havia chegado o último dia dessas pequenas férias. Eu, minha namorada e meu melhor amigo, também com sua namorada, alugamos dois quartos de uma pousada bem discreta, familiar, cor de salmão - ou um laranja já desbotado -, à beira-mar. Alugamos um quarto ao lado do outro. O único problema é que a parede comum aos dois quartos era muito fina, e durante a noite alguns soluços escapavam, tanto de lá quanto de cá. Mas por causa dos mosquitos dormíamos completamente tapados pelo lençol, o que abafava um pouco o barulho.

Passamos o dia na areia, elas tomando banho de sol e nós, homens, jogando um futebolzinho. Depois, já no finalzinho da tarde, apreciamos o pôr-do-sol com um chimarrão, um violão e muitas risadas. Aproveitamos o dia como se aquele fosse o último dia de verão de nossas vidas. Dia 25, segunda-feira, eu tinha de voltar ao trabalho, naquele escritório chato de pessoas chatas e papéis inúteis.

Enquanto minha namorada Ana e meu amigo Zeca iam lavar os chinelos no mar, Suellen, a nova namorada do meu amigo, me revelou um tanto escondida que eu tocava muito bem, o que me fez reparar nela como não havia reparado ainda desde então. Em respeito ao meu amigo, não ficava espichando os olhos pra ela. Mas, assim que ela falou aquilo, levantou e foi em direção ao mar. Aí que percebi Suellen, toda loira, de pele tostada pelos banhos de sol, com seu short sumário deixando escapar as polpas da bunda e uma blusinha de crochê içada, pela imponência dos seios, pouco acima do umbigo. Ao estilo mignon, contava com apenas 1m60cm de uma suntuosa silhueta. Tinha olhos grandes e verdes, esplêndidos pares de coxas e pezinhos pequenos como uma chuva miúda no verão.

Passado o lapso de cobiça da mulher alheia e recobrando os sentidos após surto de vaidade que me tomou o espírito, soltei os lábios ainda rijos, levantei, sacudi a areia da bermuda, calcei os chinelos e emparelhei a caminhada com os três rumo à pousada.

Como em todas as outras noites, saímos pelo centrinho de Mariluz. Só que aquela noite era especial. Estava exalando uma estranha e agradável brisa no ar, que lambia nossos corpos com sua maresia e nos deixava ainda mais em clima de festa. Riamos sozinhos, nós quatro. Era realmente uma noite muito boa.

Lá por volta das duas da madrugada, sentamos à beira do mar novamente. Jogamos conversa fora, bebemos e discutimos planos. Tudo que quatro pessoas falariam quando levemente embriagadas. Um clima assim impende muitas indiretas por parte das mulheres. Sim, é claro que elas, amiúde, aproveitavam para se lamuriar daqueles gravames comuns à nossa raça.

O tempo corria nas crinas do vento, enquanto o sono chegava a cavalo e nossos olhos já semicerrados lacrimejavam. O grau etílico subiu gradativamente, seja pelos ponteiros do relógio, seja pelo cansaço que nos tomava da festa “interminável” das últimas duas semanas. Havia também uma garrafa quase vazia – ou meio cheia – de uísque nos acompanhando. Mas essa não tinha culpa de nada.

Voltamos - cambaleantes - para nossos respectivos quartos. Entretanto, antes de eu poder processar a ideia de me esparramar na cama e desfrutar as últimas horas das minhas férias, por alguma coisa que eu fiz - ou deixei de fazer -, mesmo sem saber o que tinha sido, minha namorada começou a discutir comigo. Mais uma daquelas brigas pesadas, que tanto me irritavam e me desmotivavam. Mulheres sempre fazem isso: pegam frases desconexas e fora de contexto, criam uma estória no seu imaginário fértil e usam contra nós depois, pobres e indefesos homens, escravos dessas torpes criaturas de Deus. Deve ser a tal da TPM. Será que ela percebeu algum olhar de Suellen pra mim a hora que eu tocava violão? Ou alguma coisa com relação à minha falta de perspectiva para o casamento após seis anos de relacionamento?

Mandei ela longe, deitei de costas para suas costas e me fechei como dedos. Embora estivesse exausto, não conseguia conciliar o sono. Virava, revirava, abraçava o travesseiro e nada de achar jeito na cama. Estava irritado e de cabeça quente. Tive de ir à beira mar para repensar minha vida, pois aquela briga era definitiva! (Sempre é!) O som das ondas e a maresia têm um efeito terapêutico em mim. Levei comigo o resto daquele uísque e bebi até a última gota. Já era o suficiente (?!).

Estava completamente envolto em pensamentos quando percebi que meu amigo também andava pela praia - talvez pelo mesmo motivo. Não pensei que aquela conversa na beira do mar tinha rumado para tais armadilhas femininas. Pegaram-nos desprevenidos, as duas! No entanto, Zeca estava avesso e não queria pensar ao som das ondas e cheirando maresia, queria mesmo beber mais no centro de Marilight, ver a mulherada. Orra, em posse daquela loira cordicuia de olhos verdes ele ainda tem olhos para outra mulher? Eu recusei a proposta e voltei trocando os pés ao meu quarto.

Quando entrei no quarto, pensei em não acender a luz para não acordar minha (furiosa) namorada. Não é que a desgraçada tinha conseguido dormir?! Pé por pé fui até a cama e deitei. Senti álcool das duas semanas inteiras retumbar naquele escuro circundante. Nesse instante, veio-me à cabeça que nas vezes em que brigamos nossas reconciliações sempre se davam com boas doses de sexo. Na minha opinião, as melhores transas são depois das piores brigas.

Obstinado pelo pensamento, parti para o ataque. Abracei seu corpo em concha, no desejo de dirimir aquela briga inútil – ainda que não existam brigas úteis. Ela estava deliciosamente nua por de baixo dos lençóis. Senti que ela me retribuiu o gesto, arrastando no colchão sua bunda para perto da minha cintura e retirando com os pés, de uma só vez, o lençol que lhe cobria. Veio com um roçar sensual que me estremeceu até o último pelo da alma! Sentia a eletricidade pulsando por todo meu corpo. Aproximei meu queixo na nuca dela, tentando arrancar um arrepio de sua espinha com minha barba. Segurei firme seu cabelo enquanto minha outra mão deslizava sobre suas coxas, já todas ouriçadas pelos calos dos meus dedos. Continuei no pescoço, virando seu corpo até que pudesse chegar aos seus lindos seios. E que seios! Sentia o bico hirto em meus lábios, enquanto fazia movimentos com língua e boca, ora remansados, ora provocadores. Pareciam deliciosamente firmes. Ela revirava-se, deixando marcas perpétuas no colchão. Nunca havia sentido tal aproximação entre nós. Aquele cheiro de xampu entrando nas minhas narinas. Era um desejo anímico, sem qualquer explicação plausível. Que pele! Enrolei minhas pernas nas dela, enquanto minhas mãos ainda descortinavam seu contorno. Foram minutos de intenso prazer preliminar. Indescritível. Com um movimento rápido, segurei com força e firmeza suas costas, virando seu corpo de bruços, de forma com que pudesse deitar sobre sua pronunciada bunda. Num pulo, tirei a cueca, subi e entrei. Nesse momento, em um gemido impudico, lento, tórrido e impublicável, como em uma ironia romântica, ela exclamou: “AI ZECA!”…


Sim, na azáfama da embriaguez eu havia imperdoavelmente errado de quarto. E antes que eu pudesse me lamentar do erro… já estava dentro da namorada do meu melhor amigo.








* A frase "pequena e irrelevante para a rotação do mundo, mas incontornável depois de descoberta" é de Luís Augusto Fischer, e está no songbook do Vitor Ramil.

** A expressão “Ironia Romântica” explicada em http://www.edtl.com.pt/?option=com_mtree&task=viewlink&link_id=448&Itemid=2.