Há anos eu jogo xadrez no mesmo lugar, na mesma mesa da Praça
da Alfândega. Na velhice, é a única coisa que faz eu me sentir vivo, depois que
perdi minha amada esposa.
Vou à tarde, sento-me na minha mesa da sorte e só saio à
noite, quando começa a escurecer e aparecem os primeiros “perdidos”.
Sempre que chego já me aparece outro velho pra me
desafiar.
Sempre ganho. Nem lembro das vezes que perdi, de tão raras. Sou um bom enxadrista, modéstia parte.
Dia desses, porém, cheguei e vi que minha mesa da sorte estava
tomada de cocô de pombo. Aquela praça é cheia deles. Mal se podia ver as 64
casas, pois estavam todas brancas de merda de pombo. Situação desagradável.
Não quis limpar. Decidi-me a não jogar nesse dia.
Foi então que um velho, do outro lado da ruela, me chamou
para jogar no tabuleiro da mesa dele.
Sentei e joguei.
Perdi todas as partidas...
Maldito pombo!
